Religião

21/02/2020 | domtotal.com

'A verdade vos fará livres': o samba-enredo da esperança

É preciso fazer como Cristo, se quisermos ser cristãos: colocarmo-nos ao lado dos crucificados e lutar com eles

'Rosto negro, sangue índio, corpo de mulher'. Essa descrição aponta para a conformação de Jesus com as minorias de nosso país, especialmente as que mais estão sofrendo, atualmente.
'Rosto negro, sangue índio, corpo de mulher'. Essa descrição aponta para a conformação de Jesus com as minorias de nosso país, especialmente as que mais estão sofrendo, atualmente. (Reprodução site oficial da Mangueira)

Eduardo César*

Há um canto muito conhecido na liturgia católica que entoa a resistência da esperança cristã. Ele diz assim: “se calarem a voz dos profetas, as pedras falarão; se fecharem uns poucos caminhos, mil trilhas nascerão”. A esperança é esse jeito contumaz de contornar os limites históricos e circunstanciais e ver, para além das tragédias e fracassos, um horizonte possível. Por isso, antes de ser uma espécie de encantação e ilusão com o futuro, a esperança nos impele a persistir.

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Paulo tinha razão: “somos atribulados por todos os lados, mas não esmagados; postos em extrema dificuldade, mas não vencidos pelos impasses; perseguidos, mas não abandonados; prostrados por terra, mas não aniquilados. Incessantemente trazemos em nosso corpo a agonia de Jesus, a fim de que a vida de Jesus seja também manifestada em nosso corpo” (1 Cor 4, 8-10).

Podem mesmo calar os profetas, exilá-los, lapidá-los, crucificá-los, mas a força da Palavra, essa não pode ser silenciada jamais. Onde os poderes do mundo exercem obstinadamente o esforço de apagamento da palavra profética, mil trilhas nascerão. E onde os “responsáveis diretos” por essa palavra se calam, acomodam-se, esquecem-se da fome e sede de justiça (Mt 5, 6) tão imperiosa, a Palavra se oferece àqueles de quem nada se espera; àqueles que, desde sempre, são reconhecidos como de fora de nossos redutos, grupos, ou pensamento religioso. A Palavra de Deus encontra jeito.

Não é raro dar-se conta disto: as artes, a música, a poesia, muitas vezes conseguem exprimir muito melhor a revelação de Deus que nossos ritos, cultos, que nossas grandiloquências vazias. É inquietante, mas salutar, perceber que a Palavra não é propriedade nossa nem, tampouco, o Espírito. Ele é fonte de criatividade e sopra aonde quer (Jo 3, 8). Assim sendo, Deus pode se dirigir a nós de muitos modos e pode, por seu Espírito, fazer-nos acessar sua revelação também por meio da produção cultural e artística, dando-nos a conhecer o seu amor.

E por que Deus não se poderia dirigir a nós através de um samba-enredo de carnaval? De dentro dessa festa tão cara ao povo brasileiro, mas que é muitas vezes vista pelos religiosos como festa pecaminosa, “da carne”, “do mundo”, da qual é urgente fugir para dentro de nossas igrejas, ou retiros, será que Deus pode nos dizer algo?

Para além das discussões moralistas, polêmicas e arbitrariedades que não se cansam de estatuir os de “dentro” e os de “fora” de nosso grupo religioso e insistir que somos os únicos capazes de dizer retamente as questões de nossa fé (ortodoxia), o samba enredo da Mangueira de 2020 não parece apresentar-nos um Cristo diferente daquele em quem acreditamos. Aliás, o receio diante da imagem que o samba-enredo nos apresenta, talvez não tenha a ver com a falta de reto dizer, mas com o esquecimento da verdadeira imagem de Cristo, translúcida no Evangelho, mas que nossos interesses podem querer embaçar. Vamos, então, analisar o dito samba-enredo, com o intuito de captar a sua mensagem.

Na letra da canção é Jesus mesmo quem voltou e se dirige agora a seu povo. O retorno de Jesus já foi abordado outras vezes. Um exemplo clássico está no texto O grande inquisidor, de Dostoiévski. Ali, Jesus retorna, mas antes que possa dizer qualquer palavra é aprisionado por um inquisidor, um cardeal cadavérico e sem vida. Encontrará ele o mesmo fim de outrora, porque ousou ameaçar a ordem e a domesticação da liberdade que a Igreja conquistou com tanto empenho. Não muito diferente é o que imagina o samba-enredo: Jesus retorna, o seu povo é o povo pobre, da favela, gente oprimida e que está sendo assassinada. Sua mensagem é, mais uma vez, dirigida aos pequeninos, por quem ele fez opção preferencial. Por causa dessa palavra, Jesus estará ameaçado pelos “profetas da intolerância” mais uma vez. Pregaram uma vez o seu corpo na cruz e o continuam pregando, sempre quando crucificam algum dos seus, com quem ele se identificou (Mt 25, 31-46). Acaso o povo terá entendido sua mensagem, pergunta Jesus. Do que adiantam suas imagens cantadas nos cordéis, ou sua estátua no corcovado (ou as cruzes nos “cenários” políticos), se continuam matando e, às vezes, inclusive, em seu nome? A denúncia da hipocrisia, da violência, das chacinas e extermínios nas favelas, todas estão contidas aqui, nas poucas letras do enredo.

O samba também descreve Jesus: nasceu pobre, não é tão branco como sugerem seus retratos e ofereceu seu rosto amoroso aos mais esquecidos. Isso não deveria escandalizar ninguém. Jesus nasceu num lugar pequeno, esquecido por muitos, de onde não se acreditava poder vir nenhum messias (Jo 1, 46). E suas imagens de olhos azuis, loiro e pele branca, não passam de uma descrição eurocêntrica, que não é a descrição de quem nasce em Nazaré. Mas o preconceito e nossa lógica europeia ainda tentam defender que Jesus não deva ser negro, com cabelo afro. Daí decorrem vários absurdos, como reclamar que Jesus, sendo Deus, poderia ter vindo com a cor de pele que quisesse.

A descrição de Jesus continua: “rosto negro, sangue índio, corpo de mulher”. Essa descrição aponta para a conformação de Jesus com as minorias de nosso país, especialmente as que mais estão sofrendo, atualmente. O Brasil é ainda um dos países mais racistas do mundo, a memória de nossa negritude continua sendo apagada; nossa filosofia se debruça sobre os pensadores europeus, mas pouco sobre os pensadores de nosso país e, quando o faz, a cor de sua pele é “branqueada”. Recordemos, a título de exemplo, a pensadora Lélia Gonzaléz, importante intelectual (negra!) que revolucionou os estudos sobre sexismo e racismo; tão importante quanto desconhecida. Ou de Machado de Assis, um negro que não cansamos de ver retratado como um branco da elite. O Brasil também tem assistido aos acintes à comunidade indígena. Por causa da exploração depredatória de suas terras em busca de minérios, por causa dos desmatamentos irregulares e da expansão faminta do agronegócio, os índios são assassinados e tratados como involuídos, em relação à nós. O Brasil, igualmente, é o quinto país a matar mais mulheres no mundo. O ódio à mulher, ao gay, ao travesti e transexual, confirmam o machismo, a misoginia e a heteronormatividade como efeitos estruturais de um patriarcalismo que possui centenas de anos. Mas também escancara a leniência das classes ricas, do governo e também a autorização silenciosa que damos ao preconceito e ao genocídio como práticas do necropoder.

Jesus, todavia, mostra seu rosto amoroso a todos. Nele, já não estamos mais sob o império da lei que divide os homens entre puros e impuros, que diferencia homens e mulheres com os esquemas de pureza, que estabelece quem é escravo e quem é livre, quem é judeu e quem é pagão, a partir das práticas cultuais. Em Jesus, os critérios de exclusão caem, pois somos todos irmãos, incorporados na mesma graça, salvos por seu amor, não mais escravos da lei, mas libertos de seu jugo opressor. “Não há judeu nem grego, não há escravo nem livre, não há homem nem mulher; pois todos vós sois um só em Cristo Jesus” (Gl 3, 28). É evidente que não estamos insinuando que não haja diferenças entre nós, pois insistir nisso seria invalidar o sofrimento de muitos que padecem, simplesmente, por causa de suas diferenças. O que não pode funcionar mais é o medo da diferença; esse sim é perigoso e que leva à morte de tantos. Depois, se quisermos ser fiéis ao Cristo ressuscitado, teremos que concordar que ele é a cabeça de um corpo misto e diferenciado (1 Cor 12, 27s) e que ele é tudo em todos (Cl 3, 11).

O próximo verso é ainda mais questionador. Jesus diz: “(eu sou) moleque pelintra no buraco quente”. A referência aqui é ambígua; pode dizer respeito à criança maltrapilha, na favela, ou a uma entidade da umbanda. Se optarmos pela referência mais polêmica, poderíamos olhá-la como um exemplo de sincretismo, tão comum no nosso país; podemos falar de como os nossos referenciais católicos abraçam os referenciais da umbanda, meio que a cultura afro encontrou para sobreviver; ou ainda falar da universalidade da fé em Cristo, que não nega a especificidade da Igreja Católica, mas que abraça todos aqueles que queiram viver em amor e como irmãos, como sendo partícipes da mesma descendência de Cristo. E, se a partir do Cristo não formos capazes de dialogar com outras culturas religiosas, nós não o teremos entendido de fato.

Jesus se encontra na luta contra a opressão. Seu pai é desempregado, sua mãe é Maria das dores, ambos retratos do povo sofrido e que sobrevive com muito pouco, enquanto não falta nada aos que dormem em cama de marfim (Am 6, 4) e às vacas de Basã atuais (Am 4, 1). Jesus enxuga, pois, o suor desses aflitos e se deixa encontrar no amor que supera as fronteiras. Aqui, o samba-enredo também faz referência ao trabalho pelo qual o pobre é explorado, sem receber pagamento justo. Jesus enxuga esse suor, não para que o pobre se resigne, mas para que persista na luta pela justiça. Além disso, podemos ver também uma referência ao estrangeiro: o amor verdadeiro não encontra limites geográficos nem de raça ou cultura. Ao invés disso, o amor supera as fronteiras. É o que nos diz as Escrituras: “Ele defende a causa do órfão e da viúva e ama o estrangeiro, provendo-lhe alimento e vestimenta” (Dt 10, 18s).

Então, o samba enredo parece alertar o povo: “pega a visão”, diz. E acrescenta: “não tem futuro sem partilha nem Messias de arma na mão”. O chamado a ver pode ecoar muitas passagens do evangelho em que Jesus diz: “quem tem olhos para ver, veja!”. Um chamado à atenção que pode ser acrescido de outras inúmeras passagens de chamado à vigilância e ao discernimento. A mensagem é puramente evangélica e crítica: não existe futuro sem partilha. Não foi outra coisa o que Jesus ensinou, de fato, ao partir o pão (Mc 6, 41ss). Jesus também apontou para a própria vida como pão, entregue em favor do povo (Jo 6, 51). Partilhar o pão e partilhar a vida são duas realidades que se interpenetram. E a crítica que o enredo acrescenta é fundamental: não existe Messias com arma na mão. Nem Messias que faça de seu projeto de governo a eliminação de direitos conquistados a duras penas, ou o retrocesso em relação à conquista de políticas públicas para minorias. Esse projeto só pode ser o do antirreino. Ao defender esse projeto tão escancaradamente injusto, os cristãos se esquecem a realidade profética de Jesus.

A esperança cristã, contudo, não se cala, diante da injustiça. Não se deve calar. É vergonhoso dar-se conta de que nossa esperança também foi esvaziada de seu potencial profético. Esperança não é esperar, não é aguardar, mas é fazer caminho, desde já. E para tanto, é preciso estar preparado para as perseguições. Para as cruzes. “Vão te inventar mil pecados, mas eu estou do seu lado...”, diz o enredo. O samba também reconhece o principal mistério da vida de Jesus: a cruz não o calou, a vida vence a morte. Por isso é preciso cantar: “quarei tambor, da cruz fiz esplendor, e ressurgi no cordão da liberdade”. A ressurreição de Jesus é a autorização que Deus dá à vida desse homem. Morto por causa da violência, que muitos defendem; assassinado pela religião, que às vezes se alia aos poderes opressores, Jesus se irmana dos crucificados de sempre e com eles se põe a caminho. É preciso fazer como Cristo, se quisermos ser cristãos: colocarmo-nos ao lado dos crucificados e lutar com eles. Assim, a Ressurreição de Cristo se dará também em nossa vida crucificada, pois o que aconteceu com ele, também é nosso destino. A liberdade e a alegria da ressurreição devem continuar acontecendo não só pessoalmente, mas também na nossa história, através da justiça. A verdade que liberta, afinal, não é uma verdade teórica, é a verdade de uma vida, totalmente doada.

*Eduardo César é presbítero da Diocese de Uberlândia. Formado em Filosofia pela PUC-MG Uberlândia e em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE). É graduando em psicologia pela Faculdade Pitágoras de Uberlândia e em formação em Psicanálise.

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