Religião

21/02/2020 | domtotal.com

Alegria, alegria!

Carnaval, fé e política são eixos da nossa humanidade que, somente pelo amor e pela tolerância, é capaz de se tornar semelhante à humanidade de Cristo

O carnaval traz, em sua memória, todos os outros carnavais, suas lutas, canções, desfiles, alegria, cultura.
O carnaval traz, em sua memória, todos os outros carnavais, suas lutas, canções, desfiles, alegria, cultura. (Quinten de Graaf / Unsplash)

Daniel Couto*

O carnaval recomenda-se como breve ressurreição da vida, sufocada no resto do ano.
O carnaval socializa o folião, que depois volta ao individualismo descontente.
(Carlos Drummond de Andrade, O avesso das coisas, Carnaval)

O carnaval é uma das festas populares mais importantes da contemporaneidade. Ao redor dela encontramos um envolvimento social, econômico, cultural e político. Com suas raízes religiosas, tendo sua data atribuída em relação ao calendário da Igreja Romana, e a sua gênese nas comemorações que antecediam imediatamente o período da quaresma, experimentamos no carnaval a “alegria popular”.

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É essa uma das principais características do carnaval: a liberdade e a expressividade. Por mais que os discursos “conservadores” busquem cercear a expectativa das pessoas pelo período de festa, têm-se no carnaval o apogeu da participação, coletividade e paixão. Contamos os dias para a “folia”, iniciamos os preparativos meses antes, formamos nossos blocos, customizamos as fantasias. Todos se envolvem para “tomar as ruas”. O carnaval é uma ação democrática, pulsão de alegria que ocupa os espaços públicos transformando as angústias, mazelas e dificuldades em um grito de fé. Poderíamos falar de fé e política em pleno carnaval?

As expressões culturais são a encarnação do espírito na coletividade e na produção humana, carregando, nos seus traços particulares, a identidade dos povos construída ao longo do processo histórico. Aquilo que experimentamos em alguns dias de festa são camadas e mais camadas de cultura e história que se sobrepuseram, ao longo de anos, para formar a base sobre a qual o “agora” é construído. Esse “agora”, portanto, também fará parte desse tesouro histórico formador da humanidade. O carnaval traz, em sua memória, todos os outros carnavais, suas lutas, canções, desfiles, alegria, cultura. Não se pode emudecer uma voz que ressoa por todos os cantos, que traz em si todos os que gritaram antes, que se alegraram na “festa do povo”.

Deste modo, o carnaval possui grande semelhança com a fé. Primeiro a esperança da libertação, a chegada de um tempo que nos torna livres de uma série de opressões e convenções sociais onde apenas a fluidez da humanidade, o contato com os irmãos e a alegria do convívio interessa. Não é novidade escutarmos que no Brasil “tudo para no carnaval”. Talvez a melhor expressão seria “tudo muda no carnaval”. Para os que gostam da folia, ou para os que preferem ficar em casa ou descansar, a realidade é a mesma: existe um “tempo próprio do carnaval”. Esse tempo chega para todos, ele é democrático porque é possível fazer escolhas sobre uma “realidade” e optar por uma ação ou outra. Assim como a fé, o carnaval é objeto de adesão. Para os que gostam, e para os que não gostam, o carnaval acontece e explode como uma expressão da diversidade e da tolerância.

Por outro lado, na fé e no carnaval, encontramos a “camarotização”. Buscando uma experiência “exclusiva”, isolando-se da “massa” e se entendendo como um “corpo” superior aos outros corpos, algumas pessoas determinam que o “carnaval é seu”. Aqui o cerne da questão não é exatamente a existência de camarotes, mas o entendimento por trás dessa pratica. Como pegar uma expressão cultural livre e democrática e torna-la privada e limitada? Como fazer da gratuidade e da ocupação dos espaços públicos uma experiência restrita aos “pagantes”? É o deus capital agindo sobre o espírito coletivo, tomando para si a força do carnaval para enriquecer, ainda mais, os seus cofres. O carnaval é livre, seja de rótulos sociais, seja de rótulos de “cerveja”. Somente o povo pode ser o “dono do carnaval”. De igual modo, a fé é uma expressão gratuita da relação entre os seres humanos e a divindade. O que mais encontramos, porém, são “camarotes” eclesiais. E, pior ainda, muitos fiscais para determinar aqueles que são dignos, ou não, de se relacionar com Deus.

Da mesma maneira que se relaciona com a fé, o carnaval também é uma manifestação política. Uma das principais questões trazidas pela festa é a ocupação democrática do espaço público. No tempo do carnaval, ruas, praças, avenidas e equipamentos culturais são tomados pelos cidadãos e visitantes da cidade, ressignificando a utilização daquele espaço. Essa pauta nos mostra que o espaço público possui uma utilização que está a serviço da população e não o contrário. É dessa maneira que uma avenida pode se tornar palco para o desfile de um bloco. Não é o espaço que determina o que acontecerá nele, mas a ocupação pública que dá significado ao lugar. Esse exercício político, que demonstra a força popular, cada vez mais tem demonstrado o poder da participação e o real significado da política.

Quando uma cidade se transforma, como aconteceu, por exemplo, em Belo Horizonte, a partir da própria iniciativa popular, em um grande caldeirão cultural do carnaval, com blocos, escolas de samba, intervenções artísticas, festas, oficinas e alegria, percebe-se que a administração do estado deve ouvir o “clamor das ruas” pois é “do povo que emana todo o poder”. Mais do que oferecer a estrutura para que a festa aconteça, é dever da política colocar em pauta a diversidade representada “na avenida”. 

Nos últimos anos os blocos carnavalescos trouxeram importantes contribuições sociais, como a discussão dos direitos das mulheres, o combate e a identificação da importunação sexual, a luta pelos direitos de pessoas gays, lésbicas, bissexuais, transgêneros e de toda a diversidade sexual e de gênero, a luta contra o racismo, a explicitação das mazelas sociais e a reivindicação por igualdade de direitos, a desigualdade social, a violência, a dor e o sofrimento das pessoas marginalizadas pela sociedade, a liberdade religiosa e muitos outros temas. Nesses movimentos culturais carnavalescos - muitos nascidos na periferia - temos retratadas as necessidades da população que, na maioria das vezes, é silenciada nas “casas representativas” e nas discussões da “mídia oficial”. É porque o carnaval dá “voz aos excluídos” que ele é perseguido pelos conservadores caiados.

Enredos carnavalescos de escolas de samba e blocos causam espanto naqueles que constroem uma realidade “apartada”, onde apenas o ideário normativo da classe dominante é projetado. Quando a cidade se torna o palco político da diversidade, a reivindicação por lugar e voz, e busca uma quebra de paradigma por meio da arte, da experiência e da pulsão cultura, os “dominadores” se sentem em perigo. 

A revolução política do carnaval, de igual modo, nos lembra o “revolucionário” galileu que, “andando com os excluídos” buscava reconduzir sua sociedade para o caminho do amor e da tolerância. Os poderes instituídos temem a liberdade, a autonomia, o pensamento e a vida. Carnaval, fé e política precisam - e devem - ser discutidas no “palco do mundo”, onde as vozes não podem ser caladas, porque cantam em multidão a alegria da humanidade.

Por isso, o carnaval de rua é sinônimo de resistência. É o resgate da cultura formadora da nossa sociedade, com a participação popular e uma constante crítica social. Memória de todos aqueles que vieram antes de nós, que olharam a política de maneira encarnada e fizeram da sua vida o próprio exercício de cidadania. Mais do que um “feriado” e longe de ser taxado como “promiscuidade”, o carnaval tem a força de manter a cultura brasileira se movendo, diante de todos os ataques, porque resgata, na origem dos nossos povos e da nossa cultura, os elementos que nos tornam filhos do Brasil. Somos conhecidos, mundialmente, pela alegria da nossa festa, pela hospitalidade e cordialidade da nossa população, pelo ritmo contagiante que toma as ruas no carnaval.

Se a avenida se torna o “palco do mundo”, devemos levar para ela toda a nossa humanidade. Quando celebramos o carnaval celebramos a vida. Como é bom estarmos juntos, em comunhão, buscando justiça, paz e amor com alegria. É preciso colocar diante dos olhos, da voz e do coração aquilo que temos de melhor e pior, pois apenas confrontando a nossa humanidade é que podemos nos tornar melhores. Isso nos recorda outra coisa: a ressurreição do Cristo. Ele que nos torna novas criaturas, pelo seu amor, nos chama a ser “Cristo no mundo”. A alegria do carnaval, para os cristãos, será contida por quarenta dias após a folia. No carnaval nossos corpos, junto à multidão que se alegra, se torna um só corpo político e cultural, na “festa do povo”. Na páscoa nosso corpo se torna um só na “festa da nova humanidade”. Que a alegria nos impulsione para uma nova sociedade e que a resistência do carnaval nos fortaleça na luta pela justiça e pela igualdade. Carnaval, fé e política são eixos da nossa humanidade que somente pelo amor e pela tolerância é capaz de se tornar semelhante à humanidade de Cristo. Tornar-se corpo, eis o mandamento do cristão!

*Daniel Couto é doutorando e mestre em filosofia na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) com pesquisas na área de filosofia antiga, retórica grega, filosofia aristotélica e recepção da filosofia antiga. Trabalha, ainda, com a Liturgia, a Ritualidade Cristã, a Cerimonialidade e a Teologia Litúrgica e é membro da Celebra (Rede de Animação Litúrgica)



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