Religião

21/02/2020 | domtotal.com

Carnaval e encarnação da profecia

A profecia saiu do ambiente religioso e se fez valer do carnaval

Bloco Loucura Suburbana, do bairro Engenho de Dentro, na Zona Norte do Rio de Janeiro
Bloco Loucura Suburbana, do bairro Engenho de Dentro, na Zona Norte do Rio de Janeiro (Fernando Maia | Riotur)

Felipe Magalhães Francisco*

O carnaval antecede a quaresma, disso todos e todas já bem sabemos. A piedade quaresmal é marcada pelo comedimento e pelo jejum. Uma das tradições está em se abster de carne, nesse período de retiro em preparação para a Páscoa. A festa do carnaval, então, é a preparação para a quaresma, que é também uma preparação. Despedir-se da carne é o significado de “carnaval”.

Essa é uma das maiores festas populares do mundo. Por aqui, costumamos dizer que o ano só começa, mesmo, depois do carnaval. Não é sem motivos: muita energia é destinada tanto na preparação, como nos festejos de carnaval. Se, no cotidiano, estamos acostumados – infelizmente! – com os donos do poder que tocam a vida da sociedade a partir de seus próprios interesses, no carnaval há uma popularização do poder: o espaço público, tomado pelos foliões, é a ressignificação da democracia, do poder que emana do povo.

Os mais estridentemente religiosos costumam odiar o carnaval, por achar que toda a folia é a celebração da depravação e da imoralidade. Excessos e exageros estão em todos os lugares, inclusive no exercício da religião. Olhar com generosidade para esta festa é também importante, porque ela é carregada de simbolismos que extrapolam a diversão imediata que os festejos proporcionam. Carnavalizar é um ato político, no melhor dos significados desta expressão: é a inversão do sistema de classes que provoca injustiça; é o grito de que todos e todas têm direito à participação e de apropriação do espaço público.

Mais que isso: o carnaval se torna uma maneira de resistir às investidas injustas que ameaçam a vida e os direitos da população, sobretudo aquela mais pobre e perseguida. Muitos sambas-enredos têm se tornado forte contribuição de denúncia das injustiças sociais, fazendo jus àquilo que o samba é na sua raiz: resistência e celebração da vida. Este ano, o samba-enredo da Mangueira já deu o que falar, desde o momento em que foi divulgado. Mesmo antes do carnaval, já tivemos uma boa frutificação do samba: ele gerou debate.

A profecia saiu do ambiente religioso e se fez valer do carnaval. É por isso que gerou tanto incômodo, como deveria mesmo gerar. No contratestemunho de cristãos e cristãs que apoiaram e apoiam um projeto de poder autoritário, violento e desumano, a recordação do significado do Evangelho de Jesus Cristo veio como alerta necessário ao nosso atual momento, pois, por mais que tentem, não é possível calar a profecia. Se os cristãos e cristãs, que, por força batismal, participam do múnus profético de Cristo se calam, tirando os pés do chão da história, a profecia se encarna no extramuros.

Neste Dom Especial, voltamos nosso olhar para este aspecto profético do carnaval, sobretudo no desse ano, com o samba-enredo da Mangueira, que traz Jesus como pé de conversa. No primeiro artigo, Alegria, alegria!, Daniel Couto faz uma leitura que destaca os aspectos de fé e políticos ligados ao carnaval, de modo crítico. Rodrigo Ferreira, em seguida, reflete sobre a importância da profecia e sua extrapolação dos ambientes cristãos, com o artigo Vozes proféticas nos extramuros da Igreja. Finaliza nossa reflexão, Eduardo César, com o artigo A verdade vos fará livres: o samba-enredo da esperança, no qual propõe uma análise teológica do samba, ressaltando a esperança, tão fundamental para nossos dias.

 Boa leitura!

*Felipe Magalhães Francisco é teólogo. Articula a Editoria de Religião deste portal. É autor do livro de poemas Imprevisto (Penalux, 2015). E-mail: felipe.mfrancisco.teologia@gmail.com



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