Cultura

24/02/2020 | domtotal.com

Meteorologia caipira

Em contato direto com a Natureza, o homem do campo era tão inteligente como os animais

Neve baixa, sol que racha; neve na serra, chuva na terra
Neve baixa, sol que racha; neve na serra, chuva na terra (Michal Kubicek / Unsplash)

Afonso Barroso *

Quando ouço no rádio ou vejo na tevê bonitas moças da meteorologia falando em “baixa pressão atmosférica e zona de convergência intertropical”, fico pensando na infalível previsão do tempo exercida por homens e animais do campo nos meus tempos de menino da roça. “Neve baixa, sol que racha; neve na serra, chuva na terra”, diziam os sábios roceiros ao observar no horizonte a flutuação da névoa, que chamavam de neve. E era batata: se estava baixa, era dia de sol. Se alta, vinha chuva.

Os animais também sabiam prever o tempo. A chamada baixa pressão atmosférica, por exemplo, era identificada pelas andorinhas. Quando voavam em grandes altitudes, era sinal de tempo bom. Se o voo era baixo, era mau tempo na certa. Não por acaso dizia-se que com esses voos altos elas faziam verão. E nunca sozinhas.

As vacas também previam chuva. Elas normalmente deitavam-se bem juntas umas das outras como forma de se protegerem na iminência de um temporal. E a chuva caía mesmo.

Quando sapos e rãs subiam o tom do canto, podia-se esperar chuva. Segundo os meteorologistas da roça, eles aproveitavam o tempo também para um romance. Amar com chuva era mais gostoso e proporcionava às fêmeas a desejada gravidez. O acasalamento, como é óbvio, resultava em ovos.

Cães e gatos também previam o tempo. Ficavam mais agitados quando sentiam uma iminente alteração atmosférica. Tinham um sétimo sentido que acusava oscilações imperceptíveis da terra, por exemplo. No Haiti, conta-se que um cão labrador despertou de repente do sono que desfrutava em um escritório e saiu em disparada. Soube-se logo depois do que ele fugia: era do terremoto avassalador que abalou o país.

Abelhas, formigas e joaninhas também pareciam dispor de anemômetros, mapas sinóticos e outros aparelhos meteorológicos, porque sempre tomavam providências prévias à aproximação de tempestades. Refugiavam-se nos formigueiros ou nas festas das árvores.

Hoje, depois de tanto tempo rebaixado que fui de caipira a cosmopolita, não sei se os animais que habitam o campo continuam com os sentidos aguçados e meteorologicamente precisos como antes. É possível que o efeito estufa, os desmatamentos e os crimes ambientais em geral os tenham privado da familiaridade com os sistemas de alta e baixa pressão e até das zonas de convergência semipermanentes que tanto conheciam.

Naquele tempo os homens do campo também sabiam prever chuva, sol, frio e calor com grande precisão, e havia uma razão lógica para isso: eles eram tão inteligentes e sábios como os animais, porque tinham, como eles, convivência e comunicação direta com a Natureza.

Eu sei, porque vim de lá, e já não era pequenininho.

*Afonso Barroso é jornalista, redator publicitário e editor



Comentários
Newsletter

Você quer receber notícias do domtotal em seu e-mail ou WhatsApp?

* Escolha qual editoria você deseja receber newsletter.

DomTotal é mantido pela EMGE - Escola de Engenharia e Dom Helder - Escola de Direito.

Engenharia Cívil, Ciência da Computação, Direito (Graduação, Mestrado e Doutorado).

Saiba mais!