Cultura TV

25/02/2020 | domtotal.com

Quando a TV é um constrangimento

Se no campo do entretenimento os exemplos parecem não ter fim, o bicho pega mesmo é no jornalismo

Bricadeira de Bolsonaro com ministro da pesca pela presença da esposa deste em sua 'live' é um constrangimento à parte
Bricadeira de Bolsonaro com ministro da pesca pela presença da esposa deste em sua 'live' é um constrangimento à parte (Reprodução/ Facebook Bolsonaro)

Alexis Parrot*

O carnaval, com sua vocação natural para excessos de todos os tipos, é terreno fértil para que acabemos cometendo (em maior ou menor grau) aquele esporte nacional chamado constrangimento.

O conhecido de um amigo meu, há alguns carnavais atrás, após umas e outras várias, tanto fez que conseguiu a proeza de atingir o cúmulo na matéria. Acabou com três casamentos (incluindo o dele próprio), rebaixou a escola de samba em que era diretor de harmonia, escapou por pouco de ser preso e acordou em outra cidade, dois dias após a quarta-feira de cinzas, ignorando como havia chegado ali e sem se lembrar de absolutamente nada do ocorrido.

Ainda assim, só se sentiu mesmo constrangido na hora em que uma velhinha veio cobri-lo com um xale de crochê. Afinal de contas, não pegava bem ficar deitado nu ali naquele banco de praça. É aquela velha história: quem nunca constrangeu alguém ou se viu constrangido por ação própria ou de terceiros, que atire a primeira pedra (ou rolo de serpentina).    

Talvez apenas outra instituição consiga superar a folia momesca na capacidade de gerar embaraços, mal-estar e saias justas, não importa se propositais ou involuntários. E sem nem poder se justificar, usando a influência etílica como desculpa. Estou falando da televisão.

Seria bom se pudéssemos resumir a categoria apenas àqueles momentos onde impera a falta de noção, como recentemente pudemos ver no Mais Você. Substituindo a titular Ana Maria Braga, Patricia Poeta suou para acompanhar uma coreografia de dança que mais parecia sessão de aeróbica. Só não se sentiu constrangida porque parece desconhecer o significado da palavra.

No quesito, a Netflix também supera a si mesma sempre que tem a oportunidade – e sem muito esforço. O jorro aparentemente infinito de séries a que se obriga é o culpado principal. Quantidade e qualidade são duas instâncias que dificilmente andam de mãos dadas. Ru Paul, rainha soberana entre as drag queens, trocou o reality pela ficção apenas para passar vergonha.

Seu programa, AJ and the queen, não passa de um road movie chinfrim. Leve variação sobre um tema antiquíssimo, até na questão LGBTQ (que deveria ser o seu trunfo) parece cópia inferior do filme Transamerica.

Mas quem merece subir ao pódio mesmo é Gwyneth Paltrow, à frente de The goop lab. Apesar de ser apresentada como série documental, é um vídeo institucional com o mero objetivo de propagandear a empresa da atriz e os produtinhos que comercializa pela internet. Como se não bastasse, a atração tem sido alvo de críticas da comunidade científica por avalizar terapias e técnicas alternativas de cura que, em sua maioria, nunca curarão ninguém.              

Quem é mais constrangedor? A filha de Silvio Santos que achaca – no ar e ao vivo – membros da produção do seu programa infantil sofrível; ou o dono do SBT que não aceita o pedido de demissão de sua pimpolha? É importante lembrar que a iniciativa de Silvia Abravanel já parecia um golpe de joão sem braço desde o início. Motivado apenas pela repercussão negativa que o assédio moral gerou, não era difícil adivinhar a decisão que Silvio tomaria.   

A falta de pulso do patrão deu carta branca para que ela possa seguir pisando na cabeça de quem quiser e dando seus chiliques ad aeternum. E se alguém espera que o homem do baú se manifeste contra o comportamento inadmissível do protegido Dudu Camargo (que passou a mão no peito de Simony quando era entrevistado na cobertura de carnaval da Rede TV!), esqueça - porque não vai acontecer.

Se no campo do entretenimento os exemplos parecem não ter fim, o bicho pega mesmo é no jornalismo. O manto de suposta seriedade que cobre os telejornais acaba sendo apenas justificativa para apelação e falta de ética. Comentarista político do Jornal da Record, Augusto Nunes utiliza o espaço obscenamente para exercer sua real natureza de quinta-coluna.

Quem não concorda com ele, é porque tem menos de cinco neurônios (como declarou textualmente ao defender o indefensável, se posicionando ao lado de Paulo Guedes no triste episódio em que o ministro chamou os servidores públicos de parasitas). Não satisfeito, vem executando uma vendetta pessoal contra Glenn Greenwald, seu desafeto declarado.          

A cruzada de Nunes para difamar o editor do Intercept no telejornal só ganha em sutileza dos trôpegos tapas desferidos por ele no jornalista norte-americano no programa Pânico da rádio Jovem Pan, em novembro passado. Cobrado pela afirmação sem provas de que Greenwald e o marido (o deputado federal PSOLista David Miranda) eram negligentes com os filhos adotivos, Nunes primeiro tergiversou para, finalmente, partir para a ignorância, após ser chamado de covarde.

Em termos de vergonha alheia, ele só não perde para o companheiro de emissora, Luiz Bacci, o (ir)responsável pelo Cidade Alerta. Exibido pelo programa no inicio de fevereiro, o link ao vivo em que foi revelado para uma senhora o assassinato de sua filha desparecida, deveria ser o suficiente para fazer um canal perder a concessão. Isso, se estivéssemos vivendo em um país sério; ou se o bispo Edir "nada a perder" Macedo não fosse tão próximo do presidente.

E por falar no diabo, é o programa apresentado às quintas por Bolsonaro e transmitido via youtube aquele que consegue ultrapassar todos os limites do bom senso.

As lives são acompanhadas presencialmente por membros do governo e agregados, assumindo de vez o que são de fato: verdadeiros programas de auditório. Ao confundir coloquialidade com vulgaridade, o presidente se coloca semanalmente à altura de um Ratinho ou de um João Kleber da vida, rivalizando com estes em categorias como excesso de ridículo e descompromisso com a verdade.

Jorge Seif Jr., secretário da pesca, chamado pelo chefe de "Zero Seis" e "Netuno de Santa Catarina", entrou definitivamente no clima de mau gosto generalizado que assola o Planalto e tem sido presença constante na inacreditável atração.

(Para quem não lembra, trata-se daquela sumidade que, ao tentar negar os estragos ambientais gerados por vazamentos de petróleo misteriosos na costa nordestina, declarou a frase digna de estampar a capa de uma próxima edição do FEBEAPÁ : "...peixe é um bicho inteligente, quando ele vê uma mancha de óleo ali, ele foge, ele tem medo.")

Na última semana, Bolsonaro, investido da falta total de decoro que lhe é peculiar, decidiu brincar com a presença da mulher do gênio da pescaria na plateia, gerando o absurdo diálogo:

­— Peraí, eu chamo você de Netuno, e a esposa é o quê?
— Sereia, né?
— Você gosta de peixe?
— Gosto... mas prefiro sereia.
— Você não come peixe, não?
— Só sereia.

Entre o constrangimento e a revolta, ao público só resta mesmo mudar de canal.

*Alexis Parrot é crítico de televisão, roteirista e jornalista. Escreve às terças-feiras para o DOM TOTAL



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