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26/02/2020 | domtotal.com

A senhora de Limbourg tinha um ovo

Voltamos ao chá sem açúcar, ao silêncio e às doces inspirações

Voltamos ao chá sem açúcar, ao silêncio e às doces inspirações
Voltamos ao chá sem açúcar, ao silêncio e às doces inspirações

Foi numa esquina em Londres e nevava quando ele mirou meus olhos e disse: “Vendi tudo, o mundo todo”. Sorriu enigmaticamente, estendeu a mão e me convidou para tomar um chá. Segui aquele homem como o rato encantando por Hamelin.

A figura magra e alva exibia uma cabeça meio careca e meio cabeluda. O sorriso e a gentileza, porém, eram irresistivelmente sedutores, como alguém de outra era, distante e atemporal, quase sacra. Calado, segui-o pela calçada até uma loja com muitas prateleiras, três mesas e aromas indescritíveis.

O garçom perguntou se Brian Eno queria o de sempre e eu o acompanhei no mesmo chá, chinês, claro. Ele me olhou com interesse de saber quem era aquele ser sentado à sua frente. Estava curioso e disposto a ouvir, embora não escondesse a necessidade de revelar um segredo, que me pareceu sério. O afã contido de confissão era evidente e premente. De que ordem seria o segredo? Ou seria um desabafo cotidiano? Por que escolheu um desconhecido para expor sua inquietude, sua aflição?

Depois de o chá descansar e o senhor sorver dois goles, sonoros, respirou fundo para botar para fora a angústia, mas uma senhora o interrompeu, vociferando sobre a pensão não recebida e as dificuldades de ser uma velha gorda no Reino Unido – o sistema de saúde simplesmente não funciona!, gritava, insistindo que Limburgo era bem diferente e os beijos eram mais fáceis lá.

Foi um alívio quando ela se afastou. Voltamos ao chá sem açúcar, ao silêncio e às doces inspirações. Não sei onde estavam os pensamentos dele – em Warszawa, talvez. Sei que foram os goles de chá mais longos da minha vida, mais demorados do que as filas do check-in de qualquer aeroporto.

O tempo dilatou, estendeu calor e aroma de chá. Não havia pressa e a precisão de falar se esvaiu, transmutou-se em gotículas delicadas como a neve. Ruídos de talheres e as vozes se esgarçaram como fumaça. O perfume do chá chinês, no entanto, nos remetia a uma clausura, a muralhas bem altas e ao cheiro de água – um mar ou um rio.

Estávamos absortos, quase mareados, quando fomos despertados pelo som de uma cadeira se arrastando na nossa mesa. Era Murilo, um amigo brasileiro. Fiz as honras aos dois nobres e ele se sentou com um simples hello.

Não se passaram nem três minutos de silêncio – bem mais para cumplicidade do que para constrangimento – e Brian Eno começou a expor sua inquietude. Discorreu sobre uma senhora, holandesa ou belga, que buscava um beijo de água-viva e franzia a testa. Mas não era aquela que nos interrompeu há pouco?

Tudo era muito envolvente e sedutor e, no meio de um jogo quase fantástico, Murilo sentiu um toque no ombro esquerdo e era ela. Ofereceu uma relíquia. “Uma oportunidade”, dizia em um inglês com sotaque de Limbourg. Mencionou um ovo dourado – supus um Fabergé –, mas Brian Eno interrompeu a conversa e se calou para sempre.

Estagnados, como na beira de um rio, deixamos o recinto e eu e Murilo não ouvimos a confissão do sujeito. Brian Eno se despediu com gestos e mesuras, salamaleques de outros tempos e se afastou num passo lento e pensativo enquanto o tráfego nos ensurdecia.  



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