Religião

28/02/2020 | domtotal.com

'É de sonho e de pó o destino de um só'

A consciência de 'sermos pó' nos chama a reconhecer nossa infimidade e nos ajuda a conter o ego elevado

As cinzas querem imprimir em nós a ordem do Evangelho
As cinzas querem imprimir em nós a ordem do Evangelho "Buscai primeiramente o Reino de Deus" (Grant Whitty/ Unsplash)

Daniel Reis*

Terminadas as festas carnavalescas, inicia-se para a Igreja o grande tempo de preparação para Páscoa, a Quaresma. Após os dias de folia, gozados inclusive pelos cristãos e cristãs (e por que não?), em que de um modo geral são vivenciados alguns excessos hedônicos de toda ordem, aparentemente infindáveis, inaugura-se o tempo quaresmal com um rito forte e eloquente: a imposição de cinzas sobre as nossas cabeças, acompanhada da proclamação “Lembra-te que és pó, e ao pó hás de voltar” (Gn 3,19) – conforme a segunda fórmula bíblica prevista pelo Missal Romano.

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Com este rito tão intenso e impactante, gesto e palavra se implicam e se explicam a fim de nos comunicar, pela linguagem própria da Liturgia, a realidade de nossa mais genuína constituição e destinação físicas: o pó. Neste sentido, afirmou o grande filósofo e teólogo Romano Guardini, no livro Sinais Sagrados:

“Tudo se torna cinza. A minha casa, a minha roupa, os meus móveis, o meu dinheiro; campos, prados, bosques. O cão que me companha e o animal que está no curral. A mão com que escrevo, o olho que lê, e todo o meu corpo. As pessoas que amei; aquelas que odiei e as que temi. O que me pareceu grande sobre a terra, o que me pareceu pequeno, o que considerei desprezível – tudo cinza, tudo...”

A consciência de “sermos pó” nos chama a reconhecer nossa infimidade e nos ajuda a conter o nosso ego elevado, a nossa arrogância e prepotência quando nos julgamos melhores e superiores, imprescindíveis e insubstituíveis. Evoca a humildade necessária para vencermos as tentações relacionadas ao nosso “ser” no mundo, a fim de sermos sempre e cada vez mais em Deus e para Deus.

Já a certeza de que “ao pó voltaremos” recorda a nossa condição finita e limitada, na contramão do que o capitalismo selvagem e ilusório, no qual estamos inseridos, apregoa: a perenidade dos bens, da beleza e das experiências. O “pó” deve nos ajudar a cobrir nossa vaidade, avareza e mesquinhez, reverberando em nós o provérbio popular de que “caixão não tem gavetas”.

As cinzas, assim, querem imprimir em nós a ordem do Evangelho “Buscai primeiramente o Reino de Deus” (Mt 6,33) e “Ajuntai tesouros no céu” (Mt 6, 20), nos levando a reconhecer a efemeridade das coisas terrenas e o valor perene dos bens celestes.

Enquanto os sonhos nos levam a esperar por uma vida boa, bela e de ótimas experiências, o “pó” nos ajuda a não nos apegarmos a eles a todo custo, nos recordando que, neste mundo, nossa origem e destino estão na singeleza e fugacidade de cinzas ao vento.


Nota: O título deste texto são os primeiros versos da canção Romaria, do compositor Renato Teixeira, 1978.

*Daniel Reis é leigo é graduando em Teologia e em Direito, cursou especialização em Liturgia. Assessor da Comissão de Liturgia da Região Episcopal N.S. Esperança, da Arquidiocese de BH, membro e assessor do Secretariado Arquidiocesano de Liturgia (SAL), membro do Regional Leste II para a Liturgia, da CNBB e da Associação dos Liturgistas do Brasil (ASLI).



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