Religião

28/02/2020 | domtotal.com

O pó das cinzas: da humanidade à filiação

A espiritualidade quaresmal nos convida assumir todos os processos de humanização, indo ao encontro das realidades que nos compõem, como fez Jesus

O caminho de Jesus é um deserto, uma travessia que passa pela história, onde estão em jogo a luta contra o mal que habita nossas mentes e corações, mas também as nossas relações e posicionamentos religiosos, sociais, culturais e políticos
O caminho de Jesus é um deserto, uma travessia que passa pela história, onde estão em jogo a luta contra o mal que habita nossas mentes e corações, mas também as nossas relações e posicionamentos religiosos, sociais, culturais e políticos (Amit Lahav/ Unsplash)

Danilo César*

O tempo da Quaresma guarda imensa riqueza e fecundidade que abrange não somente o cerne da vida cristã – é o tempo em que se recorda a condição batismal do povo de Deus, mas também sugestivas lembranças do imaginário popular. Lembro-me de minha avó advertindo-nos, quando crianças, que as assombrações andavam à solta e assim nos convencia a não ficar brincando por muito tempo na rua. As advertências funcionaram bem durante a infância, ajudando minha avó na sua tarefa de cuidar dos netos reunidos em sua casa. Mas ainda exercitaram a capacidade imaginativa e criativa que deram rosto ao medo e razão aos avisos de cuidado. Só muito mais tarde tive oportunidade de reconhecer o verdadeiro sentido desse tempo preparatório, que nos coloca em movimento para a Páscoa, onde somos refeitos à imagem do Filho de Deus.

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Agora é a Igreja, qual mãe zelosa, que convoca os filhos e filhas a cuidarem do dom precioso da fé que nos conecta com o prêmio da eternidade, sempre em risco de perder-se nos caminhos da existência. Mas sem querer ser mal-entendido, reafirmo que a Quaresma é um tempo bonito, fecundo. Nosso povo gosta da Quaresma. Nele as advertências visam comunicar a sabedoria que o tesouro da fé acumulou ao longo de séculos de escuta da Palavra de Deus e de luta contra o mal que nos desfigura como seres humanos e como filhos e filhas de Deus.

No rito romano, esse tempo nos oferece um duplo portal de entrada para principiar o caminho para a Páscoa: a quarta-feira de cinzas e o primeiro domingo da Quaresma. Ele tem como primeiro testemunho uma carta de São Jerônimo à Marcela, no ano de 384, atestando a existência da Quaresma em Roma. Sabe-se, contudo, que antes de ser assim configurado, praticava-se o jejum no entremeio das festas natalinas e das festas pascais. Houve ocasião em que a prática quaresmal estava mais associada à preparação final daqueles que seriam batizados na Vigília Pascal. Posteriormente, testemunha-se com a maior frequência do batismo de crianças, uma mutação da disciplina iniciática da Igreja e a Quaresma se tornou, pouco a pouco, um tempo penitencial, de revisão da condição batismal.

“Tu és pó”: voltar-nos para a nossa humanidade

Adentrando pelo primeiro portal da quarta-feira de cinzas, como que no átrio dessa imensa “construção temporal”, somos convidados a nos despir de todas as poeiras, indumentárias e, por que não, das fantasias que esconderam, ou explicitaram criticamente, ou até jocosamente nossa real condição durante o carnaval... Aqui vale o verso do poeta, que no auge da ditadura da década de 60, inicia sua marchinha (Noite dos mascarados) de final de carnaval interrogando “quem é você?”. Ao quê, o rito da Igreja responde emblematicamente, retomando Gn 3,19: “Lembra-te que és pó e ao pó hás de voltar”. O versículo do livro do Genesis é uma advertência ao Adão, e à sua condição humana. Recorde-se que o primeiro casal humano, em sua desobediência, seguindo a sedução da serpente, intentou abandonar sua natureza e buscou ser igual a Deus ao comer o fruto proibido. Uma vez expulsos do paraíso das delícias (Éden), Deus lhes devolve a si mesmos, mas privando-os da condição paradisíaca, frugal, gratuita e determinando que lidassem com sua condição mortal: dor, sujeição, labuta e suor. Enfrentariam, segundo o relato genesíaco, a nova condição de mundo, sujeito aos trâmites e vicissitudes do tempo, do espaço, das relações e da história.

Na imposição das cinzas, a figura implícita dos primeiros pais se insinua como fundamento ou pano de fundo para onde somos reconduzidos ritualmente. A imposição na fronte recorda-nos a altivez da desobediência do povo que não escuta a Deus (cf. Ez 3,7), e assim reedita o pecado primordial. Em contrapartida, a Igreja assinala com as cinzas, a própria Palavra de Deus proferida sobre Adão, “és pó”, recordando a mortal condição adâmica de cada fiel assinalado, em permanente construção, acabamento e a caminho. O reencontro com essa condição primordial é, portanto, a condição fundamental do caminho quaresmal. Contudo, Deus dispôs um contraponto para a salvação: Cristo, o Novo Adão (cf. Rm 5,14-15). Compartilhando conosco da mesma condição e rebaixando-se, Cristo eleva-a em sua humanidade, pela obediência até a morte de cruz (cf. Fl 2,6-9). Assim, ao antigo parâmetro – somos todos Adão – sucede o novo parâmetro, Cristo, que tomou para si nossa humanidade para restaurá-la. A liturgia, desde o Batismo e também na Quaresma, retomando esse fundamento, nos insere na trilha de reencontrar, com Cristo, a nossa humanidade.

“Se és Filho” – a provocação do mal

Tendo passado pelo átrio das cinzas, somos introduzidos pelo grande portal do primeiro domingo, no tempo da Quaresma. A narrativa do evangelho faz coincidir a condição filial de Jesus pela declaração divina no Batismo (cf. Mt 3,17), com sua humanidade, ao inserir que teve fome depois de quarenta dias jejuando (4,2). O diabo por duas vezes insere as tentações com a provocativa expressão “se és Filho”. Muito embora possa ser tomada também em sentido genérico, Jesus explicitou um modo próprio de filiação, dando novo significado a essa expressão, seja pela sua obediência, seja pela sua oração que o singularizaram diante do Pai como Filho, em sentido divino. Mas o faz de dentro da humanidade, conforme explicita a Carta aos Hebreus 5,7-9:

"É ele que, nos dias de sua vida terrestre, apresentou pedidos e súplicas, com veemente clamor e lágrimas, àquele que o podia salvar da morte, e foi atendido por causa da sua submissão. E embora fosse Filho, aprendeu, contudo, a obediência pelo sofrimento; e, levado à perfeição, se tornou para todos os que lhe obedecem, princípio de salvação eterna".

No primeiro domingo, portanto, os já batizados podem reiniciar com Jesus, o novo parâmetro, o caminho da filiação adotiva, mas igualmente, de dentro da própria humanidade. Isto implica assumir todas as fragilidades adâmicas sinalizadas pelas cinzas, mas com a humildade do Filho que se submete a Deus Pai na obediência. Isto é, buscando refazer, não o caminho de Adão que foi expulso do jardim, mas o caminho de Cristo que reconduz ao paraíso, simbolizado ao final das tentações pela convivência com as feras e os anjos (cf. Mc 1,13; Mt 4,11).

Quaresma: condição humana, contingência histórica

O discurso oracional da Igreja e a espiritualidade quaresmal não nos autorizam a nos retirar do mundo, ao contrário, mas a assumir todos os processos de humanização, indo ao encontro das realidades que nos compõem, como fez o Filho de Deus. O caminho de Jesus é um deserto, uma travessia que passa pela história, onde estão em jogo a luta contra o mal que habita nossas mentes e corações, mas também as nossas relações e posicionamentos religiosos, sociais, culturais e políticos. Se por um lado, o Carnaval denunciou vigorosamente os esquemas que ainda reeditam e reforçam a desobediência de Adão, que desfigura, mata, aniquila, destrói e submete, por outro, a Quaresma nos convida, com o parâmetro Cristo, “princípio de salvação”, a anunciar a dignidade que carrega esse pote de barro da nossa humanidade (cf. 2Cor 4,7).

Se muitos medos nos assombram e nos impedem de ir às ruas, onde o jogo social, político e cultural diverge dos meios de comunicação tradicionais e das novas mídias, está na hora de aceitar os equívocos, empreender a revisão quaresmal de vida pessoal, comunitária e social, assumindo a lógica solidária de Jesus que se rebaixou. Cumpre reinventar, criativamente, assumindo o imaginário da fé, a jornada quaresmal para a Páscoa. O “quem é você?”, de Chico Buarque, ainda ressoa contundente para quem está disposto a empreender, como cristão, esse caminho. “Sou de Cristo” (cf. 1Cor 3,23 - 2ª leitura do último domingo, ano A). Como ele, e se lhe pertencemos, é preciso fazer caminho solidário com todos, sobretudo com aqueles que têm sua humanidade diminuída pelo subemprego, pela perda de direitos, pela violência, pela divisão causada pelas fake news, pela misoginia, homofobia e racismo. Nada disso é aceitável a quem empreende o caminho da Quaresma, pois depõe contra a humanidade que o verdadeiramente humano, Jesus Cristo, redimiu.

*Pe. Danilo César dos Santos Lima, presbítero da Arquidiocese de Belo Horizonte. Liturgista formado pelo Pontifício Instituto Litúrgico Santo Anselmo, em Roma. Leciona Liturgia e Homilética na PUC Minas. Membro da Celebra, Rede de Animação litúrgica. Colabora com o ensino da Liturgia em outras instituições de ensino, comunidades e dioceses. Email para contato: danidevictor@gmail.com.



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