Religião

28/02/2020 | domtotal.com

A pedagogia em reconhecer-se pó

Sermos pó não é apenas uma recordação de nossa finitude, mas do lugar que ocupamos no universo

O texto bíblico nos recorda o fato de sermos pó, no contexto pós-queda do ser humano
O texto bíblico nos recorda o fato de sermos pó, no contexto pós-queda do ser humano ([2Ni]/ Unsplash)

Felipe Magalhães Francisco*

A Bíblia é carregada de sabedoria, porque ela nasce da experiência de gente que está na vida, buscando se compreender a partir de sua fé. Em suas primeiras páginas, a Bíblia traz uma compreensão, em tom exortativo, muito relevante: “Lembra-te de que és pó!”. Essa exortação é bastante prenhe de sentidos e, sobretudo, uma maneira de nos ajudar a manter os pés no chão da vida e da história. Somos seres com sede do infinito: buscamos tornar possível fazer com que a vida não se acabe, o máximo que podemos; sonhamos com a eternidade, num existir que não tem fim e que não se esgote. É por essa sede de infinito que fazemos a história, que evoluímos. Mas é preciso não esquecer: somos pó e ao pó retornaremos.

Buscar ser sempre mais, ir sempre além, a partir dessa sede de sermos e de participarmos do infinito não deve nos levar, porém, a cedermos à tentação de nos considerarmos super-homens ou, pior, como deuses. Vale recordar, que o texto bíblico nos recorda o fato de sermos pó, no contexto pós-queda do ser humano: quando se deixou seduzir pela tentação de querer ser como deus. Todo pecado, então, significa desumanização: negar o que somos, em vistas de querer ser o que não somos. A sabedoria bíblica, nesse sentido, é uma exortação a que não nos esqueçamos de nossa humanidade, pois ela é um bem valioso, cheio de possibilidades.

Ter sede do infinito, então, não é um problema: é, ao contrário, um caminho para que humanizemos nossa humanidade, que cresçamos como pessoas. O convite a não nos esquecermos de que somos pó pode ser lido na perspectiva de que não devemos negar quem somos, o que somos. Além disso, trata-se de um lembrete de nosso papel em relação ao todo do mundo criado: se somos pó, participamos, essencialmente, daquilo que o mundo é. Sermos pó, então, não é apenas uma recordação de nossa finitude, mas do lugar que ocupamos no universo: parte integrante; peça importante para a harmonia.

Na última quarta-feira, a Igreja iniciou o tempo litúrgico da Quaresma, com o simbólico rito da imposição das cinzas. A pedagogia deste tempo nos convida à humanização; à conversão; a não nos esquecermos de nossa vocação, do que somos. A quaresma é um grande retiro, no qual temos a oportunidade de conviver conosco mesmos, num deserto meditativo propício a um mergulho interior. Começar esse retiro afirmando o fato de sermos pó é uma grande oportunidade de crescermos humana e espiritualmente, lembrados de que não precisamos deixar de ser o que somos, pois é o contrário disso, fundamentalmente, é o que nos fará encontrar com o Ressuscitado, na Páscoa.

Na esteira desse retiro quaresmal, nosso Dom Especial se dedica a contribuir com o caminho pedagógico que, tão carregado de sabedoria, é um convite para não só cristãos e cristãs, mas a todas as pessoas: assumir nossa condição de pó e aprender dela caminhos para o bem-viver. No primeiro artigo, O pó das cinzas: da humanidade à filiação, de Danilo César, temos uma catequese mistagógica do caminho quaresmal, a partir do símbolo das cinzas. No segundo artigo, É de sonho e de pó, o destino de um só, Daniel Reis reflete sobre a sabedoria da metáfora de sermos pó, como lembrete de que os sonhos não devem ser seguidos a todo custo. Por fim, Edward Guimarães propõe o terceiro artigo, “Tu és pó e ao pó hás de voltar”: eis a tua verdade e vocação, no qual reflete sobre a criação humana para a comunhão com a Terra que nos acolhe e sustenta, como parte fundamental para a realização de nosso ser.

Boa leitura!

*Felipe Magalhães Francisco é teólogo. Articula a Editoria de Religião deste portal. É autor do livro de poemas Imprevisto (Penalux, 2015). E-mail: felipe.mfrancisco.teologia@gmail.com



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