Religião

28/02/2020 | domtotal.com

Como os empreendedores podem responder ao apelo do papa Francisco por justiça econômica?

Papa convoca pessoas de todo mundo para um encontro em Assis com o tema 'Economia de Francisco'

O papa Francisco não é o primeiro: Bento XVI também pediu uma 'economia civil', em sua encíclica 'Caritas in Veritate'
O papa Francisco não é o primeiro: Bento XVI também pediu uma 'economia civil', em sua encíclica 'Caritas in Veritate' (CNS photo/ L'Osservatore Romano)

Felipe Witchger*

Conheci Olabanji "B.J." Folayan cerca de um ano atrás. Olabanji é um imigrante da Nigéria que fundou sua própria empresa de segurança em Washington, DC, em 2009. "Eu estava pronto para conquistar o mundo", disse ele, mas depois percebeu o quão difícil era encontrar boas oportunidades de negócios em grandes cidades. "Foi como tentar encontrar uma agulha no palheiro".

A dificuldade de Folayan em encontrar clientes não foi por causa da qualidade de seus negócios, mas por causa das empresas de segurança pertencentes a homens brancos que haviam sido apadrinhadas por empreendedores locais.

Na mesma época em que Folayan estava lançando sua empresa e tendo poucos clientes, eu trabalhava em Washington como organizador de eventos. Notava que as instituições missionárias com as quais trabalhei estavam sendo sobrecarregadas com contratos de instalações e serviços, porque algumas grandes empresas estavam esmagando a concorrência. Tornou-se claro que precisávamos informar os responsáveis das instalações e abrir o mercado de DC, permitindo que novos talentos apresentassem suas propostas.

Assim, um grupo de 12 administradores da Igreja formou a Cooperativa de Compras da Comunidade (Community Purchasing Alliance - CPA). A cooperativa ajuda as instituições orientadas a missões a se beneficiarem das propostas, do know-how e das relações entre organizações parceiras e provedores de serviços locais. Ao comprar coletivamente, nossos membros economizam dinheiro em seus contratos e, ao mesmo tempo, usam seu poder de compra para apoiar o crescimento de “empreendimentos responsáveis”, empresas locais socialmente conscientes em suas comunidades. Em 2019, A CPA tinha 121 organizações que contrataram US$ 17,3 milhões, sendo US$ 7,9 milhões destinados a empresas pertencentes a minorias. Isso incluiu a empresa de Folayan, que ganhou 10 das últimas 12 oportunidades de contratação de segurança de escolas e igrejas da CPA.

Esse tipo de inovação e novo modelo cooperativo, projetado de igrejas para igrejas, pode ter fãs em Roma. Em maio de 2019, o papa Francisco enviou uma carta a jovens economistas e empresários de todo o mundo, convidando-nos a Assis, na Itália, em março deste ano “para nos encontrarmos e, eventualmente, entrarmos em um 'pacto' para mudar a economia atual e dar alma à economia do amanhã". Nesta carta, Francisco pede soluções econômicas que considerem a vida humana, nosso ambiente natural, a equidade social e a justiça para o trabalhador. Ele pede uma mudança na ordem mundial para elevar a preocupação com o outro acima do interesse financeiro.

Pessoalmente, acredito que o papa Francisco está certo em seu chamado. E espero que este encontro seja efetivo para conectar os mais comprometidos em estabelecer um novo modelo econômico. Nas últimas décadas, a economia neoclássica (que se concentra no comportamento racional, no individualismo e no equilíbrio do mercado) tem abarrotado escolas heterodoxas de pensamento econômico (com foco em instituições, história e estruturas sociais) na academia e na sociedade em geral. Devido ao domínio da teoria neoclássica, nos falta imaginação e pesquisa ao responder ao papa Francisco.

Mas o papa Francisco não é o primeiro líder católico a apontar para a necessidade de um novo pensamento econômico. O papa Bento XVI foi influenciado pela escola humanista italiana de pensamento – conhecida como “economia civil” – em sua encíclica Caritas in veritate do ano 2009. Essa escola de pensamento, influente na Europa, luta com os males de nossa economia global e procura maneiras de buscar o bem comum para nosso lar comum, trabalhando e vivendo uma vida significativa no mundo como ele é.

Em seu livro Civil Economy, de 2016, Luigino Bruni e Stefano Zamagni escrevem: “Falta-nos uma grande narrativa de nossas raízes e, portanto, de nosso futuro”. Eles propõem entender "toda a economia de maneira diferente da tradição capitalista anglo-americana dominante". Bruni e Zamagni também sugerem um modelo "para contribuir a neutralizar... a capacidade insuficiente de inovação em nossas empresas".

Este último objetivo parece pessoal.

Como empresário, tento aproveitar o melhor do movimento cooperativo, do movimento B-corp ou movimento cooperativo, um movimento regenerativo dos negócios e empreendimentos que oferecem estruturas criativas para uma sociedade mais equitativa. Acho recursos como Reinventing Organizations, de Frederic Laloux, úteis para me ajudar a incorporar uma ética católica mais profunda na cultura da minha organização. Mas em termos de uma escola unificadora de pensamento para nos fundamentar em uma ética integrada da práxis econômica, estou empolgado em encontrar a lógica e a abertura da economia civil e aprender com jovens economistas e empreendedores em Assis.

Minha esperança é que essa tradição da economia civil e a reunião com o papa Francisco tragam mais profundidade e peso ao movimento da “economia solidária”, a New Economy Coalition, o Next System Project, o movimento Worker Co-op e, mais urgentemente, o Impact Investing world. Cada um está fazendo contribuições importantes pelas quais sou grato, mas estou procurando uma escola de pensamento e uma comunidade de práxis com alma.

Onde a CPA se encaixa na tradição da economia civil e na reunião de Assis? Somos um dos muitos novos modelos de empresa social que procuram oferecer um caminho para os líderes da Igreja em resposta a tempos difíceis.

Comecei usando meus relacionamentos com os diretores de operações da Igreja e da escola para ajudar Folayan e outros como ele a entrarem pela porta grande. Ele ainda tem que fazer o trabalho duro de realmente prestar um serviço melhor do que seus colegas, mas posso usar a confiança que construí para ajudar a garantir que suas propostas recebam considerações significativas. E selecionando empresas pertencentes a pessoas de cor, os diretores de instalações e outros responsáveis podem ser reconhecidos como pessoas que fazem escolhas éticas para avançar até um futuro mais equitativo e justo. E acreditamos que um modelo semelhante pode ser aplicado ao investimento e gerenciamento de imóveis subutilizados da Igreja.

Oro para que abordemos a reunião de Assis sobre a economia com humildade, generosidade, desejo de contribuir e postura reflexiva para absorver tudo o que pudermos. Para ajudar mais pessoas a se conectarem e encontrarem “co-conspiradores”, estou coorganizando um webinário interativo em 19 de fevereiro e já lançamos um espaço de trabalho colaborativo do Slack para ajudar a mapear o cenário da “Economia de Francisco” dos EUA à convocação do papa em Assis). Se tivermos sorte, sairemos do outro lado, preparados para aprofundar o trabalho de criar “um novo modelo econômico, fruto de uma cultura de comunhão baseada na fraternidade e na igualdade”. Assim como o papa Francisco pede.


Publicado originalmente por America


Tradução: Ramón Lara

* Felipe Witchger fundou e co-lidera a Cooperativa de Compras da Comunidade, em Washington, DC. Ele também organiza reuniões nos EUA da Economia de Francisco.



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