Economia

28/02/2020 | domtotal.com

Disseminação do coronavírus derruba bolsas com prejuízos de US$ 5 tri

Analistas acreditam que impacto no crescimento global é imprevisível, mas deve causar danos

Quedas de bolsas europeias são as mais expressivas desde a crise financeira de 2008-2009
Quedas de bolsas europeias são as mais expressivas desde a crise financeira de 2008-2009 (Johannes Eisele/AFP via Getty Images)

O rápido aumento da lista de países atingidos pelo coronavírus para quase 60 teve repercussão negativa no mercado de ações e temor sobre os efeitos no comércio mundial. A Organização Mundial de Saúde (OMS) elevou nesta sexta-feira (28) o risco global do vírus, apesar de descartar o título de epidemia. 

Diante da disseminação, ninguém duvida do impacto no crescimento global, mesmo que ainda seja difícil avaliar esse quadro com precisão. Algumas bolsas registraram quedas sem precedentes desde a crise de 2008. Analistas estimam que o pânico relativo à epidemia já provocou um estrago de US$ 5 trilhões nos mercados globais.

"O medo é que o coronavírus se torne uma ameaça em todo mundo e que as medidas de contenção desacelerem o crescimento global. As empresas europeias interromperam as viagens de negócios e reduziram suas previsões de resultados", aponta Ipek Ozkardeskaya, analista do Swissquote Bank.

As perdas sofridas pelas ações europeias desde sexta-feira passada – cerca de 12% a 13% – são as mais importantes desde a crise financeira de 2008-2009, quando a economia entrou em recessão. "Em um contexto de mercados supervalorizados, o que temíamos ocorreu: o choque financeiro causado pela disseminação do vírus fora da China é muito forte, o que dá uma nova dimensão à crise", ressalta a analista Véronique Riches-Flores.

Tangi Le Liboux, estrategista da Aurel BGC, acredita que "o impacto econômico é totalmente imprevisível. E é essa situação que faz as bolsas caírem". Nesse contexto, os investidores estão se voltando para valores-refúgio, principalmente obrigações do Estado, ou ouro.

A proximidade do fim de semana reforçava posições mais defensivas, com muitos agentes financeiros ainda destacando o cenário nebuloso sobre o tamanho ou a duração do surto. "É difícil vislumbrar o que poderia fornecer certeza suficiente para impedir o medo de vencer antes do fim de semana", destacou Jasper Lawler, chefe de pesquisa no London Capital Group, chamando a atenção para dados de atividade de serviços e setor manufatureiro na China.

Instituições financeiras

O presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central americano), Jerome Powell, divulgou comunicado nesta sexta no qual afirma que os fundamentos da economia dos Estados Unidos "continuam sólidos", mas admitiu que a epidemia "representa riscos em andamento para a atividade econômica". "O Federal Reserve monitora de perto os acontecimentos e suas implicações para a perspectiva econômica", afirma Powell. "Nós usaremos nossos instrumentos para agir conforme apropriado para apoiar a economia."

O Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial estão prontos para disponibilizar aos países que necessitem os fundos de emergência imediatos para combater o surto. Embora ainda não tenham recebido nenhum pedido de ajuda, as instituições "estão desenvolvendo planos de contingência. Temos vários instrumentos financeiros que poderiam ajudá-los", disse o porta-voz do FMI, Gerry Rice.

O chairman dos ministros das Finanças da zona do euro, o português Mario Centeno, disse que a prioridade é cuidar das pessoas afetadas e tentar conter a propagação do vírus, mas que os ministros estão constantemente em contato para avaliar o impacto na economia. "É o novo risco e obviamente é um risco negativo para nossas economias", afirmou. "Parece que será temporário, mas o impacto está aí, e precisamos coordenar nossas ações caso isso se torne um cenário mais global", declarou, acrescentando que “a economia da zona do euro, composta por 19 países, "se mostrou bastante resistente nos últimos dois anos a uma sucessão de riscos e incertezas".

O Banco Nacional Suíço (o banco central do país) afirmou em comunicado que o surto tem aumentado riscos econômicos que teriam consequências negativas para a Suíça e aumentariam a atração do franco como porto seguro.

A disseminação mais recente "aumentou os temores de um impacto de longo prazo do vírus no comércio, nos portos, na cadeia de suprimentos e na confiança do consumidor", diz Michael Hewson, analista da CMC Markets.

A temporada de divulgação de resultados que está chegando ao fim foi uma oportunidade para as empresas começarem a incorporar o risco em suas previsões para o ano. Muitas revisaram seus objetivos para baixo, ou mostraram cautela, ao estabelecer um vínculo inequívoco com o novo coronavírus, como o banco Standard Chartered, a cervejeira AB InBev, ou a Air France-KLM.

Nos índices, essas notícias voltaram a abalar os setores relacionados ao turismo. "A ação da Easyjet perdeu 20% desde o fechamento da última quinta-feira, mas isso permanece relativo comparado aos 38% perdidos pela Norwegian Air", aponta Hewson.

BRASIL

O principal índice da bolsa paulista fechou esta sexta-feira (28) no azul, apoiado principalmente em ações de bancos, refletindo a forte aversão a risco que tomou conta dos mercados globais com a rápida propagação do novo coronavírus em vários países.

O índice está 2,6% acima da média dos últimos 200 dias de negócios. Nas últimas 52 semanas, o Ibovespa acumula 5,8% de ganho.

No Brasil, onde até o momento apenas um caso foi confirmado, o Ministério da Economia deve revisar a previsão de alta do Produto Interno Bruto (PIB) de 2020 devido aos efeitos do surto de coronavírus no mundo e no Brasil. O secretário especial da Fazenda do Ministério da Economia, Waldery Rodrigues, disse que o efeito da epidemia sobre a economia brasileira é mais direto e liquidamente negativo do que escalada do dólar.


Agência Estado/AFP/Reuters/Dom Total

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