Religião

03/03/2020 | domtotal.com

Como o Sínodo da Amazônia cimentou as bases para as novas reformas

É a primeira vez que um documento do sínodo recebe aprovação papal, significa que a decisão dos padres sinodais tem sua própria autoridade

Papa Francisco se reúne com a grupo indígena da Amazônia no Vaticano, em 17 de outubro de 2019
Papa Francisco se reúne com a grupo indígena da Amazônia no Vaticano, em 17 de outubro de 2019 (Vatican Media/ Reuters)

Christopher Lamb*
The Tablet

O papa Francisco nunca cairia na armadilha tecida por seus oponentes sobre o Sínodo da Amazônia. Sua resposta, contrária à reação inicial, impele a Igreja a um caminho de reformas que já estão em andamento. Não é exatamente como as pessoas esperavam.

Depois dos bispos da região votarem esmagadoramente a favor de que homens casados sejam ordenados padres na Amazônia, os que tentavam frustrar esse pontificado provocaram tanta confusão que qualquer mudança que Francisco fizesse arriscaria distrair totalmente a mensagem central do sínodo: o trabalho da Igreja para proteger o meio ambiente e sermos solidários com as comunidades indígenas da Amazônia.

O pontífice romano de 83 anos foi colocado em uma cilada. Diante de um movimento bem orquestrado, o papa parecia simplesmente ignorar as questões contestadas em torno da ordenação em seu texto – sobre homens casados e mulheres diaconisas – e manteve o status quo.

Mas a história não termina aí. A resposta do papa abriu as portas em vez de fechá-las e lançou as bases para futuras reformas. Francisco não disse "não" a padres casados no documento, apenas "não no momento".

Em sua exortação pós-sinodal, Querida Amazônia, Francisco não fez menção explícita à ordenação de homens casados e apenas afirmou o que “não pode ser concedido” pelo sacerdócio. O papa estabeleceu a estrutura para discussões, mas não silenciou nenhuma voz.

Todas as questões importantes permanecem em cima da mesa, enquanto um debate mais amplo sobre como retirar o poder de um pequeno grupo no topo da hierarquia da Igreja está em andamento.

O tempo, como o papa gosta de apontar, é maior que o espaço. Observe qualquer pesquisa de opinião e encontrará católicos em todo o mundo apoiando padres casados e dando mais posições de liderança às mulheres. O momento da mudança é como um rio que flui, com uma barragem temporária, a única coisa que impede seu progresso. Em algum momento o rio vai rebentar.

Francisco sabe disso e está construindo as margens para o novo rio entrar. Ele fez isso colocando sua fé na Igreja local e, no caso da Amazônia, endossando o documento final votado pelos bispos do sínodo. Este é o divisor de águas.

No texto final do sínodo, 128 bispos votaram na ordenação de diáconos casados como padres em regiões remotas, enquanto 137 a favor de discussões contínuas sobre as diaconisas.

Fundamentalmente, é a primeira vez que um documento do sínodo recebe aprovação papal e significa que a decisão dos padres sinodais tem sua própria autoridade. Ninguém pode tirar isso do registro, e a resposta do papa deve ser lida juntamente com o documento.

O teste de fogo será a forma de fazer isso acontecer na concretude da realidade amazônica. O cardeal brasileiro Claudio Humes, figura central nas discussões sobre a Amazônia, diz que a proposta de padres casados continuará sendo desenvolvida. O pe. Antônio José de Almeida, um teólogo influente no Brasil que esteve em Roma durante o sínodo, argumenta que os bispos são livres para pedir para o papa ordenar homens casados caso a caso. Esse papa, ou um papa futuro, pode permitir que homens casados sejam ordenados sacerdotes na Amazônia com o toque de uma caneta.

Da mesma forma, sobre o papel das mulheres, o papa prometeu que a comissão criada em 2016 continuará endossando o documento dos bispos que pedia que as mulheres fossem admitidas em ministérios menores e tornassem os leigos líderes das comunidades paroquiais locais. Ambas são mudanças importantes, afastando a Igreja dos modelos clericalistas do passado, e para um modelo mais centrado no evangelho, previsto pelo Concílio Vaticano II.

Ao ler o documento da Amazônia, vale lembrar a reação a outro documento calorosamente esperado do papa, sobre a vida familiar, durante seu pontificado. Quando Amoris Laetitia foi lançada, as respostas se concentraram em como o papa havia lutado para promover uma reforma que permitisse que os divorciados casados recebessem a comunhão. A única referência explícita ao problema foi escondida em uma nota de rodapé.

Mas, na Amazônia e na vida familiar, Francisco mudou-se para promover uma mudança mais profunda: dar autoridade às Igrejas locais e enquadrar as questões disputadas no contexto da necessidade pastoral, em vez de batalhas ideológicas. Desde o seu lançamento em 2016, a Amoris Laetitia se tornou o modelo para um ministério familiar renovado, construído em torno da compaixão, discernimento e acompanhamento pastoral. E sim, a maioria das conferências de bispos na implementação da Amoris Laetitia permite que os divorciados e casados novamente recebam a comunhão.

O papa escreve em seu documento de família que "nem todas as discussões sobre questões doutrinárias, morais ou pastorais precisam ser resolvidas por intervenções do magistério". O Sínodo da Amazônia, com seu exercício de escuta sem precedentes, envolvendo 87.000 pessoas, é o próximo passo nesta jornada. Em Querida Amazônia, Francisco observa que o relatório do sínodo votado pelos bispos terá seu próprio direito, porque vem daqueles que “conhecem melhor do que eu e a Cúria Romana os problemas e questões da região amazônica”.

O papa jesuíta é perspicaz o suficiente para saber com que facilidade as reformas podem ser esmagadas em Roma. Por esse motivo, ele não queria que o Sínodo da Amazônia se tornasse um referendo sobre padres casados ou uma discussão autorreferencial emoldurada no centro da Igreja.

Como o sínodo concluiu, Francisco argumentou que o diagnóstico da Igreja sobre os problemas na Amazônia não poderia ser reduzido a uma discussão sobre "disciplina intra-eclesiástica", na qual um certo "grupo de elite de cristãos" estava focado. Muitos católicos incapazes de ver o quadro geral, disse ele citando o filósofo francês Charles Peguy, "pensam que amam a Deus", mas só "porque não amam mais ninguém".

Essa foi uma clara indicação de que ele faria todo o possível para evitar a reação de rejeição ao seu texto pós-sinodal e que acabasse se tornando uma questão de ordenação, em vez de ameaças à principal fonte de oxigênio do mundo.

Ao longo de seu pontificado, Francisco fez da proteção do planeta um imperativo moral e teológico urgente para proteger o meio ambiente, desde pedir ações para combater as mudanças climáticas no gramado da frente da Casa Branca em 2015 até sua encíclica sobre o meio ambiente, Laudato Si.

O tempo não está do lado do mundo. Na semana passada, um relatório interno vazado do JP Morgan, o maior investidor mundial em combustíveis fósseis, escreveu que a mudança climática poderia causar "resultados catastróficos onde a vida humana como a conhecemos está ameaçada". O relatório do banco dos EUA pede que as emissões de carbono sejam cortadas para evitar guerras, escassez de alimentos e um grande número de pessoas forçadas a fugir de suas casas.

No início do sínodo, Francisco disse aos participantes que eles não estavam aí para a criação de programas de desenvolvimento ou iniciativas pastorais "não contemplativas" que não "respeitem a poesia" da Amazônia.

É a poesia, escreve Francisco na Querida Amazônia, que faz entender o sofrimento da Amazônia e citou o poeta colombiano Juan Carlos Galeano: “O rio é uma corda onde se agarram os animais e as árvores. Se o puxarem demais, o rio poderia rebentar”.

A ambiguidade estudada pelo papa sobre temas controversos da Igreja e sua recusa em ser atraído para debates de "um ou outro" lado são uma marca registrada de seu ministério. Alguns o criticam por falta de clareza e querem forçá-lo a tomar decisões de “um ou outro” lado. Francisco se recusa. Aqui vale a pena relembrar as armadilhas impostas a Jesus pelas autoridades religiosas da época. Quando questionado sobre impostos ou guardar mandamentos, Jesus não deu respostas de "sim ou não", e isso não foi bem aceito pelos seus oponentes, ele oferecia respostas contraintuitivas, baseadas nas leis e na tradição de Moisés. A lei veio a ser cumprida, não a ser revogada e não pode ser reduzida uma única questão.

Ao gerar um espírito de discernimento contínuo e à abertura de processos de reforma, Francisco está utilizando as ferramentas da tradição católica ao preparar o terreno para uma nova maneira de ser a Igreja.

Publicado por The Tablet.


Tradução: Ramón Lara

*Christopher Lamb é correspondente em Roma para o The Tablet, colaborador da BBC, La Stampa, Religion News Service e outros.



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