Religião

05/03/2020 | domtotal.com

Para jejum da Quaresma, irmãs ensinam receitas vegetarianas contra aquecimento global

Proposta da congregação religiosa une penitência cristã e a responsabilidade social

Um guia elaborado pelas irmãs orienta os católicos, com uma abordagem oracional, a comer menos carne e ainda oferece receitas
Um guia elaborado pelas irmãs orienta os católicos, com uma abordagem oracional, a comer menos carne e ainda oferece receitas (Nadine Primeau/ Unsplash)

Brian Roewe*
NCR

De lasanha de berinjela até hamburguer de lentilha, as Irmãs da Misericórdia prepararam algumas de suas receitas vegetarianas favoritas como forma de convidar os católicos a se juntarem a elas para comer menos carne durante esta Quaresma – e não apenas às sextas-feiras.

Este ano, a congregação religiosa está estendendo a tradição quaresmal de abster-se de carne às sextas-feiras para adicionar mais um dia que chamam de Segunda-feira da misericórdia. O programa é uma iniciativa dentro de outro programa iniciado durante o projeto Tempo da Criação de 2019 (1 de setembro a 4 de outubro). Baseia-se no movimento mais amplo das segundas-feiras sem carne para lidar com as mudanças climáticas com mais dietas à base de vegetais.

"Isso se encaixa muito bem no nosso compromisso de cuidar da Terra", disse a irmã da Misericóridia Suzanne Gallagher, coordenadora de justiça da Comunidade do Meio-Atlântico. "Apenas pense, três vezes ao dia, nas refeições principais, você pode escolher cuidar da Terra. Eu acho isso incrível".

Aproximadamente um quarto das emissões globais de gases de efeito estufa produzidas pela atividade humana provém da agricultura, silvicultura e outros usos da terra, de acordo com o Painel Intergovernamental das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas – cerca do dobro das emissões de todos os carros do planeta. O sistema alimentar global, incluindo atividades de pré e pós-produção, responde por até 37% das emissões totais de gases de efeito estufa.

Produzir carne para consumo e, em particular, carne bovina, exige grandes quantidades de água e terra. À medida que as florestas são desmatadas para pastagens, o dióxido de carbono armazenado nas árvores é liberado e restam menos árvores para absorver as emissões que geram aquecimento do planeta da atmosfera.

Embora muitas partes do mundo não têm dietas à base de carne, o consumo global de carne cresceu 20% na última década.

Estudos mostraram que a redução do consumo de carne é uma das etapas críticas para conter as mudanças climáticas e para cumprir as metas do Acordo de Paris de limitar o aumento da temperatura global em 1,5 graus Celsius (2,7 graus Fahrenheit). Um relatório de agosto do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas da ONU descobriu que as mudanças na dieta, incluindo o consumo de mais alimentos à base de plantas, poderiam eliminar anualmente até 2050, 8 gigatoneladas de emissões de carbono, ou as emissões equivalentes de 1,7 bilhões de carros.

Inicialmente, um esforço do governo dos EUA durante a Primeira Guerra Mundial para reduzir o consumo de itens básicos de refeição, o Meatless mondays (ou Segunda sem carne) foi revitalizado no início dos anos 2000 como uma campanha para beneficiar a saúde humana e o meio ambiente.

Parte do impacto climático da carne está ligada ao desmatamento para limpar a terra que é oferecida ao gado. Os incêndios massivos que consumiram grandes áreas da floresta amazônica no verão passado foram em parte desencadeados por fazendeiros e agricultores incendiando seções da terra para prepará-las para o plantio ou a criação de pasto para rebanhos de gado.

No Sínodo Especial do Vaticano para a Amazônia, realizado em outubro, o bispo Karel Marinus Choennie, de Paramaribo, Suriname, criticou os pedidos do mundo ocidental para que as nações sul-americanas salvem a floresta tropical sem examinar o papel do seu próprio estilo de vida, incluindo suas dietas, ponto fundamental na destruição do planeta.

"Mesmo se implementarmos todas as medidas contra o desmatamento ou a poluição dos rios, ainda não teria efeito se as pessoas do mundo ocidental – Europa, América, Japão e China – não mudarem seus estilos de vida". Ele disse em uma entrevista coletiva em 22 de outubro.

O bispo da Amazônia destacou especificamente o consumo de carne, dizendo: "A floresta está desaparecendo porque a Europa, a China e o resto do mundo rico querem comer carne".

A ideia das segundas-feiras sem carne foi captada pela equipe de justiça das Irmãs da Misericórdia e das Irmãs Servas do Imaculado Coração de Maria, em Monroe, Michigan, que no ano passado integrou a prática em sua observância quaresmal.

Durante o mesmo tempo litúrgico, o Movimento Católico Global para o Clima também incentivou sua rede a "comer com simplicidade" e a comer mais refeições vegetarianas. O próprio papa Francisco recebeu um desafio de comer menos carne.  No ano passado, uma garota ativista dos direitos dos animais lhe pediu para adotar uma dieta vegana durante a Quaresma.

A educação é o principal objetivo da Segunda-feira sem carne da misericórdia (Mercy Meatless Monday).

Um guia elaborado pelas irmãs orienta os católicos, com uma abordagem oracional, a comer menos carne. Ele compartilha fatos sobre os impactos negativos da produção de carne no meio ambiente, bem como em trabalhadores e animais, particularmente em fazendas industriais em larga escala, e destaca os benefícios de comer alimentos locais. Um vídeo de pesquisadores da Universidade da Califórnia explica ainda mais como as escolhas alimentares afetam o meio ambiente.

"Queríamos que [os participantes] soubessem o que acontece quando comemos carne. Quero dizer, devemos entender os custos invisíveis que a carne tem no seu prato e para os quais somos realmente inconscientes tantas vezes", disse Gallagher.

Em um ponto do guia sem carne, alinhado com citações de Francisco, uma meditação da atenção plena leva os participantes a refletirem sobre a jornada que a comida leva dos campos ao prato, contemplando todos aqueles que a manejaram ao longo do caminho. Outra reflexão destaca a preocupação crítica das Irmãs da Misericórdia de cuidar da Terra por décadas e seu compromisso com uma "conversão ecológica integral" como forma de trabalhar em direção à sustentabilidade e enfrentar as mudanças climáticas.

Para ajudar a aquecer o apetite dos católicos carnívoros à ideia de renunciar à carne um dia extra por semana, as Irmãs da Misericórdia oferecem dicas sobre como substituir gradualmente a carne por alimentos à base de vegetais, e dão algumas receitas de suas próprias cozinhas.

A irmã Leslie Porreca, gerente de cozinha do Cranaleith Spiritual Center, na Filadélfia, compartilha sua receita para uma salada asiática composta de pepino, couve, cenoura e uma variedade de pimentas. Da mesma forma, Kelly Lionello, diretora regional de serviços de alimentação das Irmãs da Misericórdia em Auburn e Burlingame, Califórnia, apresenta sua receita para um prato de espinafre.

As Irmãs da Misericórdia estão incentivando outras pessoas a compartilharem suas próprias receitas sem carne nas mídias sociais com o hashtag #MercyMeatlessMondays. Elas esperam criar eventualmente um livro de receitas com todos os envios.


Uma das preferidas de Gallagher é o pimentão vegetariano, e está ansiosa para experimentar a lasanha de berinjela – que, se preparada corretamente, "pode lhe dar a textura da carne", diz.

Uma irmã da Filadélfia é vegetariana há três anos. Embora nunca tenha comido muita carne, ela foi inspirada a deixar integralmente a carne a partir da encíclica Laudato Si, de Francisco, sobre o cuidado de nossa casa comum e do livro de John Dear Eles herdarão a terra: paz e não-violência em tempos de mudança climática. A religiosa planeja usar essa Quaresma para se abster de laticínios.

Para outras pessoas que possam estar buscando um desafio maior, as irmãs recomendam tentar abster-se de carne todos os dias no almoço ou planejar refeições com frutas, legumes e grãos como prato principal. E incentivam as pessoas a considerar estender um estilo de vida com menos carne além dos 40 dias da Quaresma.

Hoje, muitos católicos com foco tradicional fazem exatamente isso e continuam observando um jejum de um ano de carne às sextas-feiras como um ato de penitência. Após o Concílio Vaticano II, o papa Paulo VI relaxou a abstinência de carne durante todo o ano, de obrigatória para voluntária. Mas a prática ressurgiu nos últimos anos, quando os bispos da Inglaterra e do País de Gales a restauraram em 2011, e vários bispos dos EUA a incentivaram em suas dioceses.

Gallagher disse que convidaria os católicos que se abstêm de comer às sextas-feiras por razões religiosas para examinar também os efeitos positivos que essa escolha, independentemente da motivação, pode ter sobre o meio ambiente, a criação de Deus que todos são chamados a proteger e preservar.

"Saber que, enfim, é um benefício", disse ela. "Você está fazendo algo de bom pela Terra".


Publicado originalmente por National Catholic Reporter


Tradução: Ramón Lara

*Brian Roewe é escritor da equipe da NCR. Seu endereço de email é broewe@ncronline.org. Siga-o no Twitter: @BrianRoewe.



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