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12/03/2020 | domtotal.com

Em meio a acusações de assédio, Polanski aborda o Caso Dreyfus, que dividiu a França

'O oficial e o espião' é um thriller psicológico narrado pelo olhar de um policial antissemita

Na virada do século 19 para o 20, caso mobilizou a opinião pública francesa
Na virada do século 19 para o 20, caso mobilizou a opinião pública francesa (California Filmes)

Na virada do século 19 para o 20, um caso judicial convulsionou e dividiu a França. Alfred Dreyfus, capitão do Exército francês acusado de fornecer informações militares para os alemães, foi condenado à prisão perpétua na Ilha do Diabo. Depois de anos cumprindo pena, foi inocentado.

Mais de um século depois, um filme sobre o Caso Dreyfus (1894-1906) divide de novo a França. Traz novas informações sobre o affaire do oficial judeu, alguma reviravolta na interpretação histórica dos fatos? Não: a questão, agora, não é com o acusado, ou com o processo, mas com o diretor do filme, Roman Polanski, de 86 anos.

Autor de vasta e apreciada obra – com títulos de prestígio e alta qualidade como O bebê de Rosemary, Chinatown, O inquilino e O pianista, entre outros – Polanski é atacado não por questões estéticas, mas por seu comportamento passado em relação às mulheres. 

Em 1977 foi condenado nos Estados Unidos pelo estupro de uma menina de 13 anos, Samantha Geimer. Cumpriu parte da pena foi liberado, e, quando o juiz aumentou a sentença, fugiu para a França. Existe um mandato judicial da Califórnia contra ele. Há pouco, a fotógrafa e modelo Valentine Monnier acusou Polanski de tê-la estuprado quando ela tinha 18 anos. Outras mulheres afirmam ter sido violadas pelo diretor quando elas eram menores de idade. Polanski declara-se inocente.

No quadro do #MeToo e da nova onda feminista, os malfeitos de Polanski, provados ou supostos, ganharam novo relevo e despertaram a ira de ativistas francesas. Na noite da cerimônia dos Prêmios César, o “Oscar” francês, feministas cercaram a Salle Pleyel, onde acontecia a cerimônia, e foram contidas pela polícia. O filme, J’accuse, havia sido indicado para 12 categorias. Levou três prêmios: o de melhor figurino, roteiro e direção – estes dois últimos para Polanski em pessoa.

Indignada, a atriz Adèle Haenel, principal porta-voz da campanha contra Polanski, abandonou a cerimônia e foi seguida por várias pessoas do meio artístico. Na saída, murmurou, de modo a que todos ouvissem, duas palavras: “La honte!” (Que vergonha!) E o prêmio francês de 2020 passou a ser chamado de “Le César de la honte” nos meios feministas. Temendo a reação, Polanski e todos os integrantes da equipe haviam feito forfait e não compareceram à Salle Pleyel.

O caso está sendo discutido na França até agora. Mesmo porque as indicações de J’accuse se tornaram o epicentro de uma crise na entidade que organiza o prêmio, a Academia Francesa de Cinema, provocando a demissão coletiva do corpo diretivo. Apesar de toda essa efervescência, mais de 1,5 milhão de franceses havia visto o filme nos cinemas até a data da premiação do César.

Tais circunstâncias tornaram obrigatória a discussão do “Caso Polanski” e ameaçaram deixar o filme em si em segundo plano. Isso na França, com sua tradição racionalista e respeito pelo cinema de autor. A crítica, em quase unanimidade, consagrou a obra, assim como o público. Mas a premiação jogou combustível na fogueira e muita gente considerou a premiação de Polanski como melhor diretor uma espécie de aval concedido a um violador de mulheres.

Afinal, o caso J’accuse levantou a antiga discussão sobre a possibilidade de apreciar obras de grande valor artístico mesmo quando realizadas por gente de caráter duvidoso. É uma questão espinhosa e nosso tempo de lacração, cancelamento e condenação sumária nas redes sociais não fornece ambiente ideal a esse tipo de reflexão. Ou a qualquer outro tipo de pensamento mais complexo e matizado.

A partir desta quinta-feira (12), o público brasileiro poderá tirar as próprias conclusões sobre o filme, que aqui chega com o título de O oficial e o espião.

Desde as primeiras cenas, verá que não se trata de uma obra qualquer. Na manhã fria de Paris, no espaço imenso da Academia Militar, um oficial é degradado diante da tropa e sob os olhos do público, que espreita a distância. Uma e outra vez, e mais uma, Dreyfus (Louis Garrel) proclama aos brados sua inocência. De nada adianta. Sua sorte está selada e, de lá, ele seguirá para o degredo e a prisão.

O protagonista de O oficial e o espião não é Dreyfus, que pouco aparece na história. O personagem principal é Georges Picquart (Jean Dujardin, magnífico), oficial com participação na condenação de Dreyfus e, ele próprio, antissemita confesso. Promovido, após o julgamento, a um cargo na contraespionagem, Picquart passa a examinar documentos secretos e começa a pôr em dúvida a culpa de Dreyfus, que lhe parecera de início tão evidente.

Hábil na construção de ambientes, Polanski conduz o caso como um thriller psicológico. Usa sugestões e alusões. Por exemplo, quando Picquart assume o novo posto sente o mau odor ambiente. Um subalterno, Henri, diz provir de esgotos do subsolo, o que insinua o clima malsão da 3ª República e seu antissemitismo assumido.

Em Père Goriot, Balzac falava do “esgoto moral de Paris” e é essa a essência que impregna a trama de O oficial e o espião, uma radiografia da podridão dos mecanismos do poder. A falsidade dos documentos incriminando Dreyfus parece evidente, mas o Exército não quer recuar da condenação, pois isso seria sua desmoralização perante o país. Boa parte da opinião pública, insuflada pelo antissemitismo e envenenada pela guerra com os alemães, também é contra a revisão do caso. A violência campeia em Paris entre os grupos rivais. O affaire Dreyfus dilacerou a França ao longo dos 12 anos que durou. Dividiu amigos, separou famílias, criou inimigos inconciliáveis.

Nesse ambiente tenso e obscuro, brilham pontos de claridade. A começar pela integridade ética de Picquart, que põe em risco a carreira para salvar a pele de um homem de quem não gostava nada. O escritor Émile Zola também coloca o pescoço a prêmio ao assinar o talvez mais célebre panfleto da história ocidental, ao lado do Manifesto Comunista de 1848, o J’accuse (Eu Acuso), publicado na capa do jornal L’Aurore de 13 de janeiro de 1898. Tanto Picquart como Zola foram processados e condenados por seus atos em defesa de Dreyfus, antes de serem reabilitados e passarem à história da dignidade humana.

Do ponto de vista da carpintaria dramatúrgica, o filme é exemplar, madeira de lei. Nele reencontramos o Polanski minucioso e intenso, em busca da perfeição, capaz de atormentar atores e atrizes com a repetição incessante de cenas até conseguir o que deseja. Essa minúcia aparece em detalhes nesse filme de corte clássico.

Em meio ao perfeccionismo, surgem cenas de invenção, como quando trechos de J’accuse são lidos em sequência pelos citados nominalmente no panfleto de Zola. Essa sequência causa forte impressão e dá ideia da repercussão dessa peça jornalística tanto entre os acusados quanto entre a opinião pública francesa. Um dos, digamos assim, subprodutos do Caso Dreyfus, foi o surgimento do intelectual público, aquele que desce da sua torre de marfim e sai em defesa das boas causas. Émile Zola foi a primeira encarnação desse personagem. Pensando bem, existem muitos pontos de contato entre o Caso Dreyfus e a nossa atualidade. Basta saber ver.


Agência Estado/Dom Total



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