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11/03/2020 | domtotal.com

Sem debate não tem nenhuma graça

A franqueza e a inevitável sinceridade da conversa carregavam lastro de cumplicidade bem maior do que qualquer divergência

A banda originária de San Diego, na Califórnia, fez sucesso no final dos anos 1960 e início dos 1970
A banda originária de San Diego, na Califórnia, fez sucesso no final dos anos 1960 e início dos 1970 (YouTube/Reprodução)

Pablo Pires Fernandes*

Num corredor do Mercado Central, de longe reconheci a estampa na camiseta de um homem, antes mesmo de notar que era Rogério Hilário quem a vestia. Meu colega de profissão exibia no peito a imagem da capa do famoso álbum do Iron Butterfly, In-a-gadda-da-vida, de 1968.

Ocupados com as compras, marcamos o encontro para 20 minutos depois, no Rei do Torresmo, boteco minúsculo ao lado da Peixaria Modelo, comandado pelo simpático Geraldinho. A imagem daquela capa me trouxe lembranças e, entre azeitonas e temperos, voltei aos discos de vinil da casa onde vivi boa parte da minha adolescência. E me voltou o som da canção-título. Eram mais de 17 minutos ocupando todo o lado B do disco que escutava na sala.

A estante ocupava toda uma parede do cômodo e, num canto, logo abaixo da prateleira com diversos dicionários, ficava a vitrola. Eu fuçava e explorava os bolachões reunidos por todos os membros da família, o que significava ouvir todo tipo de música, de clássicos eruditos a boleros antigos, de samba a alguns exemplares do rock psicodélico, como era o caso do exemplar surrado e estalante do Iron Butterfly da minha mãe, ouvido entre Chicos, Caetanos, Gils, Miltons e Beatles.

Recordei-me da surpresa quando reconheci o solo de bateria numa cena do filme Bang-bang, clássico do cinema marginal dirigido pelo saudoso Andrea Tonacci. Nas imagens em preto e branco, um jovem Paulo César Pereio caminhava pela Avenida Afonso Pena, na Belo Horizonte de 1970, enquanto as batidas delirantes marcavam seu passo.  

Foi com certo espanto que Rogério Hilário ouviu meu comentário crítico a respeito da banda, sobretudo após ouvir o relato sobre a minha relação afetiva com o álbum. “É um disco fraco”, disse. A frase ficou pairando no ar até ele me perguntar o porquê de tal julgamento. Era apenas a minha opinião, disse, embora tenha discorrido sobre estética e evolução da linguagem musical para fundamentar os argumentos. As réplicas que ouvi eram boas, mas segui firme na contestação e nenhum dos dois mudou seu ponto de vista.

Depois de uns dias, o episódio sobre o velho disco veio à tona de novo. Pensei sobre as relações afetivas com a música. Mudei muito e rejeito hoje canções e bandas que admirei profundamente. No fundo, porém, não sei se o julgamento racional sobre estética é superior aos afetos e as memórias evocadas de musicas “supostamente ruins”.

No caso do debate entre meu colega e eu, a franqueza e a inevitável sinceridade da conversa carregavam lastro de cumplicidade bem maior do que qualquer divergência. Ambos sabíamos que as opiniões divergentes são imprescindíveis. E lamentamos a dificuldade de praticá-los no Brasil do presente. Para jornalistas escaldados, a quase impossibilidade de trocar ideias dos dias atuais (sem partir para ofensas) é como surrupiar nossa diversão, como roubar o doce de uma criança.

Aí me confortam as palavras ditas pelo Rogério Hilário naquela tarde no mercado. “É importante ouvir o outro, de alma e coração abertos”. Felizmente, ouvi.

*Pablo Pires Fernandes é jornalista. Trabalhou nas editorias de Cultura e Internacional nos jornais 'O Tempo' e 'Estado de Minas', onde foi editor do caderno Pensar. É diretor de redação do 'Dom Total'



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