Religião

13/03/2020 | domtotal.com

A acolhida como critério evangélico

Acolher quem sofre é a marca evangélica e não comporta julgamento, pois isso pertence a Deus

O abraço de Dráuzio Varella em uma mulher trans presa foi uma das cenas de maior afeto e solidariedade da televisão brasileira nos últimos tempos e causou controvérsias
O abraço de Dráuzio Varella em uma mulher trans presa foi uma das cenas de maior afeto e solidariedade da televisão brasileira nos últimos tempos e causou controvérsias (Reprodução/Fantástico/TV Globo)

César Thiago do Carmo Alves*

Uma entrevista, uma mulher trans presa e um abraço. Uma imagem que rodou o Brasil. O médico Dráuzio Varella protagonizou uma das cenas de maior afeto e solidariedade que se assistiu nos últimos tempos na televisão brasileira. Durante a reportagem sobre pessoas trans nas penitenciárias, ao se deparar com a dor da solidão de Suzy Oliveira, que não recebia visitas há pelo menos 7 anos, de modo sensibilizado, Dráuzio não hesitou e abraçou-a.

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Inúmeros foram os comentários tecidos. Desde os que viram no gesto do médico um ato de humanidade aos que enxergaram um ato de cumplicidade com o crime que Suzy havia cometido. Não demorou muito para que se divulgassem os artigos do código penal nos quais a reclusa estava tipificada. O que evidentemente se constatou que não foi, de imediato, a repulsa pelo crime cometido, mas sim o fato dela ser pessoa trans o fruto desses comentários. Esconde-se atrás do tipo penal para poder manifestar o preconceito. Os artigos do código penal servem tão-somente como um álibi para os moralistas de plantão. Tanto é que, a própria Suzy, por meio de sua advogada, teve que afirmar que em nenhum momento quis passar por inocente. Nos diversos comentários Suzy está condenada não pelo que ela cometeu, mais sim pelo que ela é: mulher trans.

A reportagem de Dráuzio Varella foi ao ar no dia 1º de março. Esse dia, no presente ano, foi o primeiro domingo da quaresma. Tempo forte na espiritualidade litúrgica da Igreja que convida à conversão. No Brasil, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, como de costume, apresenta um tema para a Campanha da Fraternidade. Esse ano o tema é: Fraternidade e vida: dom e compromisso. O lema: “Viu, sentiu compaixão e cuidou dele” (Lc 10,33-34). Indubitavelmente o lema é sugestivo para se pensar no que consiste a acolhida. Ela é fruto do olhar compadecido e do desejo de cuidar. Isso é carga densa de humanidade. Não julgar e simplesmente amar!

Curiosamente, após a entrevista exibida no Fantástico, um grupo de pessoas ditas cristãs encabeçou a retaliação de Suzy. Ora, em nenhum momento quis absolver o crime por ela cometido e tampouco relativizar o sofrimento de uma mãe que perdera seu filho, mas sim se solidarizar com a dor de uma pessoa que vive solitariamente, sem visitas. Estive preso e fostes me visitar (Mt 25,36).

Interessante notar que a maior parte dessas pessoas se diz contrária à Campanha da Fraternidade. Alegam que ela desvirtua o sentido próprio da quaresma que consiste na oração e na penitência. Aqui, mostra-se mais forte ainda a necessidade da Igreja no Brasil de insistir numa conversão real que tem impactos sobre a vida das pessoas e que as comprometam com a solidariedade com as pessoas mais sofredoras. Por outro lado, outro grupo de pessoas reconheceu no gesto de Dráuzio Varella uma verdadeira aula de cristianismo, mesmo que o médico não confesse a fé cristã. Ele foi o bom samaritano, ícone da Campanha da Fraternidade desse ano.

A acolhida a quem sofre é marca evangélica. Ela não comporta julgamento. O julgamento pertence a Deus. Todas as vezes que se pleiteia para si ou para seu grupo religioso a pretensão de se estabelecer como juiz da vida de outrem, se está querendo ocupar o lugar da divindade. Isso, em linguagem teológica, é idolatria. Se o tempo quaresmal consiste efetivamente, desde a perspectiva existencial e espiritual, tempo para rever a própria vida e pensamentos para assim agir segundo a proposta de Jesus, cabe repensar nas falácias que se usa, servindo-se da própria Escritura ou da legislação brasileira como máscaras para esconder o preconceito. Usar do texto sagrado, nesse sentido, é se enveredar pela lógica do sepulcro caiado (Mt 23,27-32).  

Ver, sentir compaixão e cuidar revela o grau de nossa humanidade. Ir à direção oposta é assumir para si o itinerário da desumanização. Diante da dor alheia, independente do erro cometido, o que cabe é a acolhida sincera, desprovida de juízo e a hospitalidade pura. No caso mencionado, nada impede de solidarizar-se com Suzy e com a mãe da vítima. Uma não anula a outra. Muito pelo contrário, aponta que para a experiência cristã o ser humano é efetivamente amado por Deus e isso se traduz de modo concreto no amor que a pessoa cristã é capaz de demonstrar para seu irmão/ã sem juízo de valor.

Enfim, a acolhida cristã é exigência do Evangelho. Foi o modus operandi de Jesus. Ela ultrapassa fronteiras e aposta definitivamente na humanidade criada e amada por Deus. Isso, em última análise, é a humanização da humanidade que gera santidade.

*César Thiago do Carmo Alves é doutorando e mestre em Teologia Sistemática pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE). É graduado em Filosofia pelo ISTA e Teologia pela FAJE. Possui especialização em Psicologia da Educação pela PUC Minas. É membro do grupo de pesquisa Teologia e diversidade afetivo-sexual da FAJE.



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