Religião

13/03/2020 | domtotal.com

O amor é o critério de salvação

Amar os que são maus é o complicado desafio imposto ao cristão. Por isso não se pode reduzir amor a um mero sentimento

'Amor não tem ordem. Quando amo, proclamo o outro digno de mim, estou reconhecendo automaticamente o meu valor e o do outro'
'Amor não tem ordem. Quando amo, proclamo o outro digno de mim, estou reconhecendo automaticamente o meu valor e o do outro' (Vonecia Carswell/Unsplash)

Gilmar Pereira*

Uma das coisas que assustam os cristãos é o juízo último de Deus. Este é comumente entendido como algo que acontecerá no fim do mundo. Mas tempo é categoria de entendimento humana e, por isso, não corresponde à divina. Deus está para além de nossa temporalidade. Assim, o terror cristão deveria ser maior porque, rompendo com qualquer temporalidade, o juízo se dá na eternidade do hoje.

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Cada ação humana implica numa decisão sobre si diante do mundo, culminando numa repercussão que ecoa na totalidade de sua vida, no eterno de sua existência. Muitas vezes se diz que alguém, apesar das ações más, é boa por dentro. Acontece que não se pode falar de uma essência de bem nesse caso. Bem e mal são adjetivos que caracterizam o prejuízo ou não de algo. O ser humano é bom quando faz o bem; mau, quando faz o mal. Não se pode dizer uma palavra definitiva sobre a bondade ou maldade de alguém que está no tempo e por isso só Deus é bom.

Apesar disso, como o tempo não volta, cada decisão é eterna no seu presente, ainda que tentemos revertê-la no futuro. Mesmo que tenha sido um ato inconsciente, mesmo que a clareza dos fatos obnubilasse a visão, mesmo que o instinto fosse o motor do agir, foi-se mau quando se agiu mal. Não obstante, essa maldade não é o indivíduo, também não lhe é essencial. Antes, a pessoa se inclina para o bem, deseja o bem. Algumas vezes, esse desejo pode ignorar o outro e é aí que começa o mal. Toda vez que o indivíduo se fecha em si mesmo, buscando o próprio amor, querer e interesse, desprezando o outro, ele acaba entrando numa estado que a religião chama de pecado e que, em sua disposição atemporal se chama inferno.

O outro sempre propõe um deslocamento, um descentramento de si. Ir ao seu encontro é tarefa dolorosa e, ao mesmo tempo, gozosa. Isso porque nos fundamos como sujeitos a partir da alteridade – como se diz na filosofia, “o não-eu gera o eu e o eu gera o não-eu”. Mesmo a psicologia do aprendizado e desenvolvimento aponta que o surgimento da consciência e a formação da identidade da criança se dá justamente quando ela reconhece que existe um outro e, assim, depara-se com os próprios limites. O mundo não é extensão sua e, se existe algo que não é ela, pode descobrir a si. A realização humana se dá na tensão entre a afirmação de si e do outro.

Nesse sentido, o espelho do outro é tanto mais nítido quanto mais se enxerga similaridades. Assim, em Gênesis se afirma que não é bom que o homem esteja só. Então Deus cria alguém que lhe é semelhante. Para o bem e realização humanos temos a alteridade. Dito de outra forma, o outro é sacramento de salvação, de realização daquele que é imagem e semelhança de Deus. No rosto do outro o humano encontra o seu próprio e a face divina. Esse sacramento, que é o outro, se faz necessário à salvação.

Em Mateus 25, Jesus apresenta aos discípulos o dia do juízo. A medida dada para que cada qual seja avaliado é o amor com que se viveu. Diante do rosto do outro, eu amei? O valor, o peso que se dá ao outro é o peso que se dá a si. O critério é amar o próximo como a si mesmo. Não existe essa bobagem de “tenho que me amar primeiro porque só assim eu posso amar o outro”. Isso é discurso tolo de autoajuda. Amor não tem ordem. Quando amo, proclamo o outro digno de mim, estou reconhecendo automaticamente o meu valor e o do outro. Aliás, só é capaz de amar em autenticidade quem compreende que ele próprio tem valor e, desse modo, consegue-se e se pode dizer “não” a quem se ama. Amor põe limites ao outro também para o seu bem.

Cristo dá o exemplo do critério do juízo quando ele próprio se identifica com o outro. Faz-se pobre em cada pobre; doente, no doente; encarcerado, no preso; com sede, no sedento. A alteridade para Jesus é fim em si mesmo e é diante dela que se dá o juízo de cada um. O outro é meu juízo final, o que me faz dizer se ele é meu inferno ou meu céu, no sentido de encontrar nele minha condenação ou meu paraíso.

A dureza desse discurso escatológico se dá na ausência de premissas. Seria mais fácil amar o próximo se enxergássemos o Cristo bondoso; se Jesus é bom e determinada pessoa também o é, logo, veria um no outro. Mas não. Jesus não faz juízo moral sobre quem merece amor. Quando fala de alguém na prisão, não coloca a condição de que seja alguém injustiçado ou que cumpra pena por crimes pequenos. Não há esse critério. “Quando foi que te vimos nu, na prisão, com sede...?”

O desafio imposto ao cristão é amar os maus. Não que haja alguém essencialmente mal, pois todos, criados à imagem e semelhança de Deus, são inclinados para o bem. As pessoas são más quando agem mal, quando se fecham em si mesmas e buscam apenas o que se lhes apresenta como bem e que pode ser ruim para os demais. Elas são más quando fecham-se em si. Em contrapartida, uma pessoa que ama, que sai de si, é aberta e somente esse amor por tirar o outro da prisão do egoísmo. O amor incondicional de Cristo é esse. Ele ecoa na vida de todo aquele que o acolhe. Isso faz com que o cristão seja expressão desse amor. Agora, se a pessoa não for capaz de amar, a Primeira Carta de João tem uma má notícia: “Quem não ama não conhece a Deus”.

Somos humanos, limitados. Nosso amor também conhece limites. É difícil amar quem pratica deliberadamente o mal. Por isso não se pode reduzir amor a um mero sentimento. Ele é decisão que não desculpa o outro, mas perdoa. Desculpar é retirar a responsabilidade. Perdoar é doar-se apesar do erro alheio. O amor cristão reconhecer o erro, busca a justiça, mas age sempre com misericórdia. Quem assim procede não cultiva a impunidade, mas entende que só se resgata o pecador com o amor que cura, liberta e salva.

*Gilmar Pereira é mestre em Comunicação e Semiótica, graduado em Filosofia e Teologia, fotógrafo e estudante de psicanálise.



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