Religião

13/03/2020 | domtotal.com

Algozes de antolhos!

Hoje em dia somos capazes de nos sensibilizar com um abraço e, no dia seguinte, bravejar e apedrejar. Estamos envoltos pelo ódio, pela desinformação e pela ignorância

É comum vermos em nossas redes sociais linchamentos digitais, palavrórios intermináveis e um “pensamento” raso
É comum vermos em nossas redes sociais linchamentos digitais, palavrórios intermináveis e um “pensamento” raso (Mimi Thian/Unsplash)

Daniel Couto*

"Viu, sentiu compaixão e cuidou dele" (Lc 10,33-34)

Acolhida, solidariedade, compaixão. Vivemos tempos onde o julgamento de uns em relação aos outros segue, em grande parte dos casos, apenas a sua “leitura”, “experiência” ou “opinião”. Estamos endurecidos pela crueldade que nos rodeia, mas empoderados pelos meios de expressão digital que distancia o contato e nos reveste de uma sensação de falta de responsabilidade. Cotidianamente vemos, em nossas redes sociais, linchamentos digitais, palavrórios intermináveis e um “pensamento” raso, irrefletido, “vomitado”.

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Um dos eixos que precisamos considerar nesse fenômeno hodierno é a atribuição particular do “direito’ de julgar os outros indivíduos que estão sujeitos às mesmas leis e que vivem sobre a égide de um mesmo Estado. Os mecanismos do direito, pensados para buscar um processo que respeita as condições das pessoas e as suas prerrogativas fundamentais, bem como a neutralidade da justiça, são descartados totalmente quando os sujeitos passam a se digladiar com argumentos intimistas, descontextualizados e sem nenhum aparato instrumental. Basta um gatilho para que, com todo o seu arsenal, as milícias digitais entrem em campo e desconstruam todo o discurso, as razões e as competências da sua vítima.

O que acontece, portanto, não é nem uma busca pela justiça, nem uma valorização daqueles princípios evocados pelos justiceiros. O movimento que observamos é um ataque massivo, sem direito de resposta e sem aparato crítico, contra toda e qualquer manifestação que “busque compreender o mundo de uma maneira diferente”. Aqueles que possuem mais “força” para impor o seu modo de ver uma determinada situação, e que fazem um barulho gigantesco, se tornam intransigentes e se escondem atrás do princípio da “livre expressão”. O que “pretendia” ser uma discussão sobre os valores e as ações, passa a ser um monólogo daqueles que se julgam os “paladinos da moral e da justiça”.

Porém, não é por esse caminho que a justiça se estrutura. Como um dos princípios mais difíceis das ciências humanas, a “justiça” já foi perseguida por diversos filósofos, fundada na razão, na fé, na experiência, no fenômeno, no espírito coletivo, nas leis. Por estar sujeita às particularidades dos seus pleiteantes e da interpretação dos juízes, quanto mais objetiva e imparcial é a base sobre a qual a justiça é construída, mais próximo estamos de um “julgamento justo”. Mas na nossa experiência ordinária o que podemos é, de algum modo, exercitar o diálogo, a tolerância e a solidariedade.

Se a justiça é uma meta difícil de ser alcançada, temos como “lugar comum” o entendimento de que os seres humanos devem “fazer o bem”. Por mais que tenhamos sistemas éticos e religiosos diferentes, em alguma medida encontramos a premissa da bondade como um de seus princípios. Ser bom, exercitar a bondade, doar-se com amor e caridade, são fundamentos que permeiam o pensamento ocidental.

A dificuldade de “ser bom” está atrelada à nossa insistência em condicionar a bondade ao “merecimento”, isto é, somente os justos, ou aqueles que também são retos e virtuosos, merecem a bondade. Mas se a justiça é tão difícil de ser alcançada, seria impossível exercer a bondade? É na contramão dessa visão “comum” que nos conduzem os princípios cristãos. Na narrativa do Evangelho, a bondade não está condicionada ao “merecimento”, mas é pura “graça e misericórdia”. Todos os seres humanos, por sua dignidade, são sujeitos da bondade. Ela é incondicional e irrestrita: devemos amar a todos, sem distinção, inclusive os inimigos.

Ser bom, inclusive, independe da nossa própria condição ou virtude. A bondade é uma ação do agora e capaz de restaurar no outro o seu pertencimento à comunidade dos “filhos de Deus”. Na mitologia bíblica, os seres humanos foram criados pelo transbordamento da bondade do Pai; da mesma maneira a vida de Jesus é o derramamento da bondade e a busca pela justiça. Enquanto a justiça é divina, pois somente um princípio retirado dos condicionamentos pode realizar um julgamento justo, a bondade é expressão humana da misericórdia de Deus. Aí reside toda a sabedoria popular ao expressar: fazei o bem sem olhar a quem.

Isso acontece, primeiro, porque essas duas ações são separadas, isto é, uma não pode tomar a outra como "condição". Como vimos anteriormente, a justiça não é um atributo ou um direito "daqueles que são bons", da mesma maneira que, para fazermos a bondade não é necessário "olhar a quem". Isso é fundamental: a gratuidade da bondade é que faz dela uma virtude de alteridade e compaixão. Eu reconheço no "outro" sua dignidade enquanto ser humano e, ao me mover em direção a ele, tenho apenas essa natureza diante dos meus olhos. A ação bondosa é desprendida, desinteressada e sem julgamentos.

Por outro lado, isso não quer dizer que devemos "relevar" as ações dos outros, nem deixar de denunciar sua gravidade e monstruosidade. Todas as transgressões, delitos e crimes que afetam a sociedade devem ser julgados, a partir dos mecanismos legais, e punidos de acordo com sua dimensão. Para além da condenação judicial, também é preciso responsabilizar socialmente essas pessoas que, ao usarem sua liberdade e "capacidade" rompem o tecido social com suas ações. A sabedoria do "fazer o bem", porém, não condena esse indivíduo a uma condição de subumanidade, nem retira dele sua dignidade, por mais que seu ato seja repudiável.

Claro que, em alguma dimensão, a ação cometida está ligada ao sujeito que a cometeu, mas isso não o transforma em "menos digno", em inferior ou invisibilizado. Pelo menos não é essa a leitura que o cristianismo propõe para o Reino. Na comunidade daqueles que seguem o caminho do Evangelho, são necessárias a punição e a justiça, mas nunca a desumanização do outro. Ele sempre será digno de afeto, compaixão e bondade. A máxima da ação bondosa é construída dessa maneira pois, mesmo que em pequena escala, todos somos reprováveis diante da concepção de uma conduta "justa e reta" e, na dimensão da espiritualidade, pecadores. Porém, não é o pecado que define o ser humano. No Reino, a humanidade é redimida; o pecado continua a ser repudiado, mas as filhas e filhos de Deus habitam com alegria no colo misericordioso do criador.

A incompreensão por parte desses algozes de antolhos consiste na impossibilidade de distinguir a ação do sujeito. Eles estão com a visão cerceada, direcionados para a transgressão e sedentos por uma punição e se tornam incapazes de olhar ao redor. Para ser misericordioso é preciso exercitar a visão periférica, encontrar perspectivas para um mesmo fato e compreender as condições nas quais cada sujeito vive e se enxerga na sociedade. É lutar pela justiça, pela justa penalização daqueles que cometeram atos criminosos, mas entender que eles também precisam de proximidade, de apoio e de bondade. Só consegue ultrapassar a barreira do moralismo aqueles que exercitam a alteridade, sofrem pelas mazelas da sociedade e percebem que por traz da dor e da tragédia existem seres humanos e suas “pessoalidades”.

Novamente nos encontramos com o Cristo – afinal, o cristianismo é uma constante caminhada com o messias da paz –, aquele que escutava atentamente os sofredores e excluídos e dizia: “eu não vim para os justos, mas para os pecadores”. Poderia Jesus ignorar as faltas cometidas por todos aqueles que caminhavam com ele? Também ele não reconheceu que as leis precisam ser cumpridas? Como conciliar a justiça e a bondade?

A resposta não está longe da nossa experiência. O próprio Jesus nos ensina que somos muito mais do que nossas ações e que aquilo que nos irmana é o pertencimento à mesma natureza. Uma natureza que é a imagem da divindade, mesmo que corrompida pelas nossas mazelas. A justiça deve ser buscada, com todo o nosso empenho, mas não podemos deixar que a indignação e o ódio reforcem o ciclo da violência. Jesus ensina que devemos retribuir o sistema violento no qual estamos inseridos com a face que ainda não foi esbofeteada. Quando ele sobe ao monte e se transfigura diante dos seus discípulos nos mostra que a humanidade está revestida pela divindade e que a promessa do reino se cumpre em cada um, na medida em que também deixamos o rosto misericordioso do pai resplandecer para todos. Isso mesmo, a misericórdia é para todos.

Hoje em dia somos capazes de nos sensibilizar com um abraço e, no dia seguinte, bravejar e apedrejar. Estamos envoltos pelo ódio, pela desinformação e pela ignorância. Somos intransigentes, jogamos e julgamos as faltas do outro nas “redes” para que os famintos por violência possam se deliciar. Sobrevoamos a carniça na esperança de que uma migalha reste para nós. Somos canibais insaciáveis e esquecemos que o a bondade é incondicional. Precisamos relembrar algumas das primícias da nossa convivência. Precisamos resgatar o nosso caminho. É necessário colocar no umbral de nossas vidas a sentença: “fazei o bem sem olhar a quem”, para tirar nossos antolhos e reconhecermos que a justiça divina nos mostra a pequenez da nossa moral. Precisamos urgentemente de mais acolhida, solidariedade e compaixão.

*Daniel Couto é doutorando em Filosofia



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