Religião

13/03/2020 | domtotal.com

Um abraço e o revelar de um cristianismo sem a ética do amor

Jesus nos ensinou que o acolhimento e o amor devem ser primeiro dispensados àquelas pessoas que mais precisam

É deveras triste que um abraço numa pessoa seja motivo de escândalo
É deveras triste que um abraço numa pessoa seja motivo de escândalo (Thathiana Gurgel/ DPRJ)

Felipe Magalhães Francisco*

A sociedade brasileira está adoecida. Não que em algum momento ela estivesse plenamente sã, já que desde seus inícios, ela fora fundada sobre o alicerce da desigualdade. Mas é grave o que está acontecendo atualmente. Os muitos preconceitos, arraigados em nós todos e todas, para uma grande massa, na atualidade, têm se tornado motivo de orgulho. Quando boa parcela da sociedade brasileira tem feito um caminho de superação dos preconceitos que nos atrasam em nosso desenvolvimento humano, outra parte imensamente expressiva – que começou a destilar ódio pelas redes sociais – agora ocupa também as ruas de peito aberto. Se, por um lado, antes as pessoas escondiam seus ódios e preconceitos, por saberem não serem bons valores; agora, já não há mais filtro, nem recalcamento (para ser psicanalítico): a era da estupidez vem acompanhada pelo orgulho em ser estúpido.

Mais conflitivo ainda – e estarrecedor, a bem da verdade –, é quando essa sociedade se orgulha de sua confessionalidade: a cristã. Sabe-se bem que a história do cristianismo – em seu aspecto institucionalizado – é bastante controversa. Mas isso não apaga a busca de muitos cristãos e cristãs, de pertenças em Igrejas católica, protestantes e evangélicas, de serem o máximo possível coerentes com sua fé. Importa destacar que, antes de ganhar contornos religiosos, o cristianismo é um estilo de vida: ter em nós os mesmos sentimentos que haviam em Cristo Jesus (Filipenses 2,5). Mas, e quando a confessionalidade cristã de muitos e muitas na sociedade brasileira, dá-se apenas na formalidade de se dizerem “cristãos” e no simples exercício religioso, desvinculado da ética?

A ética cristã é exigente. É por isso que se sabe que o processo de aceitação do Evangelho do Reino deve ser constante e, porque sempre corremos o risco de nos perdermos nesse caminho, a conversão é uma possibilidade real e uma opção necessária. A busca pela coerência, no entanto, é o que torna possível que nossa fé seja efetivamente testemunhada. Quando a boca se enche para dizer “Senhor, Senhor!”, mas as mãos não atuam em favor da justiça e do amor do Reino, não somos reconhecidos como seguidores e seguidoras de Jesus. Contra o falso testemunho dos que se assumem discípulos e discípulas, Jesus é bastante duro e enfático: é melhor que amarrem uma mó ao pescoço e que se lancem ao mar! Amor, solidariedade, perdão, compaixão, misericórdia, entre outros, são valores fundamentais que devem compor o leque de adjetivos presentes na identidade dos cristãos e cristãs. O exercício desses valores deve ser uma busca diária e, um aspecto fundamental disso é: o amor cristão não tem critérios, porque o amor de Deus revelado em Jesus Cristo, também não tem!

É deveras triste que um abraço numa pessoa seja motivo de escândalo: que revele que cristãos e cristãs enchem a boca para contratestemunhar um cristianismo sem a ética que nasce do amor. Não importa se cometeu um crime; não importa se tem uma sexualidade que se desvia do padrão heteronormativo; não importa se ela está encarcerada. Por que não importa, afinal? Porque Jesus nos ensinou que o acolhimento e o amor devem ser primeiro dispensados àquelas pessoas que mais precisam: ele próprio se dizia um médico que veio para doentes, e não para sãos. Quando um abraço escandaliza cristãos e cristãs é sinal de que alguma coisa nessa fé está terrivelmente errada. É por isso que cabe repetir, continuamente, para que alcance o coração, aquilo mesmo que nos ensinou Jesus: “Deus faz nascer o sol sobre bons e maus”; “amar os inimigos e rezar por aqueles que nos perseguem”; “[...] eu também não te condeno”; “estive preso e me visitastes”...

O amor cristão, que deve ser o estandarte da presença cristã no mundo, não se pauta na meritocracia, no merecimento. Ama-se, e pronto! Não significa desconsiderar o pecado, a falha, o desvio: mas o que importa, mesmo, é que o amor tudo perdoa, tudo suporta, ensinou-nos Paulo. Se amamos alguém, damos a esta pessoa a oportunidade de humanizar-se, ao passo que nós mesmos assumimos o caminho da humanização. Com César Thiago, no artigo A acolhida como critério evangélico, refletimos sobre o modus operandi de Jesus, que nos serve de inspiração para uma postura de acolhida, que dispensa o lugar do julgamento que desumaniza. No artigo Algozes de antolhos!, Daniel Couto desenha o importante pacto social a respeito da bondade, sem a tentação da leitura do merecimento, ao mesmo tempo em que sinaliza o caminho de ruptura nesse pacto, quando assumimos um caminho de “direito” particular, que torna possível a condenação do outro, sem os critérios institucionais da sociedade. Encerra o Dom Especial Gilmar Pereira, com o artigo O amor é o critério de salvação, no qual faz uma leitura do juízo último, na perspectiva daquilo que o outro revela sobre mim mesmo: só a desmesura do amor é capaz de me associar à bondade com a qual Cristo atuou e, tão logo, salva-nos.

Boa leitura!

*Felipe Magalhães Francisco é teólogo. Articula a Editoria de Religião deste portal. É autor do livro de poemas Imprevisto (Penalux, 2015). E-mail: felipe.mfrancisco.teologia@gmail.com



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