Brasil

19/03/2020 | domtotal.com

Ingenuidade presidencial

O ingênuo tem dificuldade em identificar consequências 'devido a alguma incapacidade cognitiva'

Presidente não respeita isolamento profilático possivelmente por alguma incapacidade cognitiva que o impede de compreender a gravidade do seu ato
Presidente não respeita isolamento profilático possivelmente por alguma incapacidade cognitiva que o impede de compreender a gravidade do seu ato (José Cruz/Agência Brasil)

Afonso Barroso*

Fiz uma análise superficialmente profunda sobre o comportamento do presidente Bolsonaro em certos episódios e cheguei à conclusão de que ele não é um mau sujeito. De todos os momentos que recolhi da sua atuação, assim como das suas afirmações e atitudes, concluí que ele é apenas ingênuo, não mais que ingênuo.

Tomemos, por exemplo, o fato de ter saído às ruas para, junto com seus fiéis seguidores (estes, sim, não lá muito ingênuos), comemorar não se sabe bem o quê numa passeata organizada sem mais pra quê. Que saísse e se expusesse assim, tudo bem. Mas fazê-lo num momento em que as aglomerações podem acelerar o alcance de uma pandemia mortal que assola o planeta, aí é a mais pura ingenuidade. Ele, em sã ou doentia consciência, não tinha alcance intelectual para dimensionar a impropriedade, assim como os perigos da insana manifestação da turba ignara. É o que posso depreender com base nos meus parcos conhecimentos de psicologia.

Por falar em psicologia, tomemos uma afirmação muito pertinente da emérita psicóloga Marisa de Abreu Alves sobre o assunto. Diz ela que “muitas vezes a ingenuidade está relacionada com falta de avaliação de consequências. Talvez a pessoa tenha dificuldade em identificar consequências devido a alguma incapacidade cognitiva, ou talvez tenha vivido situações nas quais este aprendizado não tenha sido facilitado, ou tenha recebido uma educação com alguma proteção de forma a não elaborar consequências em futuro próximo ou distante”.

Daí a razão pela qual resolvi incluir o senhor presidente na categoria dos hurões. No conhecido e aclamado romance O ingênio, o escritor francês Voltaire trata das aventuras de um hurão, indivíduo nascido na tribo dos hurões, povo que vivia entre os Estados Unidos e o Canadá. De repente, eis que ele aporta no Norte da França, sem saber explicar direito como isso aconteceu. Há na história o dia em que seu padre confessor faz com que ele leia o Novo Testamento, já que não tinha religião nenhuma. O ingênuo lê e, sem saber quando foi que aconteceram os fatos narrados nos Evangelhos, imagina que haviam ocorrido na região e faz um juramento: iria cortar o nariz e as orelhas de Caifás e Pilatos, se algum dia os encontrasse por ali. Foi preciso explicar que os acontecimentos narrados pelos evangelistas haviam ocorrido mais de mil e quinhentos anos antes.

Não consigo imaginar o que faria o presidente depois de ler, por exemplo, a história do bispo dom Pero Fernandes Sardinha. Conta-se que ele foi brutalmente assassinado e vorazmente devorado pelos índios caetés, como se fosse não bispo, e sim peixe mesmo, como denunciava o sobrenome. É possível que o presidente, na sua santa ingenuidade, determine o extermínio imediato de toda a tribo desses terríveis antropófagos.

Aí, será preciso informar a ele que portugueses já tomaram essa providência há muitos e muitos anos. O que resta hoje dos caetés, senhor presidente, é apenas o nome de uma rua em Beagá. 

*Afonso Barroso é jornalista, redator publicitário e editor



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