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20/03/2020 | domtotal.com

Notícias do vírus

A virose também traz a neurose e esta mutação mental é bem mais danosa que o bichinho coroado

Embora cuidados sejam necessários durante a pandemia, o efeito colateral histérico só piora
Embora cuidados sejam necessários durante a pandemia, o efeito colateral histérico só piora (David Veksler/ Unsplash)

Fernando Fabbrini*

Assim como vocês, recebi dezenas de vídeos nos quais médicos, infectologistas, socorristas, sensitivos, médiuns e outros especialistas dão opiniões, precauções, alarmes e conselhos sobre a pandemia. Até uma profecia fake de Nostradamus rolou. O que leva alguém a inventar uma bobagem destas e postar nas redes? Babaquice em estágio terminal, imagino.

Outro subproduto oportunista da virose são depoimentos de famosos nas redes. Como não aguentam ficar sem aparecer, andam agora informando à população brasileira se testaram positivo ou negativo – como se fosse fundamental saber se a cantora de axé está bem de saúde – uma entre milhões de brasileiros anônimos.

Achei graça na estocagem desarvorada de papel higiênico. Além dos problemas respiratórios, será que o vírus causa também desarranjos em intestinos apavorados? Sugere ser um fenômeno mundial, como me contaram amigos residentes no exterior. Um catedrático de universidade inglesa até escreveu um artigo brilhante onde explica - sob o ponto de vista psicológico - a ligação entre o medo da doença e o excessivo abastecimento dos banheiros.

Ontem, passeando, deparei-me com um carro luxuoso – esses SUV’s imensos – tendo no banco da frente marido e mulher e, no traseiro, duas crianças dos seus 10 anos, todos usando máscaras e visivelmente consternados. Contaminados? Óbvio que não. A virose também traz a neurose e esta mutação mental é bem mais danosa que o bichinho coroado. É claro que devemos nos cuidar com atitudes básicas: ficar em casa, lavar as mãos, desinfetá-las, evitar aglomerações, etc. No entanto, o efeito colateral histérico só piora.

Na minha opinião de palpiteiro ocasional, a pandemia é sobretudo um teste que a vida está nos oferecendo. O que ela deseja nos dizer nas entrelinhas? De cara, faz-nos pensar sobre a impermanência de tudo, sobre a fragilidade de nossa existência, totalmente vulnerável apesar do dinheirão guardado no banco, da mansão cinematográfica cercada de dispositivos de segurança; de nossas promissoras carreiras milionárias e apego exagerado ao sucesso profissional.

A pandemia mexe com a onipotência de cada um, com a ilusão de que é possível ter controle sobre tudo – incluindo rota e destino final do agente chinês que passeia por aí. E revela o placar de nosso individualismo versus nossa solidariedade. Vamos dar as mãos – metaforicamente ou bem lavadas – aos nossos colegas, parentes e vizinhos passando pelo mesmo perrengue. Afinal, o que nos separa poderá servir para nos aproximar. 

Ficaremos em casa, é necessário e até interessante; lendo um livro, ouvindo música, curtindo filmes. Cedo ou tarde, a virose vai passar. Logo, paciência e fé caem bem. Melhor que chats virtuais, sugiro também meditar e bater papos silenciosos com nossas almas; rever conceitos, sonhos e planos referentes à nossa breve e intrigante passagem por este planeta. É uma chance única e preciosa. Aproveitem.

*Fernando Fabbrini é roteirista, cronista e escritor, com quatro livros publicados. Participa de coletâneas literárias no Brasil e na Itália



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