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24/03/2020 | domtotal.com

Quando a filosofia (ciborgue) é ainda mais fundamental

Talvez a única esperança de uma continuidade da nossa raça esteja surpreendentemente na filosofia

O futuro, a inteligência artificial e a tecnologia 'ciborgue' estão aí. Resta ao mundo uma reflexão séria, política e ética para 'controlarmos/administrarmos' esses avanços
O futuro, a inteligência artificial e a tecnologia 'ciborgue' estão aí. Resta ao mundo uma reflexão séria, política e ética para 'controlarmos/administrarmos' esses avanços (Pixabay)

Jacques Fux*

Os rápidos e incríveis avanços na tecnologia caminham para um ponto de virada único na história da humanidade. Em um futuro não muito distante (e, em muitos casos, esse futuro já chegou), confiaremos a economia, a segurança, o transporte, a educação, a medicina e até o bem-estar social às inteligências artificiais que, mesmo sendo criados por humanos, não serão “compreendidos” por eles. 

Talvez a única esperança de uma continuidade da nossa raça – como a entendemos hoje – esteja surpreendentemente na filosofia.

Yuval Noah Harari, autor de três best-sellers, e um dos gurus futuristas mais requisitados do mundo, alerta sobre os perigos do avanço descontrolado e hiperbólico da inteligência artificial e da bioengenharia: “Os dois processos juntos – a bioengenharia associada à ascensão da IA – poderiam resultar na divisão da humanidade em uma pequena classe de super-humanos e uma massiva subclasse de Homo sapiens inúteis. 

Para piorar ainda mais uma situação que já é nefasta, à medida que as massas perdem importância econômica e poder político, o Estado poderia perder pelo menos parte do incentivo para investir em sua saúde, sua educação e seu bem-estar social. É perigoso ser obsoleto. O futuro das massas dependerá então da boa vontade de uma pequena elite. Talvez haja boa vontade durante umas poucas décadas. Mas em tempos de crise — como uma catástrofe climática — seria muito tentador e fácil descartar as pessoas supérfluas”. De acordo com autor israelense, é urgente a necessidade da filosofia, ou seja, discutir e, sobretudo, regulamentar ética e politicamente os limites desses novos ciborgues.

Em 1960, os cientistas americanos, Manfred Clynes e Nathan Kline, “equiparam” um ratinho de laboratório com uma bomba osmótica. O novo animal híbrido, devido aos produtos presentes nessa membrana plasmática, teria a capacidade de sobreviver durante viagens ao espaço. O objetivo primordial – sonho bíblico, fantástico e literário – era o de criar um “sistema homem-máquina auto regulável”. Esse sistema recebeu o nome de Ciborgue (organismo cibernético). Porém, segundo filósofo e autor do livro, Thierry Hoquet, esse amálgama técnico-orgânico, criado com o intuito de aumentar a capacidade humana, já existiria desde os primórdios. Para ele, ferramentas como as criadas com pedra pelo Homo sapiens, utensílios para fazer comida, roupas de proteção durante o frio e óculos para melhorar a visão seriam extensões do “corpo cibernético” e, portanto, atributos do ciborgue.

Em Filosofia ciborgue: pensar contra os dualismos há inúmeros apontamentos, reflexões, dúvidas e estudos acerca dessa figura multivalente. Ciborgue pode ser o atleta que tem um melhor desempenho em virtude dos suplementos alimentares ou do uso do doping, pode ser a criança que veio ao mundo assistido por um geneticista, pode ser visto como os clones e a agricultura transgênica, ou mesmo a inteligência aumentada pelo computador e smartphones. Pensar o ciborgue é ainda refletir sobre as dicotomias fundamentais e as contradições insolúveis contemporâneas. É dialogar criticamente com pensadores/filósofos clássicos diante das categorias dialógicas da filosofia: natureza/artifício, humano/não humano, idealismo/materialismo, masculino/feminino. Muito mais que um estudo acadêmico, o livro nos conduz por um passeio em meio a diferentes e abundantes áreas do conhecimento: literatura, cinema, pintura, cultura pop, misticismo e os estudos de gêneros.

Hoquet resgata e expande um dos estudos mais importantes sobre a função social do ciborgue. Em 1985, Donna Haraway publicou o Manifesto ciborgue em que utiliza a imagem desse híbrido para falar das diversas transformações sociais, políticas e tecnológicas no Ocidente, além de fazer uma importante declaração feminista. De acordo com Haraway, essa criatura constituída pela fusão de máquina e organismo, habita a realidade e a ficção e, portanto, não é constituída por um corpo sólido bem definido; para a filósofa-bióloga, uma metáfora da nova política e da posição da mulher. “O ciborgue, personagem recorrente na ficção científica contemporânea, é utilizado como metáfora para a crítica da identidade em favor das diferenças e para reivindicar as possibilidades de uma apropriação politicamente responsável da ciência e da tecnologia”. 

Segundo a autora, esse “organismo cibernético, um híbrido de máquina e organismo, uma criatura de realidade social e também uma criatura de ficção. Realidade social significa relações sociais vividas, significa nossa construção política mais importante, significa uma ficção capaz de mudar o mundo” pode conduzir à uma igualdade de direitos entre os gêneros.

A pensadora argumenta: se sugerirmos que algo seja “natural”, inerente à condição humana, não seria, portanto, cabível mudanças e transformações no status quo: “Por gerações, foi dito às mulheres que elas são “naturalmente” fracas, submissas, extremamente emocionais e incapazes de pensamento abstrato. Que estava “em sua natureza” serem mães em vez de executivas, que elas preferiam entreter visitas em casa a estudar Física das Partículas. Se todas essas coisas são naturais significa que elas não podem ser mudadas. Fim da história”. 

Assim, a figura do ciborgue seria utilizada para escapar da dominação imposta e perpetuada/perpetrada pelo masculino. A criatura híbrida estaria desprendida de qualquer elemento gênero e imune à coerção do poder. Sonho? Utopia? Realidade? 

Nada escapa ao olhar e à reflexão do pensador francês. Os célebres filmes e as críticas filosóficas levantadas por Robocop, Matrix, Exterminador do futuro, Blade Runner e a polêmica com as pernas artificiais de fibra de carbono do corredor Oscar Pistorius, que almejou correr uma prova olímpica (e não mais paraolímpica). Até a nova configuração de família, amor, reprodução, união e sexo devido às novas “técnicas ligadas à reprodução, ou PMA, procriação medicalmente assistida: barrigas de aluguel, doação de esperma, fertilização in vitro, mas também com possibilidade de gravidez dos homens, fusão de embriões, gênese de gametas artificiais, clonagem” é mote filosófico para as reflexões do pensador.

O futuro, a inteligência artificial e a tecnologia “ciborgue” estão aí. Resta ao mundo uma reflexão séria, política e ética para “controlarmos/administrarmos” esses avanços. Ler Filosofia ciborgue é um início e um excelente alerta.

(Amazon)

FILOSOFIA CIBORGUE: PENSAR CONTRA OS DUALISMOS
De Thierry Hoquet
Perspectiva
376 páginas
R$74,90

*Jacques Fux é professor da Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE), matemático e escritor, autor de 'Meshugá: um romance sobre a loucura' (José Olympio, 2016), 'Nobel' (José Olympio, 2018), entre outros.



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