Cultura

25/03/2020 | domtotal.com

Morre quadrinista francês Albert Uderzo, criador de 'Asterix'

Ele faleceu aos 92 anos, vítima de um ataque cardíacos

Albert Uderzo ao lado dos personagens Obelix e Asterix, em 2015
Albert Uderzo ao lado dos personagens Obelix e Asterix, em 2015 (P. Kovarik/AFP)

O quadrinista francês Albert Uderzo morreu ontem (24), aos 92 anos, em sua residência, em Neuilly-sur-Seine, comuna às margens do Rio Sena, nos arredores de Paris. Mais conhecido por ter sido cocriador de Asterix e Obelix, o artista foi vítima de um ataque cardíaco sem qualquer relação com o coronavírus, segundo seu relato do genro Bernard de Choisy.

Ele se foi com a certeza de que Asterix e seus amigos gauleses, que ele criou em 1959 com René Goscinny, símbolo da cultura francesa conhecido internacionalmente, sobreviverão por um longo tempo. 

"Eu não sou reconhecido nas ruas. Os personagens podem se tornar mitos, mas nós não, seus pais", dizia Uderzo. Carregando o peso dos anos com equilíbrio e desapego, Albert Uderzo continuou sendo um homem pouco conhecido, de caráter reservado e comportamento tranquilo, preferindo falar sobre seu trabalho do que sobre si mesmo.

Grande entusiasta da Ferrari (quase 20 carros da marca passaram por sua garagem), filho de um casal de imigrantes italianos, morava em uma mansão em Neuilly-sur-Seine.

Era rico graças aos cerca de 370 milhões de quadrinhos vendidos em todo o mundo (traduzidos para 111 idiomas ou dialetos), 15 filmes (animação e cinema), um parque temático, videogames e produtos derivados às centenas.

A morte em 1977, aos 51 anos, do grande roteirista René Goscinny, durante um teste de estresse realizado para um exame de saúde, o afetou bastante. Juntos lançaram 24 álbuns. Graças a eles, os quadrinhos conquistaram o público em geral.

Uderzo então deixou a Dargaud, sua editora histórica, para fundar sua própria casa, as edições Albert-René, e assumiu sozinho a publicação das histórias de Asterix. "Não me fizeram nenhum presente. Sim, é claro, eu sofro de um complexo 'Goscinny', mas eles também o criam para mim", disse ele em referência à imprensa, que considerava suas histórias inferiores às da dupla, mas que, no entanto, fizeram sucesso com o público.

Como Hergé com Tintim, Uderzo não queria um novo Asterix após sua morte. Ele finalmente mudou de ideia. Em 2011, sofrendo de artrite reumatoide na mão direita, passou o bastão (em acordo com Anne Goscinny, detentora exclusiva dos direitos de seu pai) a autores mais jovens, enquanto acompanhava de perto o trabalho deles, mais uma vez coroado de sucesso.

"Minha mão não foi feita para este trabalho", dizia. "Olhe para as patacas que eu tenho! São mãos de açougueiro, tenho ossos grandes, como meu pai. Pintei todos os meus desenhos com pincel, o que exige muita habilidade. Prejudiquei minha mão trabalhando assim".

Obra

Nascido em 25 de abril de 1927 em Fismes, Albert nasceu com 12 dedos. A anomalia foi corrigida em uma operação. Seu pai era um luthier, profissão responsável pela produção artesanal de instrumentos musicais de corda com caixa de ressonância. A infância em Paris foi modesta, mas feliz.

O jovem, que era daltônico, descobriu o desenho na editora Société, onde publicou Les pieds nickelés (Pés niquelados, em tradução literal). Após a guerra, lançou heróis como Belloy, l'invulnérable (Belloy, o invulnerável), Flamberge, Clopinard ou Arys Buck.

Era um período complicado. "Viver dos quadrinhos era muito difícil na época, e eu tinha que desenhar uma quantidade astronômica para pagar as contas no final do mês".

Em 1951, conheceu Goscinny, o início de uma colaboração fraterna de 26 anos. Criaram Jeahn pistolet o corsário, depois Oumpah Pah pele vermelha.

Em 1959, em Bobigny, nos subúrbios de Paris, onde Uderzo vivia, entre cigarros e álcool, inventaram um novo universo todo em ix, com um bando de armoricanos obstinados. A ideia veio das estadias na Bretanha.

Asterix, o gaulês

Anti-arquétipo do gaulês viril, Astérix apareceu na primeira edição da revista Pilote, em outubro de 1959, na página 20. Nesse mesmo ano, Uderzo criou, com o roteirista Jean-Michel Charlier, Les aventures de Tanguy et Laverdure (As aventuras de Tanguy e Laverdure), um sucesso (foi o irmão mais novo de Albert, Marcel, que cuidou de parte das cores).

Em 1961, foi lançado Asterix, o gaulês, o primeiro álbum de uma longa série. Rapidamente, o desenhista com traços expressivos passou a se dedicar apenas às aventuras do gaulês de nariz grande e seus amigos, arquétipos dos franceses.

Os anos 1960 foram, na verdade, a era de ouro da parceria entre Uderzo e Goscinny, quando as tramas mais aclamadas pelos fãs de Asterix foram publicadas, como seu encontro com Cleópatra no Egito, suas aventuras na Bretanha e seus embates com Júlio César.

No Brasil, Asterix foi publicado pela editora Record, principalmente ao longo dos anos 1980, mas a maioria da saga permanece fora de catálogo. É possível encontrar alguns dos livros clássicos da dupla, como A Cizânia, Asterix entre os bretões, A odisseia de Asterix e Asterix e Cleópatra, em sebos e sites que vendem livros usados, como Estante Virtual e Amazon, por preços que variam, em média, de R$ 19 a R$ 59.

Conflito com a filha

Com seu afastamento e a posterior venda dos direitos dos personagens, o ilustrador chegou a passar por uma desgastante disputa judicial com a própria filha, a editora francesa Sylvie Uderzo, ao longo de vários anos. 

Em um artigo ferino publicado no jornal Le Monde, ela e seu marido, o escritor Bernard de Choisy, acusaram Albert Uderzo de "deixar os portões da vila gaulesa abertos para a invasão dos romanos", em uma referência a Asterix.

Em 2008, La zizanie (A zombaria), título do 15º álbum, resumiu o conflito entre Uderzo e sua única filha. Eles brigaram a respeito da aquisição pela Hachette Livre de 60% da editora Albert-René, da qual Sylvie é proprietária dos 40% restantes. Após sete anos de guerra aberta e processos legais, reconciliaram-se em 2014.

Poderia se dizer que, com a morte de Uderzo, os romanos finalmente venceram. Entretanto, com o enorme sucesso de seus personagens, que ainda hoje se espalham por dezenas de filmes, videogames, releituras literárias e sequências quadrinísticas, é seguro afirmar que os portões da vila gaulesa permanecem firmemente guardados - e assim ficarão por muito tempo.


AFP/Agência Estado/Dom Total



Comentários
Newsletter

Você quer receber notícias do domtotal em seu e-mail ou WhatsApp?

* Escolha qual editoria você deseja receber newsletter.

DomTotal é mantido pela EMGE - Escola de Engenharia e Dom Helder - Escola de Direito.

Engenharia Cívil, Ciência da Computação, Direito (Graduação, Mestrado e Doutorado).

Saiba mais!



Outras Notícias