Religião

27/03/2020 | domtotal.com

Quaresma em quarentena: tempos de provação

A Quaresma, a partir de suas próprias categorias, nos ensina a atravessar o 'deserto da quarentena'

O tempo quaresmal, com os exercícios da caridade, jejum e oração que lhe são caracterísicos, nos ajuda a enfrentarmos a quarentena.
O tempo quaresmal, com os exercícios da caridade, jejum e oração que lhe são caracterísicos, nos ajuda a enfrentarmos a quarentena. (Unsplash/ Joel Overbeck)

Daniel Reis*

Bem sabemos que a Quaresma evoca um tempo de provação, identificado na numerologia bíblica em episódios que associam provações ao tempo de 40, como a travessia no deserto pelo povo de Israel durante 40 anos (cf. Ex 16,35 e Nm 14,33); 40 dias e 40 noites em que Moisés jejuou na presença de Deus, no Sinai, enquanto escrevia os mandamentos nas tábuas (cf. Ex 34,28); os 40 dias em que Golias desafiou o exército de Israel até Davi sair para enfrentá-lo (cf. 1Sm 17,16); o prazo de 40 dias anunciado por Jonas para a conversão dos ninivitas (cf. Jn 3,4); os 40 dias em que Jesus foi tentado no deserto (cf. Mc 1,13; Mt e Lc 4, 2).

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Soma-se ao tempo da Quaresma deste ano - e a seu natural itinerário penitencial – um outro tempo de provação: a quarentena em razão do novo coronavírus (Covid-19). Trata-se de uma realidade global que nos desafia a lidarmos, como sociedade, humanidade e Igreja, com o prudente isolamento social que visa conter a disseminação exponencial do vírus.

Tal isolamento impacta diretamente no retiro quaresmal das comunidades eclesiais, que impossibilitadas de percorrerem o caminho litúrgico-sacramental deste tempo através das celebrações nas igrejas, podem ceder à tentação de abandonar a espiritualidade e as práticas quaresmais. Para que isso não aconteça, é preciso que haja uma mútua iluminação, mesmo em meio às trevas, lendo-se a Quaresma a partir da quarentena e a quarentena a partir da Quaresma.

A maior tentação que a quarentena pode exercer sobre nós, enquanto período de provação, é a de enfraquecer a nossa fé, nos induzindo a pensar erroneamente que este vírus partiu do desígnio de Deus, nos fazendo perder a esperança e ceder à nossa animalidade, mascarada no suposto "instinto de sobrevivência", que acaba por revelar um egoísmo e individualismo acentuados e nocivos, além de pecaminosos.

Nesse sentido, acompanhamos, com profunda tristeza, o esgotamento de alimentos e medicamentos nos supermercados e farmácias com finalidade de estocagem; elevação nos preços como tentativa de se lucrar com a situação; pronunciamentos absurdos e irresponsáveis de empresários ricos e líderes políticos, inclusive do chefe do Poder Executivo, com discursos demagógicos e perversos que denotam sacrifícios de vidas para um suposto salvamento da economia. Recordando nossa condição batismal de filhos e filhas de Deus, discípulos e discípulas de Jesus e n'Ele irmanados, é preciso vencer esta tentação inspirados e comandados pela lei da Palavra de Deus, que nos diz: “Escolhe, pois, a vida” (Dt 30,19).

A Quaresma, a partir de suas próprias categorias, nos ensina a atravessar o “deserto da quarentena” na esperança de vencermos este mal que gera a morte. Trata-se de percorrer a via-sacra e, carregando a nossa cruz, já contemplarmos o brilho da ressurreição que emana do sepulcro vazio. Pensando assim, a experiência que fazemos neste tempo de isolamento é também sepulcral, de sensato recolhimento, na certeza de que a pedra, porta do sepulcro, que nos protege da “ameaça exterminadora” (cf. Ex 12,13), foi ungida pelo sangue do verdadeiro Cordeiro imolado, Jesus Cristo, para que passemos (pessach - páscoa) desta situação de morte à vida nova que surgirá.

Com seus exercícios, o tempo quaresmal nos ajuda ainda a enfrentarmos a quarentena. Caridade, jejum e oração se apresentam urgentemente para serem praticados: a caridade com a sociedade, recolhendo-se em casa para evitar a proliferação viral, mas também o cuidado, de toda espécie, com os mais vulneráveis. O jejum, pedagógico para os dois tempos, enquanto exercício de autocontrole e de solidariedade, na contramão do mencionado armazenamento egoísta. Também é importante pensarmos, com profundidade e maturidade na fé, o profético “jejum sacramental” que, enquanto Igreja, experimentamos. Destaca-se o jejum da Eucaristia, onde impossibilitados de comungarmos do Corpo e Sangue do Senhor, somos provocados a nos recordar das tantas comunidades eclesiais no Brasil e no mundo, que difícil ou raramente têm acesso a este sacramento e aos demais, como é o caso da realidade pan-amazônica, sobre a qual a Igreja se debruçou nos últimos tempos, dedicando um sínodo para a reflexão da complexa situação.  Assim, também se faz desafiante o exercício da oração, pois sendo esta eminentemente comunitária, corre o risco de agora ficar confinada somente ao aspecto pessoal. No entanto, é preciso redescobrir e valorizar a celebração familiar, a liturgia doméstica da igreja-casa, o sacerdócio batismal, que também nos legitima e nos qualifica para o culto, onde intercedemos a Deus pela salvação integral de todos.

Vivamos a Quaresma e a quarentena, aproveitando tais tempos penitenciais para uma redescoberta do essencial, praticando a caridade, o jejum e a oração, a fim de que fortalecidos e animados pela Palavra de Deus, saiamos vitoriosos, a exemplo de Jesus, contra as insídias desses tempos de provação.

*Daniel Reis é leigo, graduando em Teologia e em Direito, pela PUC Minas. Cursou Especialização em Liturgia, pelo Centro de Liturgia Dom Clemente Isnard e Universidade Salesiana de São Paulo (UNISAL). Assessor da Comissão de Liturgia da Região Episcopal Nossa Senhora da Esperança, da Arquidiocese de Belo Horizonte. Membro e assessor do Secretariado Arquidiocesano de Liturgia (SAL). Membro do Regional Leste II para a Liturgia, da CNBB. Membro da Associação dos Liturgistas do Brasil (ASLI).



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