Religião

26/03/2020 | domtotal.com

História de que padre recusou respirador para mais jovem seria fake news

Equívocos à parte, amigo de Giuseppe Berardelli diz que o padre era uma 'pessoa muito especial'

O padre Giuseppe Berardelli, de 72 anos, morreu no hospital de Lovere, em Bergamo
O padre Giuseppe Berardelli, de 72 anos, morreu no hospital de Lovere, em Bergamo (Oratoria Casnigo)

Elise Ann Allen*
Crux

Um amigo de longa data do padre Giuseppe Berardelli, que morreu no norte da Itália por causa do coronavírus (Covid-19) no início deste mês, descreveu-o como um pastor atencioso e envolvido, além de desmascarar o que ele diz serem fake news sobre sua morte.

Nos últimos dias, a mídia italiana publicou histórias de destaque sobre Berardelli, 72 anos. Nelas se alegava que o sacerdote "doou" um ventilador respiratório, usado para tratar sua doença e sintomas do Covid-19. Supostamente o padre teria se recusado a aceitar o aparelho para que este pudesse ser usado no tratamento de alguém mais jovem.

Na realidade, disse Giuseppe Foresti, sacristão da paróquia de São João Batista de Casardigo em Bernelli, em Casnigo, a cerca de 24 quilômetros de Bérgamo, no norte da Itália, que o padre idoso simplesmente não podia tolerar o ventilador, em parte por causa das condições de saúde preexistentes, e se recusou a usá-lo.

Foresti enfatizou que isso não torna Berardelli um modelo de pessoa menos digno. "Posso dizer, certamente, que pe. Giuseppe era uma pessoa especial. Ele realmente se entregou a toda a comunidade", disse.

Os dois homens se conheciam há mais de 16 anos, quando Berardelli chegou à paróquia em 2006. "Ele era uma pessoa muito especial e um homem de grande virtude", disse Foresti, apontando que Berardelli não apenas construiu um grande oratório ligado à paróquia dedicado a São João Bosco e São João Paulo II, mas também foi pioneiro em vários outros projetos paroquiais e comunitários.

Após a morte de Berardelli, começaram os rumores de que ele havia se recusado a aceitar um ventilador respiratório que sua comunidade paroquial teria lhe comprado, insistindo que fosse entregue a alguém mais jovem. A história foi atribuída a um profissional de saúde na casa de repouso San Giuseppe em Casnigo.

Segundo Foresti, "a história sobre o respirador não é verdadeira". Embora Berardelli fosse uma pessoa e pastor destacado, a história é "uma notícia meio falsa". "O problema é que, quando chegou ao hospital, tentaram lhe colocar o respirador, mas ele recusou (pelas condições de saúde) porque não aguentava", disse, observando que o padre já estava em estado grave quando chegou.

Dois trabalhadores da casa de repouso em San Giuseppe disseram que não estavam familiarizados com os detalhes da hitória e só sabiam o que liam nos jornais. Um representante da enfermaria médica do hospital Capitanio e Gerosa, onde Berardelli morreu, disse que não era possível fornecer nenhuma informação devido às suas políticas de privacidade.

Foresti disse que os paroquianos de São João Batista estão "muito tristes, porque pe. Giuseppe era uma pessoa carismática e com muita fé". "Algumas outras pessoas têm morrido", disse, observando que na segunda-feira um leigo fortemente envolvido com a paróquia faleceu de ataque cardíaco, enquanto outros contraíram ou morreram pelo coronavírus.

Casnigo, disse Foresti, teve sorte em termos de mortes pelo Covid-19. Apesar de estar na região da Lombardia, na Itália, o epicentro do surto no país, e situado tão perto de Bergamo, que sofreu pesadas perdas, a comuna italiana até o dia 24/03 só tinha cerca de 11 mortes relacionadas ao vírus.

"Aqui, nossa situação é mais ou menos estável", disse ele, observando que o único grande problema que a cidade enfrenta é o período de espera por cremações, que no momento são de aproximadamente 15 dias.

Na vizinha Bergamo, os corpos dos mortos tiveram que ser levados para outras cidades em caminhões militares, porque há muitos esperando cremação e a lista de espera é longa demais. Em alguns casos, familiares de vítimas do vírus enfrentaram uma espera de três semanas apenas por um funeral particular no cemitério da cidade.

"Esperamos que os números caiam, confiamos em Deus", disse ele, observando que nos últimos dois dias o número de mortes por coronavírus na Itália diminuiu, então "Parece que haverá uma pequena queda".

A Itália tem o maior número de mortes pela pandemia no mundo. Na noite de segunda-feira, o Ministério da Saúde italiano informou que cerca de 5.476 pessoas morreram e mais de 59.000 deram positivo para o COVID-19 na Itália desde fevereiro.

Até o dia 24, estimava-se que 60 padres na Itália estiveram entre as vítimas e pelo menos dois bispos foram infectados, um dos quais se recuperou e o outro ainda está em tratamento.


Publicado originalmente por Crux

*Siga Elise Ann Allen no Twitter: @eliseannallen



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