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27/03/2020 | domtotal.com

Pobres bichos chineses

Qualquer discussão sobre a pandemia é superficial e inútil se desconsiderar as origens dos vírus de agora e do passado

Vendedores chineses de frutos do mar preparam peixe fresco em um wet market em Pequim, em 3 de julho de 2007
Vendedores chineses de frutos do mar preparam peixe fresco em um wet market em Pequim, em 3 de julho de 2007 (AFP/ Teh Eng Koon)

Fernando Fabbrini*

A culinária chinesa não perdoa bicho algum. Cães – com preferência para a raça chow-chow – são devorados diariamente como opção gourmet e ganharam até um festival de degustação. Além deles, os cardápios populares da China têm como ingredientes, por exemplo, jacarés, lagartos, morcegos (incluindo os hematófagos); serpentes, jabutis, ratos e outros roedores; larvas, escorpiões, baratas e vários insetos. 

A ciência tem certeza: o mercado de animais de Wuhan foi o foco primário do Covid-19, no final do ano passado. Esses mercados lotados da China, entupidos de animais e açougues a céu aberto foram, são e serão ambientes perfeitos para a eclosão de pandemias como a atual.  

Para entender melhor a questão, é necessário voltar um pouco ao passado. Mercados assim surgiram na China por volta de 1970 após a grande fome que matou milhões naquela época. Buscando uma saída, a ditadura comunista estabeleceu monopólios sobre a criação de galinhas, porcos e bois. As famílias do campo – donos de pequenos criatórios até então – foram prejudicadas e buscaram sobrevivência nos animais silvestres: coelhos, cobras, cágados, morcegos. Mais que consumi-los à mesa, também venderam os bichos nas cidades, sob a complacência do governo. Onde? Nos mercados sem controle, caóticos e insalubres de toda a China, como o de Wuhan.

Em 1988 o governo do país criou uma lei que classificava toda a vida selvagem como meros “recursos naturais”. A estranha decisão serviu de base (e de oportunidade para os burocratas do Partido Comunista) para abrirem estatais onde criavam e abatiam ursos, guaxinins, veados, gatos-do-mato, macacos, tudo. Foi nesse ponto que o ataque oficial à vida selvagem alcançou seu nível mais alto e preocupante.

Nos wet-markets chineses, como são conhecidas essas feiras, os animais permanecem famintos e engaiolados em condições chocantes; mamíferos junto a répteis; aves ao lado de sapos; nuvens de moscas em zumbido constante. Das gaiolas empilhadas a imundície escorre: urina, fezes, sangue e pus vão impregnando os bichos presos mais abaixo. Após a venda, a gosto do freguês, bichos podem ser mortos e eviscerados ali mesmo, sem nenhuma higiene.

Na China, a deterioração do mundo animal não se restringe às necessidades de alimentação de um bilhão e tanto de habitantes. Para piorar, existe lá também um lobby fortíssimo das velhas indústrias que utilizam partes de animais na produção de tônicos sexuais, bombas para músculos, afrodisíacos e panaceias – todos de eficiência duvidosa. Um desses bichos é o pangolim, cuja carne é disputada a preços altos. As escamas de seu corpo valem ouro na medicina antiga do país. Acontece que o pangolim está identificado pela ciência como o hospedeiro intermediário fundamental entre o morcego e os humanos no ciclo de transmissão do Covid-19.  

A riquíssima e poderosa ditadura chinesa controla a mídia e as redes sociais, além de “neutralizar” quem se atreva a tocar publicamente no assunto dos mercados imundos e acusá-la de responsável pelo Covid-19. E não só por este: em 1957-1958, ocorreu o H2N2; em 1968-1969, o H3N2; em 1997-2004, o H5N1; em 2003-2006, a gripe aviária (Sars); além dos surtos de peste suína de 2010 e 2013 – todos originários dos mesmos e conhecidos ambientes.

Nesse cenário, a diplomacia mundial e as relações comerciais enfrentam uma seríssima e delicada saia-justa. A opção vergonhosa é continuar mantendo vistas grossas para a bomba biológica que explode sistematicamente na China há tempos. Ou, então, afinados com a sustentabilidade, a ecologia e a saúde do planeta – tão em moda e com tantos ativistas hoje em dia – encostarão o governo comunista chinês na parede, exigindo uma solução definitiva para seus wet-markets anacrônicos. Negociação danada de difícil, já do outro lado da mesa está uma ditadura das mais antigas, fechadas e sanguinárias do mundo.



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