Religião

27/03/2020 | domtotal.com

O isolamento: dicotomia entre a fé e o capitalismo

O distanciamento social e, nos casos necessários, o isolamento completo, nos revela uma outra maneira de perceber o 'ser'

Pelos 'olhos da fé' somos chamados a enxergar o distanciamento como oportunidade de nos reconectar
Pelos 'olhos da fé' somos chamados a enxergar o distanciamento como oportunidade de nos reconectar (AFP)

Daniel Couto*

A população mundial está vivendo uma inédita experiência de distanciamento social para se prevenir da pandemia do coronavírus, e, em escala maior, para possibilitar que os sistemas de saúde acolham os que foram infectados. Se por um lado essa medida sanitária se faz necessária, por outro percebemos que a “mudança” no modo como vivemos e compreendemos o mundo revela dilemas existenciais que, na dinâmica capitalista, acabam “escondidos” em respostas superficiais. Esses conflitos entre “aquilo que realmente somos” e “aquilo que dizem que somos” passam a ocupar mais tempo em nossa reflexão, uma vez que ao nos distanciarmos do convívio social olhamos um pouco mais para “nós mesmos”.

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Essa nossa “percepção de nós mesmos” a partir das nossas relações, do nosso consumo, do lugar social que ocupamos e fomentamos, são um construto exterior – que faz parte do nosso “eu”, por suposto, mas que não nos determina enquanto tal – que apenas aponta uma das nuances da nossa identidade. Quanto mais livres pensamos ser para escolher este ou aquele caminho, mais nos distanciamos da reflexão de que toda escolha é condicionada por um sistema anterior. Esse condicionamento, do qual não é possível fugir, está ligado à cultura, às normas sociais, aos papéis que desempenhamos e, em um grau muito significativo, à economia capitalista. Nossas escolhas, que ditamos como autênticas, são necessidades produzidas pelo sistema que, tratando-nos como clientes, buscam criar uma insatisfação constante e uma resposta consumista a esses anseios.

Com uma demanda insaciável, vamos deixando de lado a reflexão sobre “quem somos” para mergulhar naquilo que “possuímos”. Diversos adereços passam a fazer parte da “definição do eu”, enquanto questões profundas são ignoradas. Afeto, fraternidade, comunidade, corporeidade, alteridade e outros “fundamentos da natureza humana” são sempre colocados “em relação” ao que temos. Não discutimos os nossos princípios, discutimos apenas os meios. Essa é uma forte arma para o sistema econômico capitalista, uma vez que ele nos oferece “diversos meios”, renovados constantemente, para satisfazer a nossa necessidade de “humanidade”.

Diante disso, quando somos colocados em distanciamento social a “lógica” entra em colapso. O tempo que é retirado de nós, pois o consumo precisa da imediatez, retorna. A sensação de vazio que toma conta das nossas cidades passa a ecoar em “vazios interiores”. Muitos dos privilegiados, que podem ficar em casa se protegendo da pandemia, passam a questionar sua própria existência, seu lugar, sua “maneira de estar no mundo”. Quando a experiência social muda, também é necessário que os sujeitos modifiquem sua maneira de existir. Em “isolamento” percebemos a importância da “aproximação”. Temos ferramentas tecnológicas que prometem criar “redes sociais” e que são exaltadas por nós – às vezes incentivados pelo capitalismo –, mas agora são reveladas aos nossos olhos como frias e puramente “virtuais”. Trabalhadores que, em casa, percebem a necessidade de “estar com os seus companheiros”. Professores que repensam a educação e enxergam como o ambiente da sala de aula é único. Multiplicam-se as soluções online, mas também se amplia a consciência de que nada substitui a interação presencial, corporal, física.

O capitalismo, pouco a pouco, introjetou em nossa sociedade um individualismo absoluto. A narrativa de que cada um é único, de existência singular e com liberdade para construir o seu caminho, fazer escolhas a partir das suas vontades e desejos e construir uma “identidade” sem levar em consideração o mundo ao seu redor é o “isolamento do cliente”. O produto é feito para você! Um consumidor que é universal na sua caracterização, mas um “individual”, atomizado, potencial “público-alvo”. Somos enganados a todo momento com uma sensação de “exclusividade” mas existe apenas a massa de consumidores. O isolamento social proporciona, também, o isolamento das massas. Em certa medida, estar em casa é estar mais próximo de “si mesmo”.

Em suma, se olharmos para o mundo contemporâneo, o capitalismo nos quer “imersos na sociedade”, consumindo, sem tempo para pensar na existência e alienados da nossa própria “condição de escravos”. O que nos é vendido como liberdade, e que nos soa como realização dos nossos desejos, é um condicionamento do querer para certos bens e serviços “personalizados”.

O distanciamento social e, nos casos necessários, o isolamento completo, nos revela uma outra maneira de perceber o “ser”. Esse modo de vida se encontra com o projeto evangélico de Jesus. Contrariamente ao isolamento do sujeito, temos a formação de comunidades onde as pessoas se conhecem mutuamente ao nível de partilhar tudo o que tem. É uma condição de existência onde o “eu” passa, necessariamente, pelo “outro” e se constrói na relação e não na negação. O isolamento social destes dias nos coloca diante de um espelho onde “contemplamos a nossa solidão”. Esse vazio só pode ser preenchido com a companhia dos nossos, comunidade que partilha o maior dos nossos dons: a humanidade.

Mais do que o pertencimento a um grupo religioso, o Reino proposto por Jesus está ancorado na humanidade. Esse é, também, um conceito universal sobre o qual só se pode falar a partir de indivíduos. A diferença está na consciência de que esses indivíduos não estão isolados, mas fazem parte de uma comunidade coesa. A partilha da humanidade é o que possibilita o afeto, a fraternidade, a solidariedade e todos os movimentos fundamentalmente humanos. Fé, amor, caridade e esperança, virtudes do cristianismo, são a encarnação dessa partilha humana e afloram, ainda mais, quando, por necessidade, precisamos ficar distantes. O distanciamento corporal momentâneo nos mostra que ser “membro de um mesmo corpo” é saber que “aquilo que afeta um dos membros” afeta “todo o corpo” e, por isso, responsabilidade com a sociedade é, acima de tudo, responsabilidade com o ser humano.

Pelos “olhos da fé” somos chamados a enxergar o distanciamento como oportunidade de nos reconectar com as primícias da nossa sociedade, o laço que nos une e nos congrega. Em uma única pessoa, o corpo/a carne de Jesus, a divindade enviou a mensagem do seu reino para que Ele, ser humano em completude, pudesse ser “o primeiro dentre os filhos” a subir aos céus. Enquanto o capitalismo quer o isolamento completo do indivíduo, na medida em que ele permanece no convívio coletivo, produzindo e consumindo, a fé busca a restauração da comunidade de partilha, mesmo que isolados em seus núcleos. É lucrativo um sujeito alheio aos outros, que consome bens e serviços para aplacar a sua solidão. Por isso, o capitalismo voraz é inimigo do Reino de Deus, generoso, fraterno, de partilha e conhecimento mútuo.

Um bom exemplo da “espiritualidade do isolamento” são os monges e monjas que, em sua clausura, estão conscientes de que, mesmo isolados, fazem parte de um corpo. Esse corpo não é apenas místico, mas concreto. São corpos, individuais, que constroem, na força da sua coletividade, uma teia social forte e reflexiva. Fugir das armadilhas do capitalismo é nos distanciar dos sussurros que “divinizam” o capital para recordar que a “divindade” reside na humanidade. A mística cristã, que se fundamenta no Mistério Pascal de Cristo, da encarnação da divindade em uma frágil criança até o seu padecimento e morte de cruz, é totalmente contraria ao isolamento do “eu”, valorizando, em todos os âmbitos o “nós”. A dicotomia se torna ainda mais clara nestes tempos de “perigo”, pois quando é preciso escolher entre o “capital” e as “vidas” para o cristão não existe dilema. As primeiras comunidades cristãs, em sua sabedoria, já estabeleciam: é nossa função amar e partilhar tudo que temos.

Em situação de pandemia, ou não, o capitalismo nos conduz ao individualismo. É esse individualismo que está em jogo e que precisa ser ressignificado nesse estado de emergência e reclusão. O “eu” é importante, claro, mas não de maneira atômica, pensando em si. O “eu” deve ser construído em relação com o “outro” e, no caso dos cristãos, esse outro é Cristo-Irmão. Não podemos nos fechar aos nossos interesses, pois a fé nos ensina que a mesa partilhada é o lugar da comunhão. Interesses escusos têm tomado conta da nossa sociedade. Tratar o “outro” como um número, um elemento da curva estatística, ignorando a sua “pessoalidade” e humanidade, é servir a si mesmo.

Em tempos de “quarentena”, a nossa espiritualidade deve se voltar para o sentido da nossa existência. Que ele seja preenchido com o amor, a compaixão e a ternura pelos nossos irmãos. Estando em casa, contemplamos a beleza e a dificuldade daqueles que amamos. Estando no mundo, contemplemos a maravilha da diversidade e a partilha da nossa condição de seres humanos. Na iminência da infeção viral do Covid-19 percebemos que ainda falta um antídoto para as nossas dores: a caridade, que tudo suporta e que tudo supera. É saindo da cápsula do individualismo nos encontraremos com as maravilhas da vida.

*Daniel Couto é doutorando em Filosofia



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