Religião

27/03/2020 | domtotal.com

Jesuítas saem em defesa da vida contra posicionamento do governo federal

Em nota, Rede de Promoção de Justiça Socioambiental dos Jesuítas propõe 5 medidas para o momento atual

Citando papa Francisco, os jesuítas afirmam que
Citando papa Francisco, os jesuítas afirmam que "o cuidado pela vida é também o melhor caminho para a economia" (Rovena Rosa/Agência Brasil)

Diante das tomadas de decisão e falas do governo brasileiro, a Rede de Promoção de Justiça Socioambiental dos Jesuítas do Brasil decidiu emitir nota pública expressando seu posicionamento em favor da vida, na tarde dessa quinta-feira (26). Citando papa Francisco, os jesuítas afirmam que "o cuidado pela vida é também o melhor caminho para a economia".

A nota expressa indignação pela minimização das mortes pelo Covid-19 como mal menor para salvaguarda econômica, como se extrai do discurso presidencial do dia 24 deste mês. "Não existe equivalência cabível entre a vida humana e a economia", diz o texto. Além, disso, a rede pede a adoção de cinco medidas práticas, como a revogação da Emenda Constitucional 95/2019 e a taxação sobre grandes fortunas e riquezas. Hoje, no Brasil, apenas 58 pessoas acumulam um total de 179,7 bilhões de dólares.

"Faz-se urgente dar um basta a esse desgoverno, para que a vida seja preservada e a economia possa ter uma perspectiva real, equilibrada e sustentável", diz a nota da rede, que conglomera instituições que trabalham pelo serviço da fé e promoção da justiça em todo o território nacional e faz parte da ordem religiosa Companhia de Jesus.

Emenda

A Emenda Constitucional 95/2019 visa prorrogar o prazo de vigência do regime especial de pagamento de precatórios previsto no art. 101 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias até 31 de dezembro de 2028. Além disso, ela excetua o pagamento de precatórios com recursos extraorçamentários de eventuais limites estabelecidos em lei.

Leia a nota na íntegra:

O CUIDADO PELA VIDA É O MELHOR CAMINHO PARA A ECONOMIA

Observando os acontecimentos recentes que impactam a sociedade brasileira manifestamos profunda preocupação de toda a Rede de Promoção da Justiça Socioambiental, da Província dos Jesuítas do Brasil, e clamamos por uma tomada de posição responsável e consciente neste momento histórico.

É inadmissível que a autoridade máxima do poder executivo coloque em risco iminente a vida de milhares de pessoas, através de posturas concebidas, absurdamente, à revelia das melhores orientações científicas e humanitárias do mundo no combate ao COVID-19. A sugestão do governo federal, referente ao isolamento vertical de idosos, desconsidera em absoluto a realidade dos aproximadamente 40 milhões de brasileiros e brasileiras que vivem na linha da pobreza e da extrema pobreza, e expõe toda a sociedade, assim como o próprio Sistema Único de Saúde, responsável pela cobertura de 80% de nossa população, a um eminente colapso, em prol da salvaguarda empresarial.

Ao contrário, neste momento, as estratégias de governo deveriam pautar pela defesa irrestrita do povo, em especial das populações mais vulneráveis. A ameaça é iminente e grave. A população brasileira não deve alinhar-se a um poder executivo que olha para a sociedade através de seu palanque eleitoral e sob perspectivas exclusivamente economicistas. Após a reforma trabalhista e da previdência deseja agora, de fato, empurrar a população em direção ao caos e a morte.

Faz-se urgente dar um basta a esse desgoverno, para que a vida seja preservada e a economia possa ter uma perspectiva real, equilibrada e sustentável. Não existe equivalência cabível entre a vida humana e a economia. A defesa da vida é valor máximo e supremo, se sobrepõe a qualquer outra esfera do tecido social e possui valor em si mesmo, constitui-se em seu próprio fim.  O cuidado pela vida é também o melhor caminho para a economia.

Pela Encíclica Laudato Si e pela Economia de Francisco e Clara, protagonizados pelo papa Francisco, denuncia-se um modelo de vida depredador onde somos, desde tenra idade, educados para o consumo voraz que promove a mercantilização do humano e da natureza.

 Para salvaguardar o bom e sadio sucesso econômico de nossa sociedade brasileira para o presente e o futuro, a defesa da vida deve ser a primeira e máxima prioridade. Para tanto, conclamamos as organizações da sociedade civil e a população em geral, assim como os poderes legislativo, executivo e judiciário à necessária e urgente ampliação do Estado Social, promovendo: i) a revogação imediata da Emenda Constitucional 95/2019; ii) a ampliação imediata das equipes de Saúde da Família e o fortalecimento, com recursos emergenciais, de pontos específicos e estratégicos do Sistema Único de Saúde; iii) a garantia de renda de um salário mínimo aos desempregados, de agora até o período de dois meses após o término da pandemia no Brasil; iv) o repasse imediato dos recursos para as 158.452 famílias que outrora tiveram o benefício do Bolsa Família cancelado pelo governo federal; v) assim como a taxação sobre as grandes fortunas e riquezas que, nas mãos de 58 pessoas, acumula um total de 179,7 bilhões de dólares, atualmente, no país.

É inequívoca a urgência de: 1) cuidado especial pela sobrevivência dos mais pobres; 2) dos povos indígenas e quilombolas; 3) dos idosos e idosas; 4) das pessoas em situação de rua; 5) das crianças e adolescentes; 6) e dos migrantes e refugiados.  

Entendemos que cabe ao Governo, de forma uníssona, liderar esta travessia tomando estas e outras medidas para a salvaguarda da vida e do bem-estar das pessoas, sempre, em primeiro lugar.

Brasília - DF, 26 de março de 2020.


Dom Total



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