Religião

27/03/2020 | domtotal.com

Como as principais religiões estão respondendo ao coronavírus?

Muitos dos fiéis do mundo alteraram práticas religiosas de longa data para evitar os contágios com o novo coronavírus

Monges budistas, usando máscaras protetoras devido ao surto de coronavírus, usam álcool em gel enquanto participam de uma cerimônia em Wat Suthat Thepwararam em Bangkok, Tailândia
Monges budistas, usando máscaras protetoras devido ao surto de coronavírus, usam álcool em gel enquanto participam de uma cerimônia em Wat Suthat Thepwararam em Bangkok, Tailândia (Chalinee Thirasupa/ Reuters)

CFR

As práticas religiosas de centenas de milhões de pessoas estão passando por profundas mudanças em resposta à pandemia do Covid-19 causada por um novo coronavírus. A crise levou muitos líderes religiosos a pedir para seus seguidores, não apenas para tomarem precauções de segurança, mas também para abraçarem sua espiritualidade e assim ajudar enfrentar os desafios de saúde, sociais e econômicos futuros.

Como a pandemia interrompeu as observâncias religiosas?

Em alguns casos, as reuniões religiosas provaram ser focos em meio ao surto do vírus. Metade dos casos da Coréia do Sul remonta a uma reunião da Igreja de Shincheonji de Jesus, uma denominação cristã. Na capital da Malásia, Kuala Lumpur, várias centenas de muçulmanos que compareceram a liturgia de uma mesquita contraíram o vírus. Em Washington, DC, um padre testou positivo para o vírus depois de realizar a comunhão em uma Igreja Episcopal com mais de quinhentos fiéis, todos eles pediram a auto quarentena por duas semanas.

Muitas autoridades religiosas estão fechando locais de culto ou limitando reuniões públicas. Em um gesto extraordinário em fevereiro, a Arábia Saudita proibiu a chegada de estrangeiros e interrompeu as visitas à Meca e a Medina para a umrah, uma peregrinação religiosa que os muçulmanos podem realizar em qualquer época do ano. Riad também fechou brevemente a Grande Mesquita de Meca e a Mesquita do Profeta em Medina para sua desinfecção. Muitas mesquitas cancelaram as atividades de sexta-feira e as chamadas para a oração, em países como Kuwait e Malásia, foram alteradas para pedir às pessoas que orem em casa. As celebrações do Ano Novo budista, que costumam reunir milhares de pessoas para rituais públicos na água e outros eventos foram canceladas no sul da Ásia.

Nem todo mundo abraçou as restrições. Apesar de um bloqueio na Itália, a Diocese de Roma recuou contra a ordem de fechar todas as igrejas depois que o papa Francisco alertou sobre a reação exagerada, embora centenas delas tenham fechado. No Irã, muçulmanos xiitas de linha dura invadiram santuários que foram fechados devido ao surto, enquanto na Índia milhares de hindus participaram das festividades de Holi – muitos deles usando máscaras cirúrgicas – apesar da sugestão do primeiro-ministro Narendra Modi de evitar reuniões públicas.

Expressões de fé em alguns ritos recebem maior cuidado sobre o contato próximo, como dar as mãos e compartilhar a comunhão nas igrejas cristãs e tocar ou beijar objetos religiosos nas sinagogas. Tais práticas estão agora sendo evitadas em muitos espaços religiosos. Ao mesmo tempo, algumas religiões adotaram soluções tecnológicas. A Igreja Católica Romana, por exemplo, começou a transmitir ao vivo a missa diária e a alocução dominical do papa e algumas paróquias estão oferecendo confissões em um espécie de drive-through. Uma transmissão ao vivo da missa na Catedral Nacional em Washington, DC, atraiu mais de 25 mil espectadores no início deste mês.

Que mensagens os líderes religiosos estão enviando?

Os líderes religiosos oferecem regularmente orações e palavras de apoio às suas comunidades; eles duplicaram essas mensagens nas últimas semanas para aliviar as preocupações com o vírus. O papa pediu aos fiéis que orassem por aqueles que trabalham nos serviços públicos e de saúde em Roma. O clérigo xiita do Iraque, aiatolá Ali al-Sistani, disse que a equipe médica é tão importante quanto aqueles que defendem suas fronteiras nacionais e incentivou os fiéis a orarem pelos cuidadores. A Conferência dos Rabinos Europeus aconselhou as sinagogas sobre como responder ao surto e instou as pessoas a não entrarem em pânico.

Muitos grupos religiosos continuam prestando serviços de caridade, incluindo a doação de equipamentos médicos a comunidades carentes, e os líderes manifestaram preocupação por grupos particularmente vulneráveis. Instituições de caridade católicas na Itália ainda servem alimentos e sopa para os pobres, embora com modificações para impedir a propagação do vírus, e organizações judaicas no estado da Califórnia estão coletando doações para famílias de baixa renda, refugiados e idosos isolados.

Como as próximas celebrações podem ser afetadas?

É possível que a peregrinação do Hajj deste ano, programada para 28 de julho a 2 de agosto, seja cancelada. Embora essa decisão decepcione os cerca de três milhões de muçulmanos que planejam fazer a viagem este ano, não é sem precedentes. O Hajj foi suspenso cerca de quarenta vezes desde a primeira peregrinação em 629 da era comum, incluindo suspensões por surtos e pragas de cólera. Na Santa Sé, celebrações da Semana Santa, como a missa do Domingo de Ramos e a procissão da Sexta-feira Santa, serão realizadas sem o público pela primeira vez na história moderna, embora possam ser transmitidas ao vivo como as missas diárias.

A Páscoa Judaica, a Semana Santa e o Ramadã, que ocorrem uma semana após a outra em abril, enfrentarão grandes perturbações devido às políticas de distanciamento social. Por exemplo, os peregrinos que desejam visitar os locais sagrados cristãos, judeus e islâmicos em Jerusalém devem estar preparados para passar pelas duas semanas de quarentena que Israel exige para qualquer pessoa que entre no país, pois provavelmente ainda haverá restrições de viagem. Durante o Ramadã, uma época em que os muçulmanos saudáveis jejuam, é provável que as refeições comunitárias iftar sejam canceladas.


Publicado originalmente por Concil on Foreign Relations


Tradução: Ramón Lara



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