Religião

29/03/2020 | domtotal.com

Cremos ser Jesus a ressurreição e a vida como ele diz?

Reflexão do Evangelho do 5º Domingo da Quaresma - João 11,1-45

Crente é quem sabe, com realismo e modéstia, enfrentar o fato da morte, mas que o faz desde uma confiança radical no Cristo ressuscitado
Crente é quem sabe, com realismo e modéstia, enfrentar o fato da morte, mas que o faz desde uma confiança radical no Cristo ressuscitado (Holger Link/ Unsplash)

José Antonio Pagola*
Religión Digital

Estamos demasiado presos pelo "presente" para nos preocuparmos com o "futuro". Submetidos a um ritmo de vida que nos atordoa e escraviza, oprimidos por uma informação asfixiante de notícias e acontecimentos diários, fascinados por mil atrativos que o desenvolvimento técnico coloca em nossas mãos, não parece que necessitemos de um horizonte mais amplo do que "esta vida", em que nos movemos.

Para que pensar em "outra vida"? Não é melhor gastar todas as nossas forças em organizar o melhor possível a nossa existência neste mundo? Não deveríamos esforçar-nos ao máximo em viver esta vida de agora e calarmo-nos a respeito de todo o resto? Não é melhor aceitar a vida com a sua escuridão e os seus enigmas, e deixar o "além" como um mistério do qual nada se sabe?

No entanto, o homem contemporâneo, como o de todas as épocas, sabe que, no fundo do seu ser, está sempre latente a pergunta mais séria e difícil de responder: o que acontecerá com todos e cada um de nós? Qualquer que seja a nossa ideologia ou a nossa fé, o verdadeiro problema que todos estamos enfrentando é o nosso futuro. Que fim nos espera?

Peter Berger recordou-nos com profundo realismo que "toda a sociedade humana é, em última instância, uma congregação de homens frente à morte". Por isso, é precisamente ante a morte que aparece com mais claridade "a verdade" da civilização contemporânea que, curiosamente, não sabe o que fazer com ela que não seja escondê-la e evitar ao máximo seu trágico desafio.

Mais honesta parece ser a posição de pessoas como Eduardo Chillida, que em algumas ocasiões se expressou nestes termos: "Da morte, a razão diz-me que é definitiva. Da razão, a razão diz-me que é limitada".

É aqui onde temos de situar a posição do crente, que sabe lidar com realismo e modéstia o ato inevitável da morte, mas que o faz com uma confiança radical no Cristo ressuscitado. Uma confiança que dificilmente pode ser entendida "desde fora" e que só pode ser vivida por quem escutou, alguma vez, no fundo do seu ser, as palavras de Jesus: "Eu sou a ressurreição e a vida". Acreditas nisto?


Publicado originalmente por Religión Digital e traduzido pelo IHU

*José Antonio Pagola é padre e tem dedicado a sua vida aos estudos bíblicos, nomeadamente à investigação sobre o Jesus histórico. Nascido em 1937, é licenciado em Teologia pela Universidade Gregoriana de Roma (1962), licenciado em Sagradas Escrituras pelo Instituto Bíblico de Roma (1965), e diplomado em Ciências Bíblicas pela École Biblique de Jerusalém (1966). Professor no seminário de San Sebastián (Espanha) e na Faculdade de Teologia do Norte de Espanha (sede de Vitória), foi também reitor do seminário diocesano de San Sebastián e vigário-geral da diocese de San Sebastián.



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