Religião

31/03/2020 | domtotal.com

Mensagem na benção Urbi et Orbi busca responder às questões do presente

Dos temas tratados na homilia anterior à bênção para Roma e para o mundo, destacam-se a fé, a unidade no amor e a esperança

Pontífice afirmou que é 'diante do sofrimento que se mede o verdadeiro desenvolvimento dos povos'
Pontífice afirmou que é 'diante do sofrimento que se mede o verdadeiro desenvolvimento dos povos' (Vatican Media)

Renato da Silva Machado*

Recentemente, no dia 27 de março, o papa Francisco realizou a tradicional benção Urbi et Orbi. Além do conteúdo de sua homilia, compreender qual foi a circunstância e quem eram os destinatários dessa prece pode nos ajudar a ampliar o significado do que fora realizado naquele fim de tarde, na Praça de São Pedro.

Em primeiro lugar, é importante tratar da ocasião da benção. Ela não é feita conforme o costume – na Páscoa ou no Natal – , mas na sua forma extraordinária, por motivo do coronavírus. Aqui já se transparece algo: a gravidade da situação mundial. O vírus não se trata de uma "gripezinha", mas de algo grave que afeta o mundo inteiro com uma rápida propagação e já tendo levado a morte mais de meio milhão de pessoas, conforma se constata através da Organização Mundial da Saúde (OMS). Cristãos, pessoas de boa vontade, autoridades políticas e religiosas não podem de forma alguma desconsiderar tal gravidade.

Em segundo lugar, faz-se mister ressaltar a quem se destina a benção: a cidade de Roma, da qual Francisco é bispo, e ao mundo inteiro, do qual ele é o pastor como vigário de Cristo. Tal mensagem e benção estende-se não apenas aos católicos, mas a todas as pessoas do mundo as quais o papa está também intimamente unido por seu múnus. Aqui mostra-se a preocupação da Igreja Católica com a vida das pessoas e com a situação mundial e o seu desejo em dar uma contribuição na sociedade humana, manifestando a solicitude de Deus para com o seu povo espalhado no mundo inteiro.

Em terceiro lugar, destacam-se os temas que propostos na homilia do papa a partir do texto de Mc 4, 35-41. E aqui aparecem três preponderantes: a fé, a unidade no amor, e a esperança. 

Partindo da contemplação da cena evangélica, o papa narra a situação de “noite” experimentada pelo mundo inteiro, este grande vazio que se percebe nas ruas e no coração de cada pessoa, da sensação de medo vivida por muitos...  Retoma as palavras dos apóstolos: “Mestre, não te importa que pereçamos” e apresenta que não há na cena uma falta de crença na pessoa de Jesus, pois os discípulos clamam o Senhor, mas um sentimento de abandono, de insegurança diante das dificuldades da vida, presente também na vida de quem tem fé.  Desta forma o papa convida a todos a sentir em todos os momentos a presença do Senhor, daquele que está no mesmo barco que seus discípulos e que solicita a si uma adesão completa e um “reajustamento da rota da vida”, uma conversão decidida a ele.

Trata também da unidade no amor a qual todos são conclamados a viver.  Acena que, em meio a escuridão, todos estão “mesmo barco” e que todos são “chamados a remar juntos” e encorajar-se mutuamente.  Tais palavras provocam a reflexão sobre a importância dos países em se unirem no combate ao vírus sob instrução daqueles que neste momento são as autoridades competentes para se alcançar a solução da crise – as autoridades sanitárias  que com sua formação são a linha de frente no combate ao vírus, especialmente a OMS.  Fala-se ainda da necessidade da superação da “avidez de lucro” e de se “permitir novas formas de hospitalidade, de fraternidade e de solidariedade”.  Enfatiza-se assim a centralidade da pessoa humana, que não pode ser sobreposta por fins de crescimento econômico, e se fomenta o espírito de unidade e de cooperação entre os povos.  Podemos acrescentar que tal pensamento do papa é verificável nas suas atitudes como a dispensa da obrigatoriedade da participação presencial dos fiéis às missas e, ao contrário, o convite a rezarem em suas casas para se evitar a propagação do contágio, como também na doação de 30 respiradores aos hospitais em áreas afetadas pelo Covid-19. 

Por fim, Francisco, ressalta a importância da esperança, a qual brota do evento pascal de Cristo e convida a voltar-se ao Cristo que no alto da Cruz  a cada pessoa salva, resgata, cura e abraça de forma intensa, para que nada e ninguém possa separar do seu amor redentor. Cristo, o Ressuscitado, está no barco dos homens e mulheres de hoje e vive ao seu lado.    

Percebe-se assim que, a bênção do papa convida cada um a perceber o problema que a todos envolve, a superar o medo e, a viver as virtudes da fé, do amor e da esperança na proximidade de Cristo Ressuscitado.

*Renato da Silva Machado é padre católico e doutor em teologia dogmática



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