Cultura Música

01/04/2020 | domtotal.com

Festival de Jazz na sala de casa

Feito para ser uma marca de referência no jazz em 1967, o Montreux abriu gradativamente as portas a outros gêneros assim que suas plateias começaram a crescer

Nina Simone se apresenta com maestria no Festival
Nina Simone se apresenta com maestria no Festival (AFP)

No ano em que a música parou, a música ao vivo, um jejum inédito que nem a Segunda Grande Guerra provocou, companhias seguem abrindo seus arquivos de forma gratuita. Agora, a empresa que se junta ao espírito do todos em casa é a marca Montreux Jazz Festival, que começou a lançar em DVD, nos anos 2000, lotes de apresentações que passaram pelo lendário festival fundado por Claude Nobs na Suíça. São 35 títulos, todos com nomes no topo do jazz, do blues, do rock e da música pop criada a partir dos Estados Unidos. Feito para ser uma marca de referência no jazz em 1967, o Montreux abriu gradativamente as portas a outros gêneros assim que suas plateias começaram a crescer.

Os interessados em assistir aos shows, todos muito bem gravados e mostrando artistas em momentos sublimes, nem sempre no topo, mas jamais em decadência, só precisam percorrer um caminho rápido, acessando a plataforma Stingray (para ir direto, basta entrar em stin gray.com/FREEMJF1M) e usar o código FREEMJF1M. São muitos shows para assinantes, mas busque por Montreux Jazz Festival na lupinha que o paraíso se abrirá. Marvin Gaye em 1980; James Brown no mesmo ano; Quincy Jones duas vezes, em 1996 e por ocasião de seus 75 anos celebrados com um especial, em 2008; Nina Simone no emblemático 1976; Etta James pré-cirurgia bariátrica, ainda com seus quase 200 quilos de potência vocal; Ray Charles em 1997; o bluesman Albert Collins, em 1992; Carlos Santana em 2004 e 2011; o grupo de rap Wu-Tang Clan, em 2008; Phil Collins duas vezes, em 2004 e com big band, em 1996, sem falar na participação que faz na comemoração de Quincy Jones cantando duas músicas. E a lista vai longe, com Johnny Cash, Patti Smith, Jethro Tull, Youssou N’dour, Alanis Morissette. Apesar de Nobs abrir uma noite brasileira em todas as edições, pelas quais passaram Elis Regina fazendo dueto histórico com Hermeto Pascoal em 1979 e vendo surgir a fake news de que o alagoano tentou derrubá-la entortando a harmonia das músicas até o limite do suportável, Gilberto Gil, Ivan Lins e até É o Tchan, em 1997, não há nenhum título do catálogo brasileiro liberado nesta leva.

Nina Simone foi ao palco do Montreux em um ano difícil para ela, 1976. Seu casamento estava em frangalhos e seus nervos massacrados por um transtorno de bipolaridade tardiamente diagnosticado. Nina estava perdendo tudo, amores, amigos e contratantes, mas Claude Nobs confiou que dali sairia uma grande apresentação, por mais imprevisível que poderia ser, e arriscou. Nina subiu ao palco e, logo em sua saudação, protagonizou uma cena que acabaria usada no filme Nina e no documentário What happened, Miss Simone?, ambos na Netflix. Ela se curva perante os aplausos e fica na mesma posição por um tempo longo demais. Se levanta, olha com aqueles olhos imensos e cheios de alguma raiva que só ela sabia qual, vai ao piano e começa a tocar Little blue girl com uma voz vacilante que ganha corpo com o tempo. Backlash blues fica sublime e I wish i knew mostra seu piano blues que ela equilibrava ao lado do ímpeto barroco, resquícios de quando queria se tornar a primeira concertista negra dos Estados Unidos, algo que uma reprovação de ingresso na Juilliard School não permitiu.

Ray Charles chega com tudo em 1997. Um sorriso enorme, um terno elegante e uma orquestra com grandes instrumentistas norte-americanos, liderada pelo saxofonista Al Jackson. Aos 67 anos, sua voz é firme, suas mãos ágeis e seu timing, preciso, apesar de toda a heroína consumida nos anos 60. Com o palco cheio, e direito às quatro mulheres que faziam backing batizadas desde sempre como The Raelettes, ele passa por I can’t stop loving you, Song for you, Busted, Mississippi mud. Ainda se emocionava como se houvesse acabado de compor Georgia on my mind e se tornava incendiário quando chamava suas garotas para fazer What’d I say, seu maior contra-ataque ao império do rock britânico nos anos 1960. Mais do que qualquer outra canção, até mesmo do que Hit the road Jack, que curiosamente não está no show, What’d I say foi seu sucesso mais estrondoso.

Quincy Jones é uma entidade, um dos primeiros a cruzar a música das partituras à das rádios. Os músicos o amam, o público também. Em sua primeira passagem, em 1996, estava como regente da própria obra, diante de uma orquestra com Steve Ferrone na bateria e Greg Phillinganes nos teclados. Patti Austin, uma de suas cantoras favoritas, canta Lost e Phil Collins, mesmo não sendo sua praia, Do nothing till your hear from me. No segundo título, o show é em comemoração aos seus 75 anos. Se só puder assistir a uma faixa, escolha Miss Celie’s blues, um dueto dos agudos cheios de corpo e volume de Chaka Khan com a elegância nunca descontrolada de Patti Austin. Apenas três minutos, e o seu dia estará a salvo.


Agência Estado



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