Religião

02/04/2020 | domtotal.com

Guerra contra coronavírus revela inimigo ignorado

A luta contra a Covid-19 deve ser acompanhada do combate a fome, guerra que se deve manter mais que a bélica

Cruz Vermelha de Uganda na operação de resposta ao Covid-19
Cruz Vermelha de Uganda na operação de resposta ao Covid-19 (UgandaRedCross)

Élio Gasda*

“Tudo parece tão ameaçador e sinistro, e sentimo-nos tão impotentes” (Etty Hillesum). Estamos vivendo uma guerra. Mas desta vez o inimigo é único, invisível e está por toda parte.  Quase todas as nações foram invadidas. Já são mais de 800 mil infectados e mais de 40 mil mortos pela Covid19, mas os números mudam da noite para o dia.

Ao contrário de outros tempos, governos se unem em cooperação no combate ao inimigo. Hospitais de campanha são construídos em estádios e centros de convenções. Novos suprimentos e equipamentos são adquiridos. Na linha de frente soldados foram substituídos por médicos, enfermeiros, maqueiros, psicólogos, nutricionistas, profissionais da faxina, bombeiros e policiais militares Pesquisadores incansáveis! Ninguém mede esforços para salvar vida. 

Sim, estamos em guerra! Uma guerra a favor da vida. Ironicamente, os governos sempre se preocuparam com a guerra armamentista. O gasto militar global em 2019 foi o maior da década: U$ 1,73 trilhão. Os Estados Unidos U$ 684, 6 bilhões. A China gastou 4 vezes menos, U$ 181 bilhões. A fatia americana equivale quase ao total dos 14 países do ranking (US$ 748,8 bilhões). O resto do mundo, cerca de 175 países, gasta US$ 298 bilhões (Instituto Internacional de Estudos Estratégicos - IISS).

O Brasil está em 11º lugar no ranking, com 27,5 bilhões de dólares, dólares! Por aqui, de acordo com o IISS, 80% deste valor é gasto com pessoal, incluindo aposentadorias e pensões. Sim, aquela famosa pensão para filhas de militares. Gastos que o governo não teve coragem, muito menos decência em cortar.

Estratégias em tempos de pandemia. Para proteger a economia e os empregos, governos anunciaram projetos emergenciais. Alguns bem robustos, outros nem tanto, mas o discurso é o mesmo: “estamos em guerra” e não se mede esforços em tempos de crise. Não há limites para gastos, "precisamos... atenuar os impactos econômicos”, disse o ministro da economia Paulo Guedes, “a preocupação é com saúde e emprego” completou. Nesse momento delicado o governo gastou cerca de 4 milhões em um “vídeo experimental”, uma campanha intitulada “O Brasil não pode parar” com veiculação proibida pela justiça.  A ideia do vídeo era que a população deixasse o confinamento e voltasse ao trabalho. A Organização Mundial de Saúde recomenda o afastamento social como único recurso, até o momento, no combate a covid19.

No contexto de estratégias, o governo, a mídia, os ricos e a classe média lembram que existem no país mais de 12 milhões de desempregados, mais de 4 milhões de pessoas em desalento, aquelas que desistiram de procurar emprego. A necropolítica aparece personificada no presidente da República. Cumprir ou não o isolamento? Mas só os descartáveis devem trabalhar para manter o processo capitalista, sistema que acumula e concentra riqueza. Para o sistema financeiro e empresarial as mortes são problema secundário.

Desempregados, os invisíveis, os descartáveis são na grande maioria moradores de aglomerados subnormais, nome técnico dado pelo IBGE para designar locais como favelas, ocupações e comunidades. Populações vivendo em locais precários, onde falta água, luz, esgoto, dignidade! Um relatório da ONU sobre os centros urbanos no mundo, divulgado em 2016, indicava que o número de moradores em favelas brasileiras seria de 55 milhões. A pobreza nunca permitiu a todos, aqui ou em qualquer outro lugar do mundo, acesso igualitário a saúde, educação, alimento e emprego digno.

Por que os pobres são lembrados agora? Hipocrisia. Eles sempre se aglomeraram. 5, 6 ou até mais pessoas dividindo minúsculos cômodos. A fome sempre esteve nas favelas. Dados do IBGE (2014) indicam que 22,6% dos lares brasileiros enfrentavam insegurança alimentar grave.  Certo que os números só cresceram. A preocupação é para que empregados domésticos, garis, jardineiros, eletricistas e tantos outros subempregados, que vivem em condições miseráveis não morram de Covid-19, para não deixarem na mão seus patrões, que apoiaram a reforma trabalhista e da Previdência, mas são contrários à reforma tributária. Descobriram que o trabalho humano move os mercados!

Suspender a quarentena não garante salvar a economia. Para o filósofo Byung-Chul Han “o vírus nos isola e nos individualiza...a solidariedade que consiste em guardar distâncias mútuas não é uma solidariedade que permite sonhar com uma sociedade diferente, mais pacífica, mais justa”. A lógica continua a mesma, explorar o planeta e as pessoas. Continuaremos vítimas do capitalismo selvagem, dessa “economia que mata”.

A pandemia evidencia a precariedade humana. É preciso acolher os mais vulneráveis, moradores de rua, refugiados, garantir a eles comida e saneamento, lembrou Tedros Adhamon, diretor geral da Organização Mundial da Saúde. Papa Francisco ressaltou: “seria triste se o oposto fosse escolhido, o que levaria à morte de muitas pessoas, algo como um genocídio viral”. Outras iniciativas são sempre possíveis.

Acolher pessoas, investir em qualidade de vida e dignidade deveria ser premissa dos governos. Por que não criar conectividade humana? Transformar cifras milionárias gastas com armamento em casa, trabalho e comida? Por que não lançar mão, de forma contínua, dos recursos extraordinários de proteção e assistência em apoio aos pobres? A fome é uma guerra diária e mata não só em tempos de pandemia. Nunca ficou tão claro a falta de vontade política no combate à desigualdade. A integridade de cada um depende de todos. “Daqui pra frente já não se pode continuar a viajar no comboio do ódio que humilha e mata” (frei Michael David).


*Élio Gasda é doutor em Teologia, professor e pesquisador na Faje. Autor de: Trabalho e capitalismo global: atualidade da Doutrina social da Igreja (Paulinas, 2001); Cristianismo e economia (Paulinas, 2016).



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