Brasil

06/04/2020 | domtotal.com

O dilúvio e seus derivados

Prometo ser um Noé à altura da confiança do Senhor Deus do Céu e da Terra

Coloco-me à disposição do Criador para ser um novo Noé
Coloco-me à disposição do Criador para ser um novo Noé (Unsplash/ Ashkan Forouzani)

Afonso Barroso*

Deus já castigou os homens de várias maneiras. Não acredita? Então leia a Bíblia. O dilúvio, por exemplo, foi um castigo tremendo que deixou toda a terra debaixo d'água, até o pico mais alto da mais alta montanha. A história é de todos conhecida, mas não custa reproduzir os termos solenes do Velho Testamento, que diz: "O Senhor viu que a perversidade do homem tinha aumentado na terra e que toda a inclinação dos pensamentos do seu coração era sempre e somente para o mal".

Era isso. Um castigo divino, levado ao extremo das intempéries. Ao constatar tanta iniquidade, tanta perversidade por parte do homem que havia criado com todo esmero, o Padre Eterno arrependeu-se da própria criação e decidiu exterminar a criatura, aquele povo ímpio, incorrigível, fazendo desaguar sobre ele um pandemar nunca dantes navegado. Mas, antes de abrir as comportas do Céu, o Senhor viu que havia na terra um homem merecedor de misericórdia. Era o bom e justo Noé, já avançado em idade, mas ainda forte e rijo, com o mesmo "histórico de atleta", do nosso presidente, a quem resolveu preservar junto com os três filhos e respectivas famílias. Incumbiu o eleito de construir uma arca gigantesca. Indicou até a madeira adequada e determinou as dimensões de 130 metros de comprimento por 22 de largura e 13,5 de altura, com três pavimentos. Noé obedeceu e, naturalmente, com a ajuda de Deus, construiu a enorme embarcação. E Deus fez com que se apresentassem voluntariamente a ele, para embarque, todos os outros animais que habitavam a terra, mas um casal de cada espécie. “Armazene todo tipo de alimento, ­para que você e esses seus novos amigos tenham mantimento nos dias que virão", recomendou. 

Uma vez todos devidamente abrigados, as águas desabaram violentamente, desencadeando um dilúvio que durou nada menos de quarenta dias e quarenta noites. Dentro da grande nave todos se comportaram com o devido respeito ao Senhor. Rezavam e oravam e oravam e rezavam, cada um na sua língua, até que as águas finalmente baixaram. E então, Noé, sua prole e seus bichos reiniciaram o processo de repovoar o mundo. Começar de novo, cantaram em dueto um rouxinol e um canarinho. 

Esse talvez tenha sido o momento mais dramático da História. Mas houve outros em que Deus mandou castigos terríveis sobre a humanidade ou parte dela, como as pragas do Egito e mais alguns menos graves. Um dia, pra ver se consertava as coisas, fez-se homem com o nome de Jesus Cristo, mas não adiantou: acabou sendo torturado, crucificado, morto e sepultado. Os homens continuavam os mesmos, maus como o diabo. 

Vieram outras pragas depois disso. As gripes asiática e espanhola, a malária, o sarampo, a tuberculose e outras. Uma das pragas apareceu sob a forma de um sujeito perverso até à medula, um alemão baixinho e feio de nome Hiltler, certamente até então o pior de todos os seres humanos, que desencadeou uma guerra insana e resolveu acabar com negros, judeus, homossexuais e todos de raças que considerava impuras, milhões e milhões pessoas. Foi um Deus nos acuda. 

Deus acudiu em parte. Deu nova chance aos homens, e agora, depois de muitos anos, viu que a humanidade continua com a mesma perversidade, as mesmas iniquidades, governantes malucos pelo mundo a fora. Vendo o mundo infestado de corruptos, milicianos e assassinos cruéis, estupradores e feminicidas, resolveu mandar não um dilúvio, mas uma praga chamada Covid-19, derivada de um tal coronavírus, um vírus mortífero. Castigo severíssimo, doença respiratória pandemoníaca e sem cura. Made in China, segundo os de sangue bolsonarista.

É bem possível que Deus, se resolveu mesmo acabar com a raça humana, escolha agora um Noé para preservar depois da catástrofe. Aqui entro eu. Modestamente, humildemente, mas confiantemente, coloco-me à disposição do Criador. Pela minha retidão de propósitos, por minha vida pregressa irrepreensível, minhas boas intenções, meu caráter ilibado, minha folha corrida sem rasuras, temente a Deus que sou, bom pai e avô, nem lulista nem bolsonarista, nunca extremista, tomo a liberdade de me candidatar. Prometo solenemente ser um Noé à altura dos desígnios divinos, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

Todos em coro: A-a-a-amém.


*Afonso Barroso é jornalista, redator publicitário e editor



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