Cultura

03/04/2020 | domtotal.com

Intervalo doloroso

Em tempos tão sombrios, precisamos mais do que nunca manter a sanidade em espaços de respiro e renovação

'Courage, Anxiety and Despair: watching the battle', de James Sant
'Courage, Anxiety and Despair: watching the battle', de James Sant (Wikimedia)

Eleonora Santa Rosa*

Dias de necessária introspecção, de ampliada reflexão em zona de quarentena estendida, de viagens e périplos interiores, preparando miradas futuras e tateando o território movediço do hoje, de instabilidades e fragilidades crescentes, de colapsos econômicos e sociais, de fundação de uma nova desordem mundial.

Quebra de padrões comportamentais, rachaduras no paredão do sistema, provocando o alastramento de medidas de isolamento e enclausuramento, de desmantelamento da cultura de consumo e extravagâncias autocentradas e excludentes, em forçosa temporada de despojamento, ascetismo, austeridade e frugalidade, indicando percursos outros.

Mudança obrigatória de rumo pessoal e coletivo, falência dos falaciosos discursos eivados de orgulho e patriotismo de pura demagogia, que não sobreviverão à nova geografia da pandemia em escala global, de cerramento de fronteiras, de injeção brutal de capital estatal, de trilhões governamentais injetados na tentativa de salvar a economia em frangalhos sob a tutela de espantalhos perplexos com a sua própria ignorância dos fatos, engolidos pela realidade dizimadora de milhares em jogos letais de cara-corona.

Débeis, incapazes, expostos ao nanismo de sua abominável necropolítica. Povos à mercê de desvarios cometidos por despreparados aparvalhados perniciosos, de baixa estatura moral, pessoal, indignos da história de seus países, condutores de curtos-circuitos autoritários de lavra egóica.

Desafiadora tarefa imposta a cada um de nós, prova de fôlego de sobrevivência individual e de renovação do desejo de viver em sociedades menos amesquinhadas e de poucos abastados, forçosamente convidados à partilha do mesmo ar contaminado, do mesmo sistema de saúde, da mesma necessidade de respiração salva pelo SUS, sobrevivente à obsoleta cartilha neoliberal de discriminação radical.

Perplexos estamos pela ação devastadora do vírus, pela sucessão de imagens e estatísticas dos sucumbidos nos quatro cantos do mundo, mais ainda desassossegados e pasmos estamos pela mais absoluta ausência de pudor e vergonha do mandatário de um governo que se dissolve a cada noite em meio a mentiras e humilhações em redes de contaminação nacional.

Em tempos tão sombrios, precisamos mais do que nunca manter a sanidade em espaços de respiro e renovação em companhia de gente do bem, que deixa legado de bem público por meio de obras de arte ao alcance de todos, e que tanto nos ajudam e suportam cotidianamente.


*Eleonora Santa Rosa é jornalista



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