Ciência e Tecnologia

07/04/2020 | domtotal.com

Ética no desenvolvimento rápido de uma vacina contra a Covid-19

Cientistas propõem caminho que poderia reduzir em muitos meses o tempo para se obter uma vacina

A urgência da situação criada pelo coronavírus e pelo Covid-19 exige caminhos criativos para uma resposta rápida e adequada
A urgência da situação criada pelo coronavírus e pelo Covid-19 exige caminhos criativos para uma resposta rápida e adequada (Unsplash/ National Cancer Institute)

Alexandre A. Martins*

Sabemos que a ação mais eficaz para vencermos a pandemia causada pelo coronavírus é o desenvolvimento de uma vacina contra a Covid-19. Centros de estudos em todo mundo estão trabalhando em pesquisas para desenvolver uma vacina. Contudo, o avanço dessas pesquisas não acompanha o avanço do coronavírus e as pessoas morrendo devido à Covid-19. No momento em que escrevo esse artigo, mais de 55 mil pessoas já tinham morrido em todo mundo e o número de infectados tinha passado a barreira de um milhão. Como diz um ditado popular, “precisamos [da vacina] para ontem”.

Novos desafios exigem respostas criativas, que muitas vezes precisam de métodos extraordinários, desde que sejam éticos. É por um caminho criativo e extraordinário que os pesquisadores estadunidenses – Nir Eyal, do Centro de Bioética em Nível Populacional e do Departamento de Filosofia de Universidade de Rutgers e Marc Lipsitch, do Centro das Dinâmicas das Doenças Infecciosas e do Departamento de Imunologia e Doenças Infecciosas da Universidade de Harvard – e o inglês – Peter G. Smith, do Grupo de Epidemiologia Tropical da Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres – estão se empenhando para o desenvolvimento rápido de uma vacina contra a Covid-19. A proposta deles foi publicada no prestigiado The journal of infectious diseases (Revista de doenças infectocontagiosas), em 31 de março passado. Eles argumentam que o avanço da Covid-19 e as vidas perdidas criam uma situação de urgência que necessita uma resposta rápida. Visto que uma vacina é a resposta mais eficaz, o processo de desenvolvimento de uma vacina para a Covid-19 precisa seguir um caminho mais rápido, considerando o atual contexto, mas sem minimizar exigências éticas. Assim, eles propõem um human challenge study (estudo do desafio humano, em tradução livre) que poderia reduzir em muitos meses o tempo para se obter uma vacina para o novo coronavírus.

O processo convencional para se chegar a uma vacina segue três fases e pode levar de 12 a 18 meses, ou até mais, para a vacina estar disponível no mercado para o uso em humanos. A primeira fase é de experimento em animais. Com resultados positivos, se avança para a segunda fase, um pequeno estudo com humanos, para adequar a dosagem e saber se ela vai produzir uma resposta imunológica positiva. Então, passa-se à terceira fase, a mais longa, na qual a vacina é testada em milhares de pessoas, divididas de forma aleatória em dois grupos: o de vacina e o de controle, que recebe placebo. Essas pessoas não precisam mudar nada em suas vidas e rotinas. Elas recebem a vacina ou o placebo e voltam para suas atividades e ambientes normais, onde estarão ou não expostas ao vírus, sendo que umas podem estar mais expostas que outras. Os pesquisadores monitoram os voluntários durante todo o período para averiguar se a vacina foi efetiva na prevenção da infecção.

Considerando a urgência da situação criada pelo coronavírus, o desenvolvimento de uma vacina de forma rápida pode prevenir a morte de milhares de pessoas. Assim, os doutores Eyal, Lispsitch e Smith propõem um human challenge study que diminuiria significativamente o tempo da terceira fase, fazendo obter em semanas o que levaria meses. A “novidade” é que o grupo de voluntários que receberia a vacina e o grupo de controle seriam expostos à infecção pelo coronavírus.  Em entrevista, Dr. Eyal, um bioeticista, observa que expor voluntários a um vírus letal parece antiético, mas com cuidados apropriados para desenvolver um processo  experimental seguro, o risco seria baixo e incluiria apenas voluntários que já vivem em áreas com grande risco de infeção pelo coronavírus. Assim, o risco de contaminação por aqueles que fazem parte da pesquisa não seria significativamente maior do que se estivessem fora do estudo, vivendo em áreas de risco.

Segundo os pesquisadores, alguns procedimentos e requerimentos precisam ser garantidos para manter o baixo risco e os padrões éticos exigidos:

  • Apenas pessoas com baixo risco de morte e de complicações severas devidas à Covid-19 podem participar do estudo;
  • Os voluntários devem ter entre 20 e 45 anos e possuir boa saúde, sem doenças crônicas ou histórico de alguma enfermidade que impactou o sistema imunológico;
  • Antes de passar à fase 3, a vacina precisa ser testada nas fases 1 e 2 para garantir segurança na dosagem e na resposta imunológica;
  • Voluntários saudáveis devem ser cuidadosamente monitorados durante o estudo;
  • Os voluntários devem ter acesso a tratamento intensivo e a qualquer medicação necessária de forma imediata, caso sejam infectados e adoeçam;
  • Todos os participantes precisam entender de forma clara os riscos e aceitar participar do estudo de forma livre e voluntária, por meio de consentimento livre e esclarecido.

Como tais voluntários devem vir de áreas com alto risco de infecção, eles poderão julgar por si mesmos se vale a pena participar do estudo. Os pesquisadores afirmam que, fazendo parte do estudo, terão maior chance de conseguir cuidados médicos melhores que não fazendo parte de nada e vivendo em áreas de risco. Para os pesquisadores, as motivações  dos voluntários podem variar como, por exemplo, contribuir para o bem da humanidade, dar testemunho de um nobre altruísmo, mas não podem ser por dinheiro (nos EUA, pesquisadores podem pagar para voluntários, algo que a legislação brasileira não permite).

O uso de human challenge study não é ordinário para o desenvolvimento de novas vacinas. Porém, utiliza-se esse método para vacinas que variam a cada ano, como é o caso da vacina da gripe. Ademais, obedecendo os requisitos éticos apresentados para minimizar os riscos e garantir a liberdade de pessoas bem informadas de decidir fazer ou não parte do estudo, o risco do human challenge study para o desenvolvimento rápido de uma vacina contra a Covid-19 é baixo, e o potencial benefício é grande.

A urgência da situação criada pelo coronavírus e pelo Covid-19 exige caminhos criativos para uma resposta rápida e adequada. Claro que a ética deve ser preservada em pesquisas envolvendo seres humanos. Nunca os fins podem justificar o uso meios destrutivos. Contudo, princípios éticos não são fórmulas matemáticas, distantes da realidade das pessoas e das situações complexas. O dinamismo da realidade exige a virtude do discernimento para estudar qual é a melhor forma de preservar princípios éticos em contextos novos, urgentes e desafiadores. Vivemos num desses contextos e inseridos nele, com a ajuda da ciência e do discernimento ético, que podemos encontrar caminhos criativos na busca de respostas contra essa pandemia.


*Alexandre A. Martins é doutor em bioética e ética teológica, e pós-doutor em democracia e direitos humanos, professor e pesquisador na Marquette University em Wiscosnin, EUA. Autor de 'Bioética, saúde e vulnerabilidade: em defesa da vida dos mais vulneráveis' (Paulus, 2011); 'The cry of the poor: liberation ethics and justice in health care' (Lexington Books, 2020)



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