Religião

07/04/2020 | domtotal.com

Igrejas domésticas em tempos de pandemia

Aos acostumados com o paradigma da igreja-matriz, a transposição para a Igreja doméstica é demasiadamente desafiadora

Cada grupo familiar é uma pequena célula do corpo de Cristo, a Igreja povo de Deus
Cada grupo familiar é uma pequena célula do corpo de Cristo, a Igreja povo de Deus (CDC/ Unsplash)

Tânia da Silva Mayer*

A quarentena a que estamos submetidos por causa da pandemia de Covid-19 tem nos proporcionado momentos até então extraordinários em nosso cotidiano. Conviver intensamente com nossas famílias é uma circunstância impraticável para quem possui uma rotina de trabalho e estudo. E esse convívio acaba sendo transferido para os finais de semana, se as muitas atividades de todos assim permitirem. No entanto, nos últimos dias, esta tem sido a realidade da maioria de nós: uma vivência comunitária familiar inevitável. Não se pode negar também que há bom número de pessoas que moram sozinhas. Para elas, esse momento também ocorre de maneira extraordinária, uma vez que já não podem sair para se encontrar com os amigos e nem os receber na própria casa. Como ensina o saudoso Belchior, “o tempo andou mexendo com a gente sim”.

E o tempo que estamos vivendo não tem mexido apenas com nossas relações com os outros. Diversos setores das sociedades estão aprendendo a conviver com o interdito dos corpos para que não saiam de casa. A situação não é diferente para as religiões. No catolicismo do mundo inteiro, a fé praticada em comunidade se encontra na fronteira sem poder cruzar a soleira das portas. Nunca antes foi tão necessário explorar a consciência de que as famílias constituem a Igreja doméstica. Mas como provocar essa consciência quando nos acostumamos com o paradigma da igreja-matriz, lugar físico da congregação da Igreja-povo para o louvor de Deus? Para quem foi iniciado nessa realidade eclesial, a transposição para a Igreja doméstica é demasiadamente desafiadora, porque deve ocorrer um movimento descendente, do macro para o micro.

E esse não é um movimento rápido, uma vez que a experiência macro constitui o primeiro acesso do fiel à fé comunitária. Posto isso, os desafios para manutenção dos elementos da igreja-matriz consomem o tempo até dos menos piedosos. Assistimos a verdadeira ocupação das redes e mídias sociais por parte de fiéis leigos e presbíteros. Todos imbuídos de fazer chegar às casas de paroquianos uma palavra para esse tempo de dificuldades. Cotidianamente, convivemos nas redes com anúncios de transmissões de missas, celebrações da palavra, rezas e orações, pregações e formações, etc., tudo ao alcance da Igreja-doméstica. No entanto, diante dessas práticas devemos nos perguntar se acaso elas ocorrem no intuito de formar a consciência para a Igreja doméstica – experiência mais apropriada para esse momento histórico? – ou se estamos transpondo o paradigma igreja-matriz para a modalidade virtual.

Uma situação diferente pode ocorrer para as pessoas que foram iniciadas na catequese das comunidades de base. Nesses espaços, dá-se ênfase às pequenas comunidades, às comunidades de ruas, às Igrejas domésticas. Cada grupo familiar é uma pequena célula do corpo de Cristo, a Igreja povo de Deus. Desse modo, o interdito que impede a reunião nos espaços físicos como as capelas impõe reflexões, mas não grandes dificuldades para que pessoas crentes possam se organizar para ouvir o evangelho e elevar preces e súplicas a Deus a partir do que temos vivido. E isso é possível porque foram iniciadas numa perspectiva que se movimenta do micro para o macro. Não convém deixar de mencionar a larga experiência das CEB’s, que ainda têm muito a nos provocar e a nos ensinar sobre a vivência eclesial do nosso tempo.

O intuito desse artigo não é confrontar os dois modelos destacados acima. Há outros que também poderiam ter sido tomados como exemplo. Os escolhemos porque reforçam uma situação histórica na vida da Igreja que exige práticas eclesiais cada vez mais imbuídas de uma teologia na esteira do Concílio Vaticano II. Há comunidades no Brasil e no mundo que recebem a visita de presbíteros ou bispos apenas uma vez por ano. Ainda assim, nutrem-se da Palavra de Deus e se reúnem periodicamente para fazer orações e celebrar a fé e a vida. Alguém poderia dizer a essas pessoas que não celebram o mistério pascal de Cristo? Não. Primeiro, por causa do seu sacerdócio comum e do batismo. Segundo, porque estão reunidas na fé comum da Igreja na qual foram e são continuamente iniciadas. E embora não acorram desejavelmente à eucaristia semanal, podemos dizer que também são Igrejas? A resposta é positiva.

Partindo dessa experiência histórica de milhares de comunidades, grupos e famílias, não deveríamos perder o sono com nossas capelas e templos fechados nesse momento e sem termos acesso à eucaristia dominical. Não por isso. Nossa preocupação não deve ser o impedimento de irmos à capela celebrar a Páscoa de Cristo, a vitória da vida sobre a morte, mas devemos nos preocupar uns com os outros, identificando o que mais podemos fazer para contribuir com nossa sociedade para que a vida de muitos seja preservada. Nesse sentido, nossa oração e partilha enquanto Igrejas domésticas, realizadas no horizonte maior da fé da Igreja povo de Deus, confrontam-nos com o mistério pascal de Cristo pelo que vimos acima. Partindo dessa perspectiva, tudo o que produzimos durante esse período deveria fomentar uma catequese que ajudasse a nos compreendermos como Igrejas domésticas, como sacerdotes e sacerdotisas por razão do batismo.

Se não despertamos essa consciência das Igrejas-domésticas, veremos aos poucos as transmissões perderem a adesão, e nada mais sólido haverá no lugar para fomentar a esperança por dias melhores. A fé será tomada como magia, a eucaristia como vacina e os símbolos como amuletos. Verdadeira catástrofe para o cristianismo que ensina que Deus é presença real entre aqueles que se reúnem em seu nome. Não tenhamos medo da dignidade que o batismo nos confere.


*Tânia da Silva Mayer é mestra e bacharela em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE); graduanda em Letras pela UFMG. Escreve às terças-feiras. E-mail: taniamayer.palavra@gmail.com.



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