Brasil Política

08/04/2020 | domtotal.com

Após pedir 'paz' para trabalhar, Mandetta é atacado por seguidores de Bolsonaro e olavistas

Sem conclusões científicas, bolsonaristas tentam emplacar a narrativa de que o ministro coloca vidas em risco por não editar um protocolo de hidroxicloroquina para tratamento

A estratégia da ala ideológica, neste momento, é desgastar a imagem do ministro.
A estratégia da ala ideológica, neste momento, é desgastar a imagem do ministro. (José Dias/PR)

Ao anunciar na segunda-feira, 6, que seguia como ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta (DEM-MS) pediu "paz" para trabalhar no enfrentamento ao coronavírus, mas ele não terá a tranquilidade que espera. Embora tenha conquistado uma parcela dos apoiadores do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), grupos considerados mais radicais e ligados ao guru Olavo de Carvalho intensificaram a ofensiva nas redes sociais contra ele. Na manhã desta terça, a claque que aguardava o presidente na saída do Alvorada entoou coro de "Fora Mandetta."

Durante a tarde, a hashtag #MandettaGenocida ficou entre as mais citadas do Twitter. Os bolsonaristas tentam emplacar a narrativa de que o ministro coloca vidas em risco por não editar um protocolo de hidroxicloroquina para tratamento do novo coronavírus no Brasil por meio de decreto. O uso do medicamento é um dos principais pontos de divergência entre Bolsonaro e Mandetta. O ministro alega falta de embasamento científico, enquanto o presidente é entusiasta do remédio, mesmo sem pesquisas conclusivas.

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A estratégia da ala ideológica, neste momento, é desgastar a imagem do ministro. Para olavistas, o momento não é de trégua, mas de manter acesa a chama da "fritura" do chefe da Saúde, que passou a ser considerado uma "ameaça política". Nos grupos de WhatsApp, Mandetta é acusado de estar a serviço da imprensa e da esquerda. Textos compartilhados por bolsonaristas também questionam a legitimidade do ministro para enfrentar a pandemia, por ele ser ortopedista pediátrico.

Casa Civil defende Mandetta


Escalado para coordenar as ações do governo sobre o coronavírus, o ministro da Casa Civil, Walter Braga Netto, é tratado em alas militares como "interventor" do Palácio do Planalto. Um dos generais que convenceram o presidente Jair Bolsonaro a não demitir o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, Braga Netto agiu nesta terça-feira para baixar a temperatura do atrito.

"A palavra união é a posição do governo", disse ele, em entrevista ao lado de Mandetta. "Vamos tocar esse barco chamado Brasil juntos", concordou o titular da Saúde.

Bolsonaro chegou a planejar demitir Mandetta na segunda, mas recuou diante de pressões de militares, do Congresso e até do Supremo Tribunal Federal. Isso sem contar o apoio obtido pelo ministro nas redes sociais.

Militares do governo avaliam que a dispensa de Mandetta, neste momento, fortaleceria governadores que travam uma queda de braço com Bolsonaro, como João Doria (São Paulo) e Wilson Witzel (Rio).

Nesse cenário, o chefe da Casa Civil assumiu a função de "gerente" do governo. "Braga Netto é o homem certo, no lugar certo, na hora certa", disse ao Estado o vice-presidente, Hamilton Mourão, alvo de críticas do vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ) e de seus seguidores nas redes sociais.

A ala ideológica do governo e o chamado "gabinete do ódio", comandado por Carlos, "filho 02" do presidente, desaprovam o poder concedido aos militares na equipe e, agora, na administração da crise. Braga Netto, no entanto, disse não se aborrecer com os ataques e continua dando ordens aos colegas, até mesmo em bilhetinhos que passa para ministros durante entrevistas no Planalto.

Diante de novo fogo amigo, coube ao general Mourão defender Braga Netto. "Ele não está enquadrando ninguém, apenas fazendo a verdadeira governança. Assim, a Casa Civil passa a atuar como um verdadeiro centro de governo", resumiu o vice. "Braga Netto está fazendo o que sabemos: colocar ordem na casa."

Na semana passada, circularam rumores de que o ministro da Casa Civil seria o nome escolhido por uma Junta Militar para assumir o comando do País, deixando Bolsonaro como uma espécie de "rainha da Inglaterra". A versão ganhou força nas redes sociais, a ponto de usuários alterarem o dicionário online colaborativo Wikipédia para apontar Braga Netto como o 39.º presidente do Brasil. A mudança, porém, foi desfeita assim que o site a identificou.

A tese da "conspiração" é alimentada por filhos do presidente, que têm Mourão entre seus alvos. Ao jornal O Estado de S.Paulo, porém, o ex-comandante do Exército Eduardo Villas Boas foi enfático: "Ninguém tutela Bolsonaro".

'Freio'

Ex-interventor na segurança pública do Rio em 2018, nomeado pelo então presidente Michel Temer, Braga Netto é conhecido pelo estilo "durão". Nos últimos dias, tem tratado de assuntos diversos: da crise com Mandetta a discussões econômicas.

Na Casa Civil há quase dois meses, o general ainda faz substituições na pasta, antes chefiada por Onyx Lorenzoni, hoje ministro da Cidadania. O núcleo militar do governo considera que por não ter aspiração política - ao contrário de Onyx -, Braga Netto vai impor rapidamente um "freio de arrumação" na equipe.




Agência Estado/Dom Total



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