Religião

09/04/2020 | domtotal.com

Fundamentalismo religioso: fator da escuridão social

A visão fundamentalista não pode estar acima do conhecimento científico que liberta, porque este nos revela a verdade

O perigo existe quando o homem assume um comportamento fundamentalista religioso incapaz de perceber as verdades que a ciência revela
O perigo existe quando o homem assume um comportamento fundamentalista religioso incapaz de perceber as verdades que a ciência revela (Ben White/ Unsplash)

Marcos Aurélio Tridade e Keller Reis Figueiredo*

A história da vida começou há 13,5 bilhões de anos com o universo, a sua matéria e energia. O planeta Terra existe há 4,5 bilhões de anos, o último ancestral em comum de humanos e chimpanzés existe há 6 milhões de anos e o Homo sapiens na África, do qual toda humanidade descende, há 200 mil anos. Os primeiros reinos, sistemas de escrita, dinheiro e inúmeras religiões com vários deuses (politeístas), onde o homem busca a deus surgiram há apenas 5 mil anos, todavia aparece há aproximadamente 3.800 anos uma religião com um único Deus (monoteísta), onde este Deus busca e se revela ao homem, dando origem ao Judaísmo e posteriormente ao Cristianismo.

A humanidade, quando se percebe como uma criatura que está de passagem neste mundo, passa a se fazer as seguintes perguntas: De onde viemos? Quem somos? Qual o sentido da nossa vida? Para onde vamos?.  Como a vida material não é capaz de dar todas as respostas, o homem busca mais respostas em algo que vai além da vida mundana e cria para si a religião que passa a revelar as questões que o ser humano não tem resposta. Como se o homem pudesse se ligar a algo superior a ele, que dá todo o sentido e fim a sua existência finita neste mundo.

Nós somos todos mortais, pessoas que, de alguma forma, passam a acreditar em alguma coisa, seja ateu ou não. E para significarmos a crença, a chamamos de fé, geralmente baseada em uma religião com suas especificidades ou um modo variável de expressão da fé no mundo em que vivemos. Olhando por estes aspectos, podemos entender que a fé traz luz à escuridão de nossa existência, contudo quando é vivida de forma fundamentalista, o homem passa a viver a escuridão na fé onde obscurece a forma racional de se perceber e enxergar o mundo, pois não entende daí uma fé que salva, daí fica claro que essa obscuridade leva o indivíduo a abraçar o fanatismo religioso, algo que promove um modo de ser, um comportamento radical incapaz de perceber as formas múltiplas da verdade. A ação de Deus no mundo se faz a partir da criação até a sua revelação ao homem, um ato de livre de amor do Criador pela sua criatura, onde não há limites para a sua forma de expressão e manifestação.

O maior exemplo da escuridão na fé sob fundamentalismo religioso (judaico-cristão) é a discussão que se faz se o mundo foi criado em sete dias ou se foi criado a partir da cronologia defendida pela ciência. Existem pessoas que não acreditam na ciência, apenas na religião, e defendem que o mundo foi criado em sete dias. Há pessoas que só têm fé na ciência e não acreditam na versão da religião sobre a criação do mundo e a intervenção de Deus. E por fim, existem pessoas que tentam conciliar a religião e a ciência, ou seja, têm fé nas duas opções. Esta última opção representa o equilíbrio entre a fé e a razão, onde é aceita a revelação da verdade por múltiplos caminhos, sejam a religião, a filosofia ou as ciências.

O avanço tecnológico do século 21 questiona fortemente a religião, movido pelas descobertas científicas, é o embate entre a ciência e a religião, a razão e a fé. Porém para termos razão temos que ter fé e para termos fé temos que ter razão. A ciência precisa andar lado a lado da religião, devemos ter fé na ciência, naquilo que a ciência é capaz de explicar, e devemos ter fé na religião, naquilo que a ciência não é capaz de decifrar. Essa compreensão fortalece a fé tanto na religião como na ciência, é uma forma equilibrada para caminhar neste mundo.

O perigo existe quando o homem assume um comportamento fundamentalista religioso incapaz de perceber as verdades que a ciência revela, pois estas contradizem textos religiosos. Este tipo de comportamento está presente em todos os momentos da história humana até a atualidade.

Existem fundamentalistas religiosos que negam e não aceitam a teoria da evolução humana e das espécies, mesmo que a ciência seja capaz de provar a veracidade desta teoria, através do achado dos fósseis de inúmeros animais que povoaram a terra ao longo da história. Percebe-se em geral uma ação alienada se intensificando no nosso modo de viver. Quantas vezes pessoas com esse comportamento são relatadas nos noticiários midiáticos? Vejamos alguns exemplos das ilusões ideológicas que não são comprometidas com o fundamento científico e de fato se aproximam do fundamentalismo religioso: “Gripezinha.”, “Menino veste azul e menina veste rosa.”, teoria da Terra plana, “Brasil acima de tudo e Deus acima de todos.”, “ É o momento de a Igreja dizer à nação a que viemos. É o momento de a Igreja governar.”, “Não existe essa historinha de Estado laico e sim Estado cristão!”, “A questão ambiental importa, só aos veganos que comem só vegetais.” entre tantas outras expressões que nos levam a entender que o fundamentalismo religioso não pode estar acima do conhecimento científico que liberta, porque este nos revela a verdade. Deve-se crer que a ciência foi feita para fundamentar a religião em um projeto ideal que nós buscamos viver, ou seja, o sumo bem. Na tradição cristã a ciência deve ser revelada aos cristãos como a possibilidade que Deus deu ao ser humano de por em prática seus dons e criatividade a serviço do próximo e da vida. De fato, é importante desenvolver ideias que evitem o fundamentalismo religioso e minimize o fator da escuridão social, libertando-nos da obscuridade, do pecado e da ignorância em que nascemos. A verdade, independente pelos meios que é revelada, é o caminho para termos uma vida mais plena.

*Marcos Aurélio Trindade é licenciado e bacharel em Filosofia pela FAPCOM - Faculdade Paulus de Tecnologia e Comunicação e Bacharel em psicologia pela PUC-MG, pesquisador de Bioética. E-mail: marcos.trindade2014@gmail.com. Keller Reis Figueiredo é Licenciado em Filosofia pela FAPCOM - Faculdade Paulus de Tecnologia e Comunicação, Professor de Filosofia da rede estadual de ensino - SP. E-mail: kellerreis.f@gmail.com.



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