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18/04/2020 | domtotal.com

A adversidade e o jeitinho

Depois de tantas humilhações e provações, era um sobrevivente nesta sociedade injusta

O atendimento é bom e os tira-gostos feitos por sua mulher são cheios de gordura e esmero
O atendimento é bom e os tira-gostos feitos por sua mulher são cheios de gordura e esmero

Pablo Pires Fernandes*

Por detrás do balcão, Adelson não evidenciava sua maestria. Mas, a vida toda, praticou-a com dedicação até se tornar natural. O bar poderia dar pistas: embora modesto, é limpo, o atendimento é bom e os tira-gostos feitos por sua mulher são cheios de gordura e esmero. Muitos poucos – é arte refinada – são capazes de notar. Adelson era o mestre do jeitinho.

A história do personagem é repleta de adversidades, das quais sempre se safou com habilidade criativa e invejável poder de convencimento. Do sertão miserável do Sergipe e apesar da afeição à mãe, Adelson saiu na primeira oportunidade e rumou para a capital. Fez de tudo um pouco no trabalho, incluindo amizade, dedicação e traição. Não ganhou dinheiro, porém, pode-se dizer, deixou a miséria pra trás.  

A disciplina com o ganho e a certeza de futuro promissor levaram Adelson e a mulher até Belo Horizonte – “Vou trazer mãe pra cidade”, matutava. Determinado, chegou com uns três nomes anotados num caderninho e, em poucos meses, sua agenda tinha muitos números e, sobretudo, contatos e possibilidades.

Através de amigos de outros amigos ou conhecidos, sua maestria abriu caminhos até uma oportunidade. Não foi de imediato como esperava, mas era um primeiro passo. Com a ajudinha de seus conhecidos, abriu o bar num ponto com movimento e até trouxe a mãe do sertão para morar em sua casa.

Depois de tantas humilhações e tantas provações ao longo de seus 28 anos de luta, era um sobrevivente nesta sociedade injusta. Não poderia deixar a chance passar, concluiu Adelson. Sua imaginação, condicionada a um dia de cada vez, correu para o futuro e vislumbrou casa própria, vestido novo para a patroa e até viagem pra Disney com o filho que desejava ter.

Diante da peste, porém, a maestria de nada serviu. Confiante de si e decidido a alcançar seu lugar na vida, Adelson se deixou levar por palavras e promessas. Rebelou. Em voz alta, pronunciou impropérios contra quem era do contra, negou argumentos e fatos e foi perdendo o juízo e a intuição.

O bar seguia aberto, ainda que as ruas, a cada dia, se tornassem mais vazias. Confinado da varanda do apartamento, Rodolfo, o vizinho outrora frequentador assíduo do estabelecimento, observava as reações de Adelson. Sentia pesar, pois compreendia a falta de compreensão da realidade daquele dono de bar sem caráter, mas de uma gentileza particular.

Dias depois, Rodolfo viu a porta de enrolar fechada. “Tomou juízo, finalmente”, pensou aliviado. O tempo passou até que as tragédias noticiadas por todas as telas luminosas se diluíram numa nebulosidade quase viscosa, uma atmosfera em que tudo era moroso e o real, febril.

Pelo grupo de Whatsapp dos velhos frequentadores, Rodolfo soube, então, do destino de Adelson. Tinha sido preso, duas noites na delegacia, onde foi diagnosticado com a peste. Passou uns dias internado e não resistiu. Desta vez não teve como dar um jeitinho.

*Pablo Pires Fernandes é jornalista. Trabalhou nas editorias de Cultura e Internacional nos jornais 'O Tempo' e 'Estado de Minas', onde foi editor do caderno Pensar. É diretor de redação do 'Dom Total'



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