Religião

28/04/2020 | domtotal.com

A força inquietante da Palavra

Teologia e catequese se não consideram a vida como elemento primordial na relação com Deus são insuficientes

Tomar a vida como chão e partir das situações concretas vividas pelas pessoas é uma atitude pedagógica que aprendemos observando o modo de ser e agir de Jesus Cristo
Tomar a vida como chão e partir das situações concretas vividas pelas pessoas é uma atitude pedagógica que aprendemos observando o modo de ser e agir de Jesus Cristo (Unsplash/ Priscilla Du Preez)

Tânia da Silva Mayer*

A Palavra de Deus tem uma força transformadora das realidades. Não sem razões, o profeta Isaías ensinou que essa palavra não sai e retorna para Deus sem produzir os efeitos a que se propõe (Is 55,11). Por essa razão, dizemos que ela tem uma força performativa, isto é, ela é capaz de operar mudanças, dar uma nova forma às coisas e realidades.

Precisamente, essa Palavra de Deus é diferente de qualquer outra linguagem humana. No entanto, ela só pode ser compreendida a partir dos signos de nossas línguas. Mas não é só isso. Essa palavra fala de Deus e fala também do ser humano, dos dilemas e enigmas que confrontam nossa existência. E isso só é possível porque a vida é lida à luz da relação que Deus tem para com cada homem e mulher.

Então, podemos dizer que a Palavra de Deus tem uma força catalisadora de experiências que acabam se projetando no horizonte das vivências cotidianas. Se nos debruçarmos, por exemplo, sobre os textos sálmicos veremos como homens e mulheres expressam radicalmente o que estão vivendo ou sentindo com relação a si mesmos, aos outros, ao mundo e a Deus. A vida é o chão no qual estamos enraizados e as situações da vida só podem ser lidas na ótica da relação com Deus.

Por isso mesmo, toda teologia e toda catequese se tornam insuficientes se não considerarem a vida como o elemento primordial na relação da pessoa com Deus. Ademais, elas acabam se tornando demasiadamente alienadas. Quando isso acontece, a Palavra de Deus já não encontra mais os sulcos para ecoar nos corações de modo a produzir neles os frutos que são queridos por Deus.

Como vimos, tomar a vida como chão e partir das situações concretas vividas pelas pessoas é uma atitude pedagógica que aprendemos observando o modo de ser e agir de Jesus Cristo. No último domingo nos debruçamos sobre o evangelho de Lucas, sobre a passagem no qual Jesus se aproxima de dois discípulos que voltavam de Jerusalém após a crucificação do Mestre de suas vidas. Essa proximidade, à primeira vista desinteressada, pretende transformar a tristeza e a desesperança em alegria e esperança.

Mas isso só é possível porque Jesus provocou os discípulos a fazerem memória da própria vida para si mesmos, a tomarem consciência das expectativas que carregavam e em como elas terminaram frustradas com a morte de Jesus. Só depois de acompanhá-los na recordação dos fatos, de ouvi-los com paciência, é que Jesus faz sua catequese. Catequese que sabemos que percorreu toda a Palavra de Deus e que fez arder o coração com a força que tudo transforma.

Oxalá, como nos ensina Jesus, não nos privemos de ouvir a vida, de ler os sinais de nosso tempo e de fazer ecoar a Palavra de Deus, cuja força inquietante reacenderá em nós a esperança por outro mundo possível.


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O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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