Religião

30/04/2020 | domtotal.com

Serviços essenciais, trabalhadores invisíveis e seus enterros noturnos

Há uma profunda crise econômica que se arrasta há anos e os trabalhadores estão pagando a conta

Os pobres são inseridos no mundo do trabalho para permanecerem pobres. Na foto, fila na Caixa Econômica Federal em Caruaru em 29 de abril
Os pobres são inseridos no mundo do trabalho para permanecerem pobres. Na foto, fila na Caixa Econômica Federal em Caruaru em 29 de abril Foto (Prefeitura de Caruaru)

Élio Gasda*

O coronavírus não ameaça a todos da mesma forma sob nenhum aspecto. A Covid-19 exacerba a realidade da desigualdade. As principais vítimas têm sido os trabalhadores pobres.  E daí?

Coveiros empilhando dezenas de caixões em covas abertas em cemitérios improvisados. Sem velório, “sem choro nem vela”. No dia do trabalhador, Primeiro de Maio, a cena se repetirá. Enterrar os mortos tornou-se um serviço essencial. Não temos o direito de permanecer calados diante de imagens tão impactantes, próprias de uma guerra. Há alguma luz no fim deste túnel?

“Esta tempestade desmascara nossa vulnerabilidade e deixa a descoberto as falsas e supérfluas seguranças com que construímos nossos programas, projetos e hábitos” (papa Francisco). Para sair deste túnel, a luz talvez seja voltarmos a agir como seres humanos. Sim, porque a menos de três meses o individualismo, o desperdício e o consumo nos definiam como pessoas e como sociedade.

Garis, caixas de supermercado, motoristas de ônibus, serviços de limpeza urbana, padeiros, repositores do sacolão, frentistas, caminhoneiros, porteiros, a turma da limpeza dos hospitais, professores, entregadores de aplicativos, vendedores, eram trabalhadores invisíveis. Da noite para o dia tudo mudou. Abertos e permitidos apenas serviços essenciais.

Mas o que é essencial? Descobrimos que existem trabalhadores que não podem parar. O que aconteceria se eles ficassem em casa? Os serviços essenciais revelam a importância dos setores mais precários do trabalho. Trabalhadores que mantem as posições estratégicas que fazem a sociedade funcionar. Como consequência, são as grandes vítimas.

Há uma profunda crise econômica que se arrasta há anos e os trabalhadores estão pagando a conta. Milhões de empregos já estavam ameaçados antes da pandemia. O trabalho precário e o arrocho salarial já eram uma realidade. Um vírus repentino acelerou as tendências. No Brasil, afundando na crise econômica que esmaga a renda de metade dos brasileiros, o quadro se agrava de forma substancial. Segundo o IBGE, dos atuais 12 milhões de desempregados, o número poderá saltar para 20 milhões. É a crise dentro da crise. Demissões em massa, explosão da precariedade e redução salarial de até 70%.

Os mortos se acumulam na periferia. A desigualdade é agravada quando a vida dos trabalhadores é desprezada. Para os pobres, os governos e o mercado apresentam a escolha entre morrer de fome, ou pela Covid-19. Milhões não tem outra opção senão trabalhar arriscando-se, enquanto outros enfrentam o desemprego e a fome. Humilhados pelos patrões, com baixos salários e jornadas extenuantes, estão na linha de frente do combate à pandemia e trabalhando em meio ao alastramento do vírus. Sem poupança e planos de saúde, sem renda que permita acessar aplicativos para trabalhar em home office. Seguem trabalhando correndo o risco de serem infectados e infectarem a família. Em lares apertados não existe o distanciamento social. Sem esses trabalhadores a sociedade que os despreza, entra em colapso.

Os pobres são inseridos no mundo do trabalho para permanecerem pobres. Muitos empresários aproveitam a crise para ensaiar novas formas de exploração destes que dependem de uma cesta básica e de 600 reais. O desprezo sobre a vida dos pobres se verifica nas carreatas de carros de luxo exigindo que trabalhadores sigam arriscando-se. Necroempresários, a vida não interessa. Importa o lucro. Especuladores! A pandemia trouxe à tona a insanidade e a canalhice mais desprezível de boa parte da elite brasileira. O que dizer do caráter aristocrático e oportunista de certos políticos que se dizem representantes dos pobres e trabalhadores? Continuam apostando num neorreformismo conciliador com esta elite parasitária.  

O trabalho é essencial a vida. Os cristãos devem lutar por trabalho decente e vida digna para todos. A competitividade por melhores cargos e salários continuará sendo incentivadas dentro das empresas? A meritocracia continuará legitimando a desigualdade? As mulheres continuarão ganhando menos que os homens? A comunidade LGBT continuará discriminada? Os desempregados seguirão submetidos e humilhados em empregos ruins? O mercado continuará explorando crianças?

É possível imaginar um mundo melhor após a pandemia? O tal “capitalismo consciente” existe?

Papa Francisco ensina que “ao redor do trabalho edifica-se o pacto social”. Porém, “quando a economia perde o contato com os rostos de pessoas reais torna-se uma economia sem rosto e, portanto, uma economia cruel. Para o papa, “o verdadeiro empresário conhece os seus trabalhadores, porque trabalha ao lado deles, trabalha com eles... se não tem experiência da dignidade do trabalho, não será um bom empresário”.

O que é o trabalho? Para Francisco o “trabalho é elemento fundamental para a dignidade da pessoa humana... significa trazer o pão para a casa ...  “é o primeiro patrimônio de uma sociedade”. Mas... “o trabalho precário é imoral...mata a dignidade, mata a saúde, mata a família, mata a sociedade”. Ou seja: transforma os trabalhadores em coveiros de si mesmos.

O cemitério de Manaus tornou-se uma representação da necropolítica. Enterros noturnos em valas comuns. Enterrar não é sepultar. Vidas matáveis perderam o direito até ao sepultamento com dignidade. Muitos destes desprezados de seu jus sepulchri são os mesmos condenados à vala da indiferença social em vida.

 Porém, quando nem as imagens deste extermínio em massa é capaz de chocar as consciências ou despertar compaixão, então a própria sociedade se tornou um gigantesco necrotério. E, assim vamos nos enterrando como nação: “E daí?” (presidente do Brasil).


Receba notícias do DomTotal em seu WhatsApp. Entre agora:
https://chat.whatsapp.com/IZ0DnZ5EcYe3hYzIcuFYBk

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



Comentários
Newsletter

Você quer receber notícias do domtotal em seu e-mail ou WhatsApp?

* Escolha qual editoria você deseja receber newsletter.

DomTotal é mantido pela EMGE - Escola de Engenharia e Dom Helder - Escola de Direito.

Engenharia Cívil, Ciência da Computação, Direito (Graduação, Mestrado e Doutorado).

Saiba mais!



Outros Artigos

Não há outras notícias com as tags relacionadas.