Religião

01/05/2020 | domtotal.com

Como viver o mês do Ramadan em tempo de isolamento social?

Mês sagrado dos muçulmanos é escola de paciência, desapego e retomada da conexão com Deus

Fieis realizam a oração de Isha, mantendo distância entre eles, próximo à Kaaba, na Grande Mesquita de Meca, o local mais sagrado do Islã em 27 de abril de 2020.
Fieis realizam a oração de Isha, mantendo distância entre eles, próximo à Kaaba, na Grande Mesquita de Meca, o local mais sagrado do Islã em 27 de abril de 2020. (STR / AFP)

Francirosy Campos Barbosa*

Do dia 23 para 241 de abril os muçulmanos entraram no mês do Ramadan, nono mês do calendário lunar,  no qual foi revelado o Alcorão, livro sagrado do Islam. O jejum do mês do Ramadan é o quarto pilar da prática no Islam, portanto, é uma obrigação religiosa. O profeta Muhammad (que a paz de Deus esteja com ele) dizia que este é o único ato inteiramente feito a Deus. Estar em estágio de obrigação a Deus é fundamental neste mês. No jejum os fiéis se abstêm de comida, bebida, sexo, cigarro, qualquer ato que quebre a adoração a ele – antes da alvorada ao pôr do sol – (oração do Magrib), além do jejum dos maus pensamentos, da falta de paciência, das discórdias, etc. O período do jejum tem que ser da reconciliação entre os grupos, famílias, pessoas. Este é o período que se aproveita para fazer um balanço de quão muçulmano se é – aquele que se entrega a Deus, que confia nele, que tem obediência. O jejum é um ato de obediência e adoração.

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Muitos muçulmanos se referem a este mês como sendo uma escola. Escola que ensina, sobretudo, a paciência, o desapego às coisas materiais, ensina a dividir comida, a sentir o mesmo que as pessoas que passam fome e sede, a retomar a conexão com Deus. Em minha tese de doutorado, Entre arabescos, luas e tâmaras..., ao escrever sobre o mês do Ramadan, atentei para o fato de suspensão de papéis sociais, como definiu o antropólogo Victor Turner, este momento liminar, de uma experiência extracotidiana transforma o fiel, ele sai renovado desta experiência. O abster-se de algo deixa o fiel em contato com o sagrado, transformando-o cotidianamente durante este mês, por isso, o Ramadan é o mês de suspensão de papéis, uma reavaliação do ser muçulmano, do seu iman (fé), das suas práticas (ibadah).

Se, por um lado, tem-se a abstinência alimentar, de outro temos a fartura nas comidas das quebras de jejum, chamada de iftar, que acontecem em mesquitas ou nas casas com presença de outros familiares e amigos. Há famílias que se organizam para esse mês, agendando com antecedência os jantares (iftar) que vão oferecer em suas residências. Há grupos que marcam para quebrar o jejum na mesquita e ficam juntos durante a refeição e as orações. Em geral também mudam de mesquita para encontrar outros irmãos e irmãs. Há uma circulação grande nas mesquitas, e casas nesse período. É recomendável convidar outros irmãos para quebrar jejum em casa ou pagar seu jantar em algum lugar.

Os que não podem jejuar por algum problema saúde, alimentam a um necessitado durante o mês. Oferecer um iftar é uma dádiva e alegria para os donos da casa. A caridade é praticada o mês todo (sadaqa). Outro momento de encontro é a reza em congregação, por exemplo, rezar o Tarawih (oração realizada por sunitas como mais uma forma de adoração) após a última oração da noite (salat Isha). Na madrugada acordam para o sohur que consiste em uma alimentação leve, como ingestão de água, antes da primeira oração do dia – fajr. Nas últimas dez noites do mês muitos muçulmanos permanecem nas mesquitas em adoração a Deus. Nas noites ímpares as mesquitas estão lotadas, porque em uma delas foi revelado o Alcorão e os muçulmanos acreditam que tudo que se pede na Noite do Decreto/Destino (Qadr) Deus atenderá, é uma noite que vale mais que mil noites.

Entretanto, este ano o Ramadan está atípico. A crise sanitária provocada pelo novo coronavírus desencadeou desconforto, incertezas e indagações em alguns muçulmanos. Como será o Ramadan? Como o profeta Muhammad (SAAS) agiria nessas condições que nos impõe o Covid-19? Há uma hadice do profeta que diz: "Se você ouvir um surto de uma epidemia em uma terra, não entre nela; mas se a epidemia surgir em um lugar enquanto estiver nela, não deixe esse lugar". Esta fala tem sido usada pelos sheiks e divulgadores/as do Islam como uma forma de respeitar e seguir as prescrições da OMS (Organização Mundial de Saúde) que é ficar em casa. Outro hadice que complementa este: "Aqueles com doenças contagiosas devem ser mentidos afastados daqueles que são saudáveis".

Mas as perguntas sobre o Iftar, o tarawih, os encontros familiares, de amigos-irmãos, tudo isso, como está sendo realizado? Os iftar estão sendo feitos com as pessoas com que se divide a casa, seus núcleos familiares ou sozinhos, como vivem boa parte dos muçulmanos revertidos ao Islam. Esses me contam que sabem o que é passar um Ramadan sem iftar coletivo ou sem mesquita, porque em suas respectivas cidades não existem muçulmanos e, portanto, não há mesquitas. Talvez, para esses muçulmanos o confinamento não alterou sua rotina religiosa; entretanto, para quem se habituou à convivência em mesquita tem sido mais difícil aceitar a não convivência em comunidade.

Um hadice (dito do profeta SAAS) diz que: “Se Deus quer fazer o bem a alguma pessoa, a aflige com tribulações.” O entendimento é que diante de uma adversidade se aprende muito, se reconfigura suas atitudes, práticas, formas de sentir e pensar. De formas diversas a comunidade islâmica no Brasil tem vivido este momento. A maioria compreendeu a gravidade do momento e procura seguir à risca todas as determinações.

Há muitos médicos/as, enfermeiros/as, e pessoas da área de Saúde que são muçulmanos/as. Eles compõem a linha de frente, que é trabalhar em hospitais, no combate a pandemia e alguns já adquiriram Covid-19. Outros são como o líder comunitário como César Kaab que, incansável na busca de ajuda a sua comunidade, depois de se recuperar (apresentou sintomas do vírus, embora não testado, como a maioria da população da periferia), voltou ao seu trabalho de doação de cestas básicas e orientação as milhares de pessoas em torno da mesquita Sumayyah bint khayyat – Embu das Artes.

Há o trabalho incansável do Instituto 5 Pilares, que tem arrecado contribuições para compra de cestas básicas e as entregado em diversas comunidades islâmicas e a pessoas carentes em São Paulo. Louvável tem sido também o trabalho da refugiada síria Razan Suliman, que sabe o que é viver sem condições básicas. Neste Ramadan, ela tem feito marmitas para moradores de rua, colocando muito da sua renda mensal neste trabalho e pedindo contribuições para continuar nesta tarefa. Em Curitiba, sheik Rodrigo Rodrigues e sua comunidade ajudaram com distribuição de cestas a comunidades carentes.

A comunidade islâmica xiita também tem se dedicado na ajuda às comunidades carentes. Tem sido recorrente a presença do sheik Rodrigo Jalloul, ajudando o padre Julio Lancelloti na distribuição de comida e produtos de higiene às pessoas necessitadas. Sheik Houssein Khalilo fez visita a hospitais cumprimentando pessoas que trabalham na área de saúde e levando sua palavra de conforto espiritual. O Centro Islâmico do Brasil também tem feito seu trabalho de distribuição de cestas, divulgação da religião e o papel social de orientar os muçulmanos com os cuidados higiênicos que devem ter, assim como vídeos do sheik Taleb Al-Khazraji, falando sobre o mês do jejum.

Importante ressaltar que a limpeza é parte da fé do muçulmano. Não se reza sem ter feito ablução – lavar mãos, rosto, antebraço, pés – isso nas cinco orações diárias. Na casa de muçulmanos também é usual não entrar de sapatos. Os muçulmanos procuram ter suas casas limpas, porque rezam sobre os tapetes, e este espaço deve ser o ambiente mais limpo de suas casas, assim como os tapetes que usam.

Esta é uma pequena parcela de instituições e pessoas muçulmanas que vem ajudando a mudar a realidade de pessoas neste tempo de Covid-19 somado à crise sanitária e econômica. Todos estão tomando as devidas precauções, mas eles sabem que quem tem fome não espera, é preciso ajudar aqueles que pouco têm em suas casas, principalmente agora que muitas pessoas perderam seus empregos e os que têm empregos temporários também não estão podendo exercitar suas funções como antes, além de toda a pressão psicológica vivenciada em momento de desamparo.

Outras estratégias têm sido usadas pelos sheiks: falas diárias em suas redes sociais. Muitas Lives estão sendo transmitidas com pessoas da comunidade e de fora dela, como tem feito sheik Jihad Hassan Hammadeh, que de alguma forma transforma o cotidiano confinado de muitos muçulmanos. Sheik Rodrigo Rodrigues tem se dedicado a produzir vídeos explicando palavras repetidas pelos muçulmanos com frequência, ensinamentos sobre o mês do Ramadan. Neste sentido, a presença desses sheiks nas redes tem se intensificado e contribuído para orientar muçulmanos/as.

Instituições como a Wamy (Assembleia Mundial da Juventude Islâmica) e a Fambras (Federação das Associações dos Muçulmanos do Brasil) têm proporcionado material religioso e social em suas redes. A Wamy intensificou seu trabalho de dawa no Instagram no qual é possível ouvir palestras curtas do sheiks Ali Abdouni e sheik Ahmed Mazloum. A Fambras adotou o modelo seguido por algumas pessoas da comunidade e fora dela que é a produção de Lives, um bom exemplo deste modelo foi realizado pela muçulmana Fabiola Oliveira #ALiveéDelas que entrevistou mulheres muçulmanas durante um mês antes da entrada do Ramadan, formando assim um público que se acostumou a este tipo de divulgação. A presença de Lives femininas também tem sido visto com mais frequência, e isso corrobora com uma maior participação feminina também dentro da comunidade muçulmana – há divulgação desde maquiagem, roupa, jejum, dieta, hijab, comida, religião e cursos acadêmicos como o que tenho realizado as terças e quintas às 20h pelo Instagram, comemorando os 10 anos do lançamento do livro Olhares femininos sobre o Islã.

Venho acompanhando também o relato de mães muçulmanas, que têm neste período de quarentena se dedicado mais a educação dos filhos e a ensiná-los sobre o Ramadan e a religião. Há mães muçulmanas que estão trabalhando de forma remota, o que sobrecarrega a rotina da casa, nem sempre podem contar com a participação dos maridos, porque ou são divorciadas, ou os maridos estão trabalhando fora de casa. Entretanto, embora o cansaço das rotinas misturadas, muitas me apontam que têm sentido prazer em auxiliar seus filhos nas lições de casa, porque assim conseguem identificar suas dificuldades, o que no cotidiano de mães que trabalham fora, geralmente, não é possível, além de aproximar os filhos da religião.

Nesse período que antecedeu o início do Ramadan, vi algumas mães decorando suas casas com os filhos, como uma forma lúdica de inseri-los neste cotidiano especial, ocupando o tempo de crianças nesses preparativos e agora também ajudando na preparação do Iftar.  

A salat jummah, oração obrigatória aos homens, e o Tarawih têm sido transmitidos pela Mesquita Brasil tendo a frente o sheik Muhamad Bukai que, após a oração, faz um encontro com outros sheiks para refletir sobre este mês tão importante aos muçulmanos. Na última oração, o sheik usava máscara o que é recomendável a todos que frequentam espaços fora de suas residências. Seguindo as recomendações da OMS e do governo do Estado, o sheik Bukai dá exemplo a sua comunidade, mas, sobretudo, as recomendações do profeta Muhammad (SAAS) que encorajava a busca de aprendizado religioso, mas sempre se recomendava a necessidade de adotar medidas de precaução básica para estabilidade, segurança e bem-estar de todos os fiéis. Muçulmanos devem se comprometer com a saúde e o bem estar de todas as pessoas, mesmo que essas não sejam muçulmanas. Por isso, muitos vêm seguindo as prescrições que são antes de tudo religiosas.

Ramadan Kareen (Generoso), Mubarak (abençoado) a todos os muçulmanos no Brasil!

Nota:

1) Como o calendário é lunar há entendimentos diferentes do primeiro dia, por isso, há grupos como os xiitas que entraram no mês do Ramadan de 24 para 25 de abril, assim como países como a África do Sul e outros.


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*Francirosy Campos Barbosa é antropóloga, docente Associada ao Departamento de Psicologia da FFCLRP/USP, pós-doutora pela Universidade de Oxford, coordenadora do GRACIAS – Grupo de Antropologia em Contextos Islâmicos e Árabes



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