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04/05/2020 | domtotal.com

Uma montanha de cronistas

Crônica, tal como a conhecemos aqui no Brasil, é uma invenção original e muito nossa

Machado de Assis está nos primórdios das crônicas no Brasil
Machado de Assis está nos primórdios das crônicas no Brasil (Harlingue / Roger-Viollet via AFP)

Ricardo Soares*

Por motivos de ordem profissional me vi imerso por esses dias numa montanha de cronistas brasileiros de todos os matizes, épocas e estilos. Eita trabalho prazeroso esse que me permitiu navegar desde os primórdios do gênero no Brasil com o nosso Machado de Assis passando por Humberto de Campos, Afrânio Peixoto mais João do Rio, Benjamim Costallat e todo aquele elenco estelar que saiu de Minas e foi para o Rio onde brilharam Paulo Mendes Campos, Fernando Sabino, Otto Lara Resende mais o capixaba Rubem Braga que reinventou o gênero. Isso sem falar de Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Clarice Lispector e Antonio Maria. Enfim uma escalação mais que secular de excelência, criatividade, diversidade e talento que me faz ter a certeza, mais do que nunca, de que se não somos a melhor literatura do mundo temos sim os melhores cronistas.

A prova inconteste de que os cronistas são do gosto do leitor médio brasileiro é esse próprio e diversificado DOM TOTAL que mantém aqui seu elenco próprio com autores de estilos diferentes e aparentemente com seu público cativo. Muitos teóricos dizem inclusive que a crônica, tal como a conhecemos aqui no Brasil, é uma invenção original e muito nossa. Uma mistura de conto ligeiro, narrativa de usos e costumes, lembranças e memórias temperadas com a brisa do mar, a carne seca dos interiores, os elevadores das grandes cidades, as adversidades de ricos e de pobres.

Eu, assim como muitos dos que vivem das palavras, me apaixonei pela escrita primeiro por força e obra de Monteiro Lobato. Depois por conta dos cronistas brasileiros muitos aqui já citados e outros injustamente datados como o fantástico Lourenço Diaféria, o esquecido Leon Eliachar, o craque Carlos Heitor Cony, o faz- tudo Millôr Fernandes, o multifacetado e bem humorado Luís Fernando Veríssimo sem falar de Ignácio de Loyola Brandão, Moacyr Scliar e Sérgio Porto e o impagável Stanislaw Ponte Preta, inventor do “Febeapá”, Festival de Besteiras que Assola o país, que hoje em dia estaria fazendo o maior sucesso tal a quantidade de besteiras sobre as quais ele dissertaria na era do pior de todos os presidentes da história do Brasil. Ao contrário desse presidente minúsculo, nossos cronistas de todos os tempos são maiúsculos. Escalar essa montanha de autores excepcionais é, sem dúvida, uma excelente travessia nesse tempo de pandemia com o perdão da rima barata que nenhum deles jamais cometeria.

*Ricardo Soares é diretor de tv, roteirista, escritor e jornalista. Publicou 8 livros, dirigiu 12 documentários.



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