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05/05/2020 | domtotal.com

Todos os Domingos

Domingos Oliveira foi um homem que se dedicou a investigar (e viver) o afeto

Série 'Todas as Mulheres do Mundo' tem ares de legado da obra de Domingos Oliveria
Série 'Todas as Mulheres do Mundo' tem ares de legado da obra de Domingos Oliveria (Divulgação)

Alexis Parrot*

"A paixão é a única moeda cósmica que nós temos à nossa disposição." Palavras assim só poderiam sair da mente de um homem que não admitia para si nada menos que o arrebatamento.

Mais que minissérie, Todas as mulheres do mundo é uma meta-série. Usando argumento e título do primeiro filme de Domingos Oliveira como base, o roteiro costura vários de seus textos, enxertando situações, frases e personagens de toda sua obra em uma única e coesa timeline. O programa parte do primeiro Domingos para abarcar todos os Domingos. 

Essa amarração (uma concepção do próprio autor e da pupila-amiga Maria Ribeiro), e porque executada hábil e carinhosamente pelo veterano Jorge Furtado com Janaína Fischer, revela a tremenda coerência de Domingos Oliveira consigo mesmo e com o que produziu durante toda a vida.

Com a morte do autor no ano passado, o projeto acabou atingindo alturas bem maiores do que as pretendidas originalmente. O que deveria ter sido celebratório, acabou assumindo ares de legado. Como nos chega como carta-testamento (ainda que involuntária), só nos resta bater palmas e gritar do sofá da sala, como de hábito nas galerias dos teatros quando um texto memorável é interpretado: – O autor! O autor!

O aplauso é grandiloquente, como era sua verve, mas não a matéria-prima de que era feita sua dramaturgia. Da janela do Leblon de onde observava o mundo, Domingos ocupou-se de jogar luz naquilo que verdadeiramente nos move, por mais banal e corriqueiro que pareça à primeira vista. Por suas mãos, tudo que é essencialmente humano – amores, separações, ciúmes, amizade e encontros, por exemplo – ganhou o proscênio apenas para que pudéssemos rir de nós mesmos.

Fiel à cartilha de seu criador, o marco fundamental desta Todas as mulheres do mundo é a paixão fulminante do arquiteto carioca Paulo pela bailarina Maria Alice (Sophie Charlotte, encantadora), assim que ela entra em seu apartamento em uma festa de Natal. Para resumir a trama, sem muitos spoilers, os dois se apaixonam, acabam se perdendo e, ferida, ela decide passar uma temporada em Berlim.

Ele se recusa a abrir mão daquele amor, mas como apaixonar-se é o que faz de melhor, é assim que vai seguindo a vida. Para cada novo envolvimento, novo episódio, intitulado com o nome do amor da vez.

Uma contextualização contemporânea do texto era necessária, e a tarefa foi cumprida pelo duo de roteiristas. As redes sociais, o celular e a tecnologia foram bem incorporados dramaturgicamente à história original, além de várias novas questões concernentes ao eterno embate dos relacionamentos amorosos. 

Homens e mulheres se movimentam de maneira bem diferente, se compararmos nossos dias à sociedade de 50 anos atrás. Mesmo que por vezes Paulo possa soar mais machista ou ingênuo do que deveria, a verdade do personagem não se corrompe – e os defeitos dele continuam sendo os de todos os homens, em maior ou menor grau.

Emilio Dantas (que já nos havia dado Beto Falcão) brilha mais que um segundo sol ao encarnar o protagonista. Nunca foi segredo que o personagem é um alter ego de Domingos Oliveira, mas é a doçura da interpretação de Paulo José no filme de 67 a referência principal de Dantas para sua versão.

Como apenas um alter ego seria insuficiente para cobrir toda a trajetória do autor, a série produz um outro. Com o nome emprestado do personagem principal do filme Separações, Cabral é uma espécie de mentor e contraponto de Paulo. Matheus Nachtergaele rouba a cena vivendo esta representação saborosa do Domingos maduro, mimetizando trejeitos do próprio, além de sua maneira apressada de falar, comendo sílabas e embolando uma ou outra palavra aqui e ali.

Juntamente com a amiga inseparável Laura (Martha Nowill, também impecável e sempre divertida), formam um dos trios mais memoráveis já vistos em nossa televisão. Há que se louvar a preparação do elenco, sob a responsabilidade de Cris Moura, sensível diretora teatral. A interação dos três atores é tão crível e orgânica que parecem mesmo amigos de anos – a intimidade tangível em cada cena ou situação.

A música é o quarto protagonista da série, com uma voz potente dando o tom para cada episódio-romance. Mas, se você se irritar com o excesso de vezes em que Marisa Monte é convocada para servir de fundo aos encontros de Paulo e Maria Alice no primeiro episódio, não se desespere. Nos próximos, o problema é equalizado, e nomes como Alcione, Bethania, Elis, Cassia Eller e Elza Soares surgem em doses mais bem medidas.

Já a direção, embora competente, encontrou seu maior mérito na decisão de seguir o roteiro e deixar livre o caminho dos atores (como um bom mestre-sala, cuja grande responsabilidade é evoluir de maneira que irradie ainda mais a força de sua porta-bandeira). Com história e texto tão dominguianos, teria sido bonito ver a sua estética marcando uma maior presença.

Ainda que uma coisinha ou outra tenha sido usada (principalmente nos episódios iniciais), perdeu-se uma boa chance de usar o visual e a linguagem para homenagear um autor que gostava de homenagear seus ídolos. É verdade que citava Godard e Truffaut a três por quatro nos primeiros filmes, mas foi esta paixão que conseguiu definitivamente botar a nouvelle vague para tomar sol nas areias da praia de Copacabana.

Arte e fotografia seguem os trilhos da direção e se concentram na tarefa de mostrar o Rio de Janeiro sem mostrá-lo exatamente, construindo uma zona sul genérica (Copacabana como epicentro) e um subúrbio idílico (Marechal Hermes). Tudo é tão bonito e limpinho como deveria ser, ou, pelo menos, como é uma novela da Globo. Tá certo, é uma série do Globoplay... Mas Domingos sempre soube tirar leite da precariedade, justamente porque o foco de sua dramaturgia estava em outro lugar.

Mais do que justas na série são as participações especiais de sua viúva, Priscila Rozenbaum, e da filha, Maria Mariana. A trupe era sua família e a família integrava sua trupe, como não poderiam deixar de ser as relações de um homem que se dedicou a investigar (e viver) o afeto.

Se o documentário sobre Marielle é a série mais importante lançada neste primeiro semestre, Todas as mulheres do mundo é a mais necessária, por oferecer um quinhão de lirismo e esperança nesse tempo tão duro e sombrio que atravessamos.

*Alexis Parrot é crítico de televisão, roteirista e jornalista. Escreve às terças-feiras para o DOM TOTAL.

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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