Religião

08/05/2020 | domtotal.com

Isolados da oração comunitária, católicos latinos redescobrem raízes espirituais

Para latinos dos EUA, desafio do confinamento é a ausência da comunidade

Gilberto Cavazos-González, frade franciscano, celebrando a missa de Páscoa para sua família via Zoom
Gilberto Cavazos-González, frade franciscano, celebrando a missa de Páscoa para sua família via Zoom (Reprodução/ NCR)

Soli Salgado*
NCR

Elisabeth Román pediu uma pizza no domingo de Páscoa e ligou a TV para assistir um cardeal celebrar a missa. Foi um dia triste e solitário para ela, disse, intensificado pelo fato de ela ser uma pessoa muito animada.

Uma Páscoa normal significaria encontrar seus filhos, nora e netos na igreja, depois voltar para sua casa para o grande brunch que adora cozinhar – a festa e a reunião de família era como uma celebração prolongada da celebração eucarística. Em vez disso, no domingo da Páscoa, "havia uma sensação de perda".

A experiência de Román em isolamento é um conto típico para todos os católicos em muitos países, que ficam em casa para conter a propagação do coronavírus. Essas medidas de distanciamento afetaram a capacidade de orar em comunidade, uma prática que anima muitos latinos que, como Román, veem os relacionamentos como parte integrante de sua expressão espiritual e católica.

Mas observar rituais e orações sob o próprio teto também é um retorno histórico para esse povo, pois os latinos católicos primitivos viviam sua fé na privacidade de seus lares.

Agora, alguns consideram a interdição temporária do culto comunitário uma oportunidade para redescobrir "as raízes de nossa espiritualidade", disse Román, presidente do Conselho Católico Nacional do Ministério Hispânico. "Alguns de nós vêm de cidades que nem sequer contam com um sacerdote, então você está em casa e a avó reúne todos para rezar o rosário e falar sobre o Evangelho".

Mais uma vez, "estamos vivendo nossa fé dentro da nossa Igreja doméstica".

Agora, com os católicos celebrando a missa praticamente em casa, o diácono Pedro Laboy disse que se tornou uma oportunidade para incluir mais da família.

"Antes, eles iam à igreja e tinham seus próprios grupos de oração, rosário ou reunião da Legião de Maria", disse Laboy, membro da Associação Nacional de Diáconos Hispânicos dos EUA que ministra em Casselberry, Flórida.

"Agora eles se expandiram para que todos os membros da família possam participar; é aberto a todos", disse Laboy, acrescentando que viu esse momento despertar uma curiosidade renovada por aqueles que pararam de ir à igreja.

Para impedir que jovens católicos latinos se desencantem com a fé, Adriana Visoso disse que é importante que eles sejam convidados a uma variedade de práticas espirituais, para que possam descobrir o que gostam.

Caso contrário, "se eles não gostam, desistem... Não é que a fé não seja forte; é a metodologia", disse Visoso, presidente da La Red Catholic Network, que é dedicada ao ministério da juventude hispânica. (Embora os latinos com menos de 18 anos constituam a maioria dos jovens católicos dos EUA, ainda seguem a tendência nacional de se tornar menos religiosos a cada nova geração).

Para Román, o desafio é manter sua comunidade paroquial engajada e conectada, para que "possam continuar sendo Igreja enquanto nossos templos estão fechados".

"As pessoas esquecem a igreja tanto quanto a igreja esquece as pessoas", disse ela, parafraseando o recente aviso da secretária papal.

Origens espirituais

Quando os EUA assumiram a região sudoeste do México, uma das primeiras coisas que os bispos anglo-saxões fizeram foi fechar os seminários, disse Gilberto Cavazos-González, frade franciscano e pesquisador na área de teologia espiritual cristã. Eles não tinham certeza se esses povos indígenas eram totalmente humanos ou possuíam alma – muito menos se podiam ser candidatos viáveis para a ordenação.

Como resultado, os novos mexicanos-americanos foram para os bancos de trás da igreja "se fossem mesmo a Igreja", disse Cavazos-González, que é mexicano-americano. Ele acrescentou que aqueles que ainda estavam interessados no catolicismo começaram a perceber: "para os sacramentos precisamos de padres, mas para todo o resto, não precisamos". E acrescentou: "Então, começamos a viver nossa fé em casa. E agora com o coronavírus, estamos tendo que fazer isso de novo".

Até a década de 2010, o termo "espiritualidade" não era amplamente usado ou explorado entre os acadêmicos católicos latinos, disse Cavazos-González, ex-presidente da Academia de Teólogos Hispânicos Católicos dos EUA, cujo discurso presidencial chamou a atenção para o déficit em estudos latinos de espiritualidade. Na época, a maioria dos teólogos explorava o conceito pelas lentes da "religiosidade popular" – religião que pertence ao povo.

Para os católicos latinos, expressar sua fé pode parecer mais natural por meio de uma "espiritualidade emocional", como alguns descreveram: um relacionamento pessoal com Jesus que provoca uma resposta emocional (Cavazos-González observou que um relacionamento pessoal com Jesus é uma marca registrada das igrejas protestantes e evangélicas, provavelmente um fator que contribui para seu sucesso em atrair hispânicos para suas igrejas).

"Entre os hispânicos, essa mística sempre nos leva à comunidade, porque nossa espiritualidade hispânica não é individualista; é profundamente comunitária", disse Orozco, presidente da Associação Católica Nacional de Diretores Diocesanos do Ministério Hispânico, ou NCADDHM. "É uma espiritualidade sempre atenta ao outro, às questões da solidariedade".

Conexão uns com os outros, Deus e Maria

Quando os latinos de primeira geração chegam aos EUA, eles vão a um país com cultura, idioma e comida estrangeiros.

"A única coisa com a qual podemos nos conectar é com a Igreja Católica, e é a ela que nos voltamos quando chegamos aqui", disse Román, diretor do ministério latino-americano da diocese de Joliet, Illinois, e membro do conselho da NCR. Ela acrescentou que é provavelmente por isso que os latinos nos EUA são tão atraídos por seus altares e rosários.

A Igreja se torna não apenas um lugar para fazer novos amigos; torna-se o lugar onde não se sentem mais forasteiros, participando da missa na própria língua, se for oferecida, e voltando aos mesmos rituais e ritmos que conheciam em seus países de origem. A Igreja os faz sentirem como em casa.

O espírito comum e acolhedor entre os latinos não é algo sobre o qual eles costumam falar porque está muito arraigado na cultura, disse Visoso, diretor associado de programas de treinamento do Instituto Fe y Vida.

"Sempre procuramos pertencer a alguma coisa e, quando você encontra uma comunidade, mesmo em seu grupo, diocese ou paróquia, a parte do serviço é quase natural", disse ela.

Orozco acrescentou que, para os latinos, "a proximidade entre si é importante e torna esse momento de distanciamento social, em meio a uma pandemia, um desafio extra para uma cultura que valoriza os elementos tangíveis de sua espiritualidade", o visual, os cheiros, o toque, os relacionamentos "que compõem uma espiritualidade encarnada".

Quando lhe pediram a Cavazos-González que celebrasse uma missa virtual da Páscoa para sua família, notou que muitos membros começaram a se conectar 30 minutos antes da hora marcada, alcançando suas casas em Chicago ou Monterrey, no México, e continuaram conversando quase uma hora depois da missa.

"Eu penso que a Igreja é sobre isso", disse ele. "É uma conexão humana um com o outro que nos ajuda a melhorar nossa conexão com Deus. Se não temos a conexão humana, é inútil até tentar ter uma conexão com Deus".

Uma figura particular do cristianismo ajuda a preencher essa lacuna entre o divino e o humano, e tem uma presença difundida nas famílias e devoções latinas: Maria.

"A Jesus sempre se vai e se volta por Maria", como dizem os marianos – embora algumas pessoas possam "ficar presas a Maria", disse Cavazos-González, que também é secretário da Pontifícia Academia Internacional de Maria.

Ele disse que uma das razões para essa forte atração por Maria poderia ser o fato de que, diferentemente de Jesus, ela é identificável em sua completa humanidade; porque Jesus era humano e divino, há um pedaço dele que nunca será conhecível.

"Mas a humanidade completa de Maria, permite que possamos entrar em contato com isso".

Imaginando a Igreja pós-Covid

Sem uma data clara para quando as igrejas poderão preencher seus bancos como em qualquer domingo normal, Román disse que já está pensando em como as nuances interpessoais terão que se reajustar. Espremendo-se um ao outro para encontrar um assento, abraçando e apertando as mãos, aglomerando as populares missas espanholas – como será isso depois de meses nos protegendo de um contágio?

"Como Igreja, temos sentido só porque somos uma reunião de pessoas, então o que fazemos quando as pessoas não podem se reunir, estar perto ou se encontrar?" disse. "Teremos que nos adaptar a uma nova forma de culto e Igreja, e a esperança é que possamos voltar a ser quem éramos".

Olhando para a Igreja Católica em geral, Orozco disse que sente um grande senso de comunidade nascido dessa crise.

"Esse momento doloroso e poderoso também nos abriu pontes de esperança, que nos levam um ao outro", disse Orozco, que também é diretor executivo de dignidade humana e assuntos interculturais da arquidiocese de St. Louis.

"Não importa se você é católico latino ou polonês, temos uma experiência compartilhada da linguagem espiritual, do mistério pascal e fomos transformados por isso".

Com a pandemia também resultando em uma recessão global sem precedentes, Cavazos-González aponta para os possíveis desafios econômicos que as paróquias e o clero terão de assumir. Mas mesmo lá ele vê um lado positivo, com essa situação sendo um desafio direto ao clericalismo: as pessoas estão em casa e "são católicas sem padre".

"Existem maneiras de equilibrar a necessidade de um padre?" disse, acrescentando que as missas virtuais e íntimas permitem uma celebração mais aberta, pois ele convida outras pessoas a participarem da homilia e compartilhar seus pensamentos sobre as leituras. Ainda assim, disse, o desejo da Eucaristia provavelmente estimulará os católicos a voltar à Igreja.

Orozco mencionou uma aguda consciência de que o corpo de Cristo está sofrendo, mas com partes experimentando a crise mais intensamente do que outras. Este momento está pedindo a todos que "procurem as partes mais vulneráveis do corpo", disse, como os sem-teto ou os desempregados.

Laboy notou um novo apego a questões fundamentais – quem somos, por que estamos aqui – com esse tempo de intervalo servindo como "uma pausa para focar mais na espiritualidade".

Em última análise, esta crise é um pedido de mudança, disse.

"Biblicamente falando, toda vez que falamos de 40 dias de quarentena, sempre fazemos referência a um momento difícil, mas também um tempo que envolve mudança e graça".


Originalmente publicada em NCR


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*Soli Salgado é redatora do Global Sisters Report. Siga-a no Twitter @soli_salgado. O endereço de e-mail dela é ssalgado@ncronline.org



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