Cultura

11/05/2020 | domtotal.com

O homem de anteontem

Como lidar com os nossos 'retratos na parede'?

Cena de 'Boleiros', quando o personagem Naldinho manifesta sua tristeza
Cena de 'Boleiros', quando o personagem Naldinho manifesta sua tristeza (Reprodução/ You Tube)

Ricardo Soares*

Eu tinha acabado de ver uma cena comovente de Flávio Migliaccio no filme Boleiros, em que ele representa o ex-craque Naldinho, saudoso de outros tempos , com estádios lotados e a bola nos pés. Não se conformava por ter envelhecido e por suas glórias serem apenas retratos na parede do bar onde ele bebia com outros amigos ex-jogadores de futebol.

Essa singela e comovente cena do filme de Ugo Giorgetti sempre me tocou. Acho Boleiros um filme admirável e agora diante das circunstâncias da morte de Migliaccio ela me comove mais ainda. Como lidar com os nossos "retratos na parede"? A cena , se é que alguém ainda duvidava, revela que ele era um ator de primeira grandeza e ninguém tira isso dele. Deixou essa e tantas outras que protagonizou em sua longeva vida de ator. Uma vida que passou a ter limitações e foi isso que parece o ter entristecido a ponto dele tirar a própria vida. Não quis mais viver ao redor da sombra do que foi. Não quis mais ficar apenas olhando o espelho retrovisor em sua vida. E puxou o carro para outras dimensões por vontade própria.

Tocado mais uma vez pela linda cena de Boleiros calço meus próprios tênis da resignação diante da pífia figura que sou comparado com o que fui profissionalmente e parto para mais uma caminhada ao lado do meu vira-latão chamado Saci. É um dia de friozinho mas a umidade é pouca. A tarde cai com pouca luz e entro numa rua deserta onde costumo passar quase sempre. Um menino pequetito e magrito brinca com um ioiô um pouco afastado da mãe e de outras crianças. Levanta suavemente os olhos na minha direção, vê se aproximar esse “envelhescente” meio grandão, meio grisalho, barba por fazer, acompanhado do seu vira-latão preto e grita para a mãe mais de uma vez:

— Olha mãe, olha! É o homem de anteontem!

O menino se referia ao fato que dois dias antes passei por ali mesmo, na mesma hora e local, acompanhado pelo mesmo cachorro. Ele botou reparo e não esqueceu de mim de dois dias antes. Eu, o homem de anteontem, epíteto que mal sabia o menino me cabia como luva naquele momento.  Eu, sob o olhar simpático e complacente da mãe do menino  respondi para ela:

— Ele está certo... mal sabe que sou um homem de muito mais que um anteontem...

Sinceramente não faço ideia se a mãe do menino entendeu a minha resposta. Me olhou resignada quando eu descia a rua e parei para corresponder rapidamente ao abraço que meu cão me deu. Eu era mesmo um homem de anteontem que me sentia abraçado também pelo monólogo de Naldinho no Boleiros e queria urgentemente abraçar o personagem, o ator que o interpretou e todos aqueles que agora têm a sensação de que o melhor já passou. “O problema são essas fotos na parede. As vezes eu tento esquecer mas sempre vem a lembrança...”. Não há frase melhor do que essa do Naldinho para fechar essa crônica de anteontem.

*Ricardo Soares é diretor de tv, escritor, roteirista e jornalista. Publicou 8 livros, dirigiu 12 documentários.



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