Meio Ambiente

11/05/2020 | domtotal.com

Enquanto o mundo sofre pela pandemia, desmatamento na Amazônia intensifica

Desmatamento aumentou 55% nos primeiros meses em relação ao mesmo período de 2019

Desmatamento na bacia amazônica na cidade de Colniza, em 2019
Desmatamento na bacia amazônica na cidade de Colniza, em 2019 (Mato Grosso State Communication Department/AFP)

O coronavírus se tornou uma preocupação quase exclusiva da humanidade, mas enquanto isso o desmatamento na Amazônia brasileira se intensificou, aumentando os temores de que se repitam - ou inclusive se superem com folga - os índices recorde de devastação registrados no ano passado.

Nos primeiros quatro meses de 2020 foram desmatados 1.202 km2 de floresta amazônica - área correspondente a duas vezes a cidade de Santiago do Chile -, segundo dados de satélite divulgados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE).

Isso representa um aumento de 55% em comparação com o mesmo período do ano passado e a maior cifra para os primeiros quatro meses de um ano desde o início da série histórica, em agosto de 2015.

Os números trazem novos questionamentos sobre como o Brasil está protegendo a Amazônia legal durante a gestão do presidente Jair Bolsonaro, um cético das mudanças climáticas que defende a abertura de terras protegidas para a mineração e a pecuária.

"Infelizmente, o que podemos esperar para este ano são mais recordes de queimadas e desmatamento", lamentou, em um comunicado, Rômulo Batista, porta-voz do Greenpeace.

 "Paracetamol para dor de dente"

Em 2019, no primeiro ano de Bolsonaro no poder, o desmatamento na Amazônia teve um aumento de 85%, devastando 10.123 km2 de floresta. Esta perda causou alarme mundial sobre o futuro da maior floresta tropical do mundo, considerada vital para o equilíbrio do clima no planeta. A destruição foi impulsionada por incêndios florestais que alcançaram novos recordes e se espalharam mata adentro entre maio e outubro, assim como pelo desmatamento ilegal, a mineração e a pecuária em terras protegidas.

A tendência para 2020 se anuncia preocupante, visto que as atividades de desmatamento costumam se intensificar a partir do fim de maio. "O início do ano não é temporada de desmatamento porque é temporada de chuvas e está chovendo muito", disse Erika Berenguer, especialista em temas ecológicos das universidades de Oxford e Lancaster.

"Quando vemos que o desmatamento aumenta no começo do ano, é um indicativo de que quando a seca começar, no fim de maio, veremos um aumento também", disse.

Bolsonaro autorizou na quinta-feira as Forças Armadas a combaterem os incêndios florestais e o desmatamento durante um mês a partir de 11 de maio. No ano passado, o presidente também enviou militares para a mesma missão, após ser alvo de críticas dentro e fora do Brasil por minimizar a crise ambiental.

Para ambientalistas, seria mais eficaz que o governo desse mais apoio aos programas de proteção já existentes. Desde o início da gestão Bolsonaro, o Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais (Ibama) enfrentou cortes orçamentários e substituição de quatros técnicos.

O órgão, subordinado ao Ministério do Meio Ambiente, exerce o poder de polícia ambiental e executa as ações das políticas nacionais de meio ambiente. No mês passado, o diretor de proteção ambiental do Ibama, Olivaldi Borges Azevedo, foi exonerado depois de ter autorizado uma operação contra o garimpo ilegal no Pará, exibida pela televisão.

Outro problema da estratégia militar do governo, segundo Berenguer, é que está focada exclusivamente nos incêndios, ignorando o fato de que os mesmos são frequentemente provocados por grileiros, que derrubam as árvores e as queimam.

Ocupar-se unicamente dos incêndios é "como tomar um paracetamol para dor de dente. Vai reduzir a dor, mas não vai curá-la", compara.

 Tragédias irmãs

A pandemia do novo coronavírus complica ainda mais a situação da região amazônica, 60% da qual fica em território brasileiro. O país se tornou o epicentro da pandemia na América Latina, com quase 10 mil mortes.

O estado do Amazonas é um dos mais castigados pela doença. Com apenas uma unidade de terapia intensiva para atender um território que corresponde a três vezes o da Espanha, o estado está sobrecarregado pela pandemia.

Os ambientalistas temem que a proteção da floresta acabe relegada pela urgência sanitária.

O prefeito de Manaus, Arthur Virgílio Neto, vinculou as duas tragédias ao pedir ajuda à comunidade internacional. "É hora de receber uma troca de pessoal, tomógrafos, respiradores, equipamentos de proteção individual, tudo o que é capaz de salvar a vida das pessoas que protegem a grande floresta", disse em vídeo publicado esta semana.

"Tem vários factores aí (que impulsionam o desmatamento) e nesse contexto de coronavírus, eles são ainda mais preocupantes", disse a porta-voz do Greenpeace, Carolina Marçal.


AFP



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