Mundo

12/05/2020 | domtotal.com

O inesquecível discurso do rei holandês

No dia em memória dos mortos nas guerras, o rei da Holanda surpreende muitos ao se desculpar pelo quase desinteresse de sua bisavó pelos destino dos judeus-holandeses

O rei holandês Willem-Alexander com o rei Philippe da Bélgica durante o 5º Fórum Mundial do Holocausto no museu memorial do Holocausto Yad Vashem em Jerusalém, em 23 de janeiro de 2020.
O rei holandês Willem-Alexander com o rei Philippe da Bélgica durante o 5º Fórum Mundial do Holocausto no museu memorial do Holocausto Yad Vashem em Jerusalém, em 23 de janeiro de 2020. Foto (Reuters)

Lev Chaim*

No último dia 4 de maio, data em que se comemora a memória dos mortos das guerras em vários países do Continente Europeu, em especial dos mortos da Segunda Guerra Mundial, quando o rei da Holanda, Willem Alexander, acompanhado de sua esposa, da prefeita de Amsterdã, do primeiro-ministro, do chefe das Forças Armadas do País e da presidente do Comitê Organizador da Cerimônia, deixaram o Palácio do Dam, no centro de Amsterdã, e caminharam pela praça, totalmente vazia, até o obelisco em memória dos perecidos nas guerras, um arrepio passou pelo meu corpo.

Em todas as cerimônias passadas, a praça esteve abarrotada de gente por todos os lados acompanhando o cortejo e a cerimônia. Neste último dia 4, devido à pandemia do novo coronavírus, a praça estava vazia, sem público, num silêncio sepulcral. As autoridades estavam vestidas de preto, circunspectas, conforme a etiqueta do cerimonial. Caminharam a passos largos por cerca de alguns minutos até chegarem ao monumento do outro lado da praça. Tanto durante o trajeto, como quando lá pararam, eles se postaram na devida distância uns dos outros. Uma pequena orquestra os esperava ao lado do monumento. O chefe do cerimonial anunciava o que iria ocorrer. O rei e a rainha foram os primeiros a deixarem uma coroa de flores em frente ao obelisco, e depois foram seguidos pelos outros da comitiva. Tudo cronometrado.

O chefe do cerimonial anunciou o discurso de praxe do rei. Willem Alexander caminhou até o pequeno pódio com um microfone e se dirigiu ao povo holandês, que o assistia pela TV, já que a praça estava totalmente vazia, em silêncio.

Sério, com a barba aparada e o olhar sereno, o rei começou o seu breve discurso que vai entrar para a história do país. Em um determinado momento, ele disse: “Companheiros, concidadãos necessitados durante a Segunda Guerra Mundial, sentiram-se abandonados, totalmente não ouvidos, sem o apoio adequado, mesmo por palavras. De Londres, (onde a família real holandesa e o governo estavam exilados durante a Segunda Guerra Mundial) a minha bisavó, a rainha Wilhemina, reconhecida em sua luta na resistência, não tomou muito conhecimento da perseguição aos judeus holandeses pelos nazistas. Tudo isso me intriga e não sai da minha mente”.

Os presentes, que não eram muitos, e todo o país, que assistia pela televisão, tentavam deglutir aquelas palavras que, mais tarde, foram consideradas históricas, não só pelos próprios judeus e suas instituições no país, como também pelo homem comum de bom senso que percebeu tudo que havia sido dito, naquela pequena reflexão do rei Willem Alexander. A História estava sendo feita ali, naquele exato momento. Apesar da rainha Wilhemina ter feito algumas menções ao destino dos judeus holandeses que morreram em campos de concentração nazista, quase no final da Segunda Guerra Mundial, em entrevista na rádio Oranje da capital britânica, ela não era vista como uma pessoa que entendia a problemática toda. Segundo o seu biógrafo e historiador Cees Fasseur, falecido em 2016, quando os judeus alemães começaram a ter enormes problemas com o regime de Hitler, no início do que ficaria conhecido como um dos lados negros da história, e pediram refúgio ao governo holandês, este reservou um pedaço de terra para eles próximo ao palácio de verão da rainha Wilhemina, o palácio Het Loo, no Nordeste do país. O governo e a prefeitura local estavam de acordo, mas a rainha vetou o projeto com a justificativa de que tudo estava muito próximo de seu palácio.

Essas históricas palavras do rei Willem Alexander no dia em memória dos mortos das guerras e em especial aos mortos da Segundo Guerra Mundial, segundo o rabino Awraham Soetendorp, mostrou duas coisas. A primeira foi “que a geração de hoje continua a tirar lições do passado”. E segundo, que esse momento do rei holandês, provavelmente terá sido inspirado pelo seu falecido pai, príncipe Claus, alemão de nascimento, mas que sempre inspirou a família inteira rumo ao lado correto da história. Soetendorp lembrou ainda as palavras da então rainha Beatrix, mãe do atual rei, frente ao parlamento israelense, em seu discurso de 1995, quando ela ali disse “que os seus conterrâneos pouco fizeram contra a perseguição nazista aos seus conterrâneos judeus holandeses”. Na época, muitos já disseram que ali, atrás daquelas palavras da rainha, estava a mão de seu marido, o príncipe Claus.

Portanto, este último 4 de maio jamais será esquecido, não só pelo silêncio total por causa da ausência de público devido à crise do novo Coronavírus, mas principalmente pelas reflexões expressadas claramente pelo rei holandês, sobre a quase omissão total por parte dos holandeses, povo e governo, na defesa de seus conterrâneos judeus, durante a Segunda Guerra Mundial. Após essas palavras do rei, o silêncio ficou ainda mais pesado, para logo depois aliviar, e deixar todos mais alegres, contentes com o seu rei e suas palavras. Tudo isso se enquadra dentro da atual tendência do governo holandês, de espiar e reconhecer as suas falhas históricas.

Parabéns Willem Alexander, rei de todos os holandeses, independente da raça, da cor e da religião. E você, meu caro leitor, o que pensa de tudo isto?

*Lev Chaim é jornalista, colunista, publicista da FalaBrasil e trabalhou mais de 20 anos para a Radio Internacional da Holanda, país onde mora até hoje. Ele escreve todas as terças-feiras, para o Domtotal.

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



Comentários
Newsletter

Você quer receber notícias do domtotal em seu e-mail ou WhatsApp?

* Escolha qual editoria você deseja receber newsletter.

DomTotal é mantido pela EMGE - Escola de Engenharia e Dom Helder - Escola de Direito.

Engenharia Cívil, Ciência da Computação, Direito (Graduação, Mestrado e Doutorado).

Saiba mais!



Outros Artigos

Não há outras notícias com as tags relacionadas.