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12/05/2020 | domtotal.com

Não Destruirás

Oportunidades infinitas para fazer exatamente o contrário estão escancaradas diante de nossas faces

Fragmento de 'Moisés com os Dez Mandamentos', de Rembrandt
Fragmento de 'Moisés com os Dez Mandamentos', de Rembrandt (Wikimedia)

Jose Antonio de Sousa Neto*

Os Dez Mandamentos são eternos posto que são divinos. Mas a eternidade traz em seu bojo uma dimensão que com frequência nos escapa: o da amplitude. Claro, se é divino não poderia ser de outra forma, mas a amplitude é uma coisa que ao homem só vem aos poucos nas epifanias do espírito e da alma. Na nossa limitada realidade percebida é como uma música clássica cujos detalhes, dimensões e abrangência só se percebem com o tempo. Só aí se pode ir aos poucos compreendendo a maravilhosa conexão entre eles; compreendendo que todos eles são “Um” só: um transcendente hino de louvor à Vida cuja magnitude e implicações ainda nos escapa.

Mas se todos os mandamentos são ao mesmo tempo apenas “Um” por que este “Um” veio na forma de dez?  Por que não 7 que é um número “cabalístico”, ou apenas, por exemplo, oito ou seis? Antes de tentar imaginar um possível porquê, há de se reconhecer primeiro que ele foi enviado, através dos israelitas, a uma população planetária de coração duro, embrutecida pela ignorância que escraviza a alma e o espírito. E, justamente por isso, veio como um instrumento libertador e sobretudo revolucionário para uma época que, embora muitos não compreendam ou por livre arbítrio escolham não compreender, se estende até os dias de hoje. Bom, mas tendo sido enviados de Fonte Perfeita sou capaz de imaginar que se tivéssemos sido criados (incluído evidentemente a “engenharia” do próprio processo evolutivo) com quatro ou três dedos em cada mão teríamos respectivamente oito ou seis mandamentos que de toda forma também seriam “Um” só hino de louvor à Vida.

Porque nos escapa a compreensão da vida em toda a sua plenitude. tendemos a ver apenas o sentido literal dos mandamentos mesmo que estejam corretos também por uma perspectiva mais restrita. Por exemplo, “Não matarás”, “Não roubarás” e “Não levantarás falso testemunho”. Mas tudo que não seja um “Louvor à Vida”, à sua criação e acima de tudo ao seu Criador que é a própria Vida só pode ser uma antítese a ela e uma forma inequívoca de destruição. E isso vai muito, mas muito além do material. Através de mentiras, calúnias e palavras que humilham, tantas e tantas vidas têm suas esperanças e dignidades “roubadas“.  Através de palavras e ações tantos caminhos e oportunidades são “mortos”. Pensemos no “Não cometerás adultério”. Aqui sempre me lembro de uma das lindas passagens do Talmude hebraico principalmente em uma semana onde se comemora em boa parte do mundo a benção bendita da maternidade e da vida que se faz presente através de suas mensageiras:

Cuida-te quando fazes chorar uma mulher, pois Deus conta as suas lágrimas. A mulher foi feita da costela do homem, não dos pés para ser pisada, nem da cabeça para ser superior, mas sim do lado para ser igual, debaixo do braço, para ser protegida e do lado do coração para ser amada.

Mas este mandamento vai muito além da mulher. Aqui os princípios são os da fidelidade e lealdade compreendidos de forma ampla como pilares, mais uma vez, da própria “Vida”. E, mais uma vez, é evidente que a antítese destes princípios inexoravelmente conduz a destruições que são, portanto, antíteses da Vida ela mesma.

E se tomarmos o primeiro mandamento “Adorar a Deus e amá-lo sobre todas as coisas” estamos falando mais uma vez da própria “Vida” e de tudo que dissemos anteriormente. Nesta breve reflexão não há espaço para irmos de um a dez, embora o primeiro, o próprio “Um”, para quem tiver o privilégio de compreender, já englobe todos eles. Talvez se tivéssemos sido criados com um só dedo o mandamento único para nós como um povo abrutalhado e de coração duro poderia ser “Podeis tudo menos destruir qualquer coisa da vida na matéria, no espírito e na alma”. Mas como a Providência não erra a literalidade foi necessária e termos dez dedos também.

Peço ainda à Providencia que, sempre e particularmente nestes momentos de desafios e turbulência, tenha misericórdia de todos nós.  Através de situações rotineiras, mas também através das instituições e da “grande mídia” quando desvirtuadas em seus papeis fundamentais, acompanhamos diariamente um constrangedor rastro de destruições em cadeia. Em situações de grandes desafios, mesmo no mundo material, propósitos e almas se tornam transparentes. Se é assim aqui, imaginem do outro lado da vida. As coisas certamente chegam lá muito mais rápido que com 5G e com muito, mas muito mais pixels em um contexto de altíssima resolução. Temos todos de tomar cuidado e de ter sabedoria para não acumularmos “carmas”. Nem individuais, nem coletivos! Oportunidades infinitas para fazer exatamente o contrário estão o tempo todo escancaradas diante de nossas faces.

*José Antonio de Sousa Neto é professor da EMGE (Escola de Engenharia e Computação)



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